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segunda-feira, 27 de maio de 2013

NOVIDADES!

Oi, galera! Tudo na boa?
Estou envolvido em dois grandes projetos. O primeiro é uma exposição dos meus desenhos, que pretendo usar como peça publicitária para divulgar o blog no lançamento de meu livro de crônicas, que deve sair.... Algum dia nesse ano. O outro, não tão importante assim, é que estou trabalhando também num antigo sonho de fazer uma história em quadrinhos da Alexia, então não se espantem se eu ficar algumas semanas sem atualizar as coisas por aqui. A outra novidade é que agora a Família Addams de São Modesto também está tocando o terror no Facebook, então aqueles que acompanham minha saga há pouco tempo também podem fazê-lo pelos links abaixo:

http://www.facebook.com/TerraDeExcluidos (Em português)
http://www.facebook.com/groups/598967510122689/ (Em inglês macarrônico :P)

Sem mais, até mais ver, gente!

OCULTAÇÃO DE CADÁVER

NO PORÃO DO EDIFÍCIO DECREPTUS, os três tentam fazer a instalação elétrica voltar a funcionar. No maior breu, Uli e Jakson seguram as lanternas e Manolo tenta operar a caixa de fusíveis com ajuda de um manual.

- Valeu pelo telefone da ruivinha, Uli.
- Rastafaris sempre alerta, carioca. Mas e então? Ocê tá mesmo a fim de Lexi?
- Bom... É impossível pra qualquer macho ficar indiferente àquele monumento, né?
- Assino embaixo!
- Gostosa pra cacete! Que olho verde é aquele, Jamaica? E, principalmente...-Faz o gesto de circunferência ao redor do peitoral.- Caralho! Que comissão de frente é é aquela? Portar aquilo tudo devia ser crime!
- E sabe do que mais? Nenhum milímetro dela nunca recebeu ajuda do bisturi, rapaz. Conheci a gata em seus 17 anos, e ela continua com a mesma cara até hoje!
- Linda de matar, talentosa... Só tem um probleminha. Parece que é inteligente demais. Ela me contou de onde vem o talento dela, cheguei a ficar meio apavorado!
- ÔU! DÁ PRA TU PARAR DE BALANÇAR A PORRA DA LANTERNA, JAKSON?- Manolo briga com o irmão- A PARADA AQUI É PERIGOSA!
- Opa, foi mal. Como é que tá aí?
- Ninguém mexe nessa fiação há muito tempo... Só dá cabo roído de rato e ligação podre. A gente vai ter que refazer a fiação todinha antes de pensar em puxar o gato.
- Ocê deve entender de eletrônica pra cacete, hem, maluquinho?- Uli se interessa.
- Dou minhas quebradas por aí... Lá no hospício, já dei muito curto-circuito nos portões elétricos pros internos fugirem.
- Dizaí, que papo é esse de hospício?
- Nem queira saber, Jamaica.- Responde Jakson.
 Bom...- Manolo corta uns fios com um alicate, limpa a ferrugem com um pedaço de lixa e os emenda de volta com fita silver e uns band-aids usados do próprio corpo- Até a gente voltar com os cabos novos, deve quebrar o galho essa amarração. Alguém quer ter a honra de ligar a chave?
- Jah não permite!
- Sai fora, véio! Quer me matar?
- Cambada de frescos..

Ele liga a chave e os circuitos explodem na cara dele com tanta energia que voa arrastando pelo chão e dá de cabeça na parede. As lâmpadas dos postes ao redor do velho prédio até dão pique com o curto-circuito. Manolo, totalmente grogue, abre  os olhos e a boca, seus dentes ficaram cobertos de cinzas com o choque. Mas a luz do prédio de algum jeito volta a acender!

- UHUUUUUU! Caralho, isso sim que é onda! Ai, mnha vozinha...
- É, parece que ocê leva jeito mesmo pra esse tipo de coisa, hem, maluquinho?- Uli limpa as cinzas do cachimbo.

No seu gabinete em casa, o prefeito está ao telefone.

- Alô? Dona Valquíria? Pode me passar para o supervisor-chefe da empresa, por favor?

Aguarda, batucando o ritmo da musiquinha de espera na mesa.

- Sr. Edelberto? Sou eu, Chico.Hoje às 14:30 eu agendei uma inspeção com o dono de uma doceria às instalações da fábrica. Quero que seus homens escondam qualquer coisa que possa me incriminar aos olhos dele, OK? Dá um banho de rodo aí em tudo que logo logo a gente vai chegar. Compreendido? Ótimo. Nos veremos em breve.

Do outro lado da linha, o supervisor, chocado, desliga o telefone com as mãos trêmulas.

- Nossa Senhora!

Ele sai correndo da sala e gritando feito louco.

- PAREM TUDO! PAREM TUDO!
- O que aconteceu, patrão?
- A fábrica vai passar por uma inspeção hoje à tarde, temos que limpar tudo o mais rápido possível!
- Como assim ‘tudo’?- Pergunta um empregado.
- Quando eu digo TUDO, quero dizer TUDO! 100%!- Edelberto pega um megafone- Atenção, equipe! Queremos todos os animais mortos, insetos, mendigos, cigarros, garrafas de cana e qualquer outra atividade ilícita fora da fábrica em uma hora! Inegóciável! Mãos à obra!

Todo mundo sai correndo desesperado.

Chicão sai de casa, entra na limusine e fala com o motorista pela janelinha divisória.

- Leve-me à fábrica, por favor, seu Fitipaldi.
- Pois não, sr. prefeito.

sábado, 18 de maio de 2013

BONITINHAS, MAS EXTRAORDINÁRIAS



AS CINCO MENINAS E A TREINADORA tomam café da manhã no balcão do posto. Toca Meu Refrigerador Não Funciona, dos Mutantes, no rádio.

- SÉRIO?! Ela conseguiu segurar um ladrão sozinha no shopping? É nossa menina de ouro!- Brígida,  líder do time, dá um tapinha nas costas de Clarissa. 
- Tudo é fácil de fazer quando a gente é atleta, né?- Clarissa disfarça a falsa modéstia.
- Vou avisando.- Diz a treinadora- Aqui eu deixo vocês comerem à vontade... Mas quando a gente voltar pra capital, serão oito voltas em torno da Pampulha, no mesmo tempo que levam para dar cinco, entenderam?!
- Sim, treinadora...- Toda respondem em tom monocórdio e robótico.

Alexia apanha cinco potes do doce de cajá-manga na dispensa.

- Quem vai...?

Elas avançam no doce como um bando de lobos famintos, derrubando a moça no chão.

- Por Kurt! Calma, gente! Tem pra todo mundo! Por enquanto...
- Olhem lá, garotas! São 800 calorias por colherada. Quando voltarmos para a capital, nem quero estar embaixo do couro de vocês!
- Sim, treinadora...
- É, o prefeito pode não conseguir nem soltar pipa sozinho- Diz Bárbara, tirando uns pães de queijo do forno- mas esse doce dele é um pecado!

Depois do café, as meninas improvisam suas rotinas de ginástica de solo no acimentado do posto, ao som  de Alexia em uma guitarrinha baiana moldada como a guitarra Jag-Stang de Kurt Cobain. As mulheres do recinto ficam admiradas com a habilidade do time. Bárbara tenta se mostrar indiferente, mas não consegue conter a emoção. A treinadora toca o apito.

- Chega.! Muito bom, muito bom, garotas. Mas para serem perfeitas ainda têm uma estrada enorme a percorrer! Retomaremos o trabalho sério na capital. Pro chuveiro!
- Graças a Deus!- Resmunda Brígida.
- Tô morta!- Resmunga Rita.
- Também.- E a irmã gêmea.
- A senhora tá de parabéns, Treinadora.- Flor a felicita- Nunca vi Clarissa tão forte, e mesmo assim, graciosa.
- É todo um trabalho em equipe, Srª Bernardes. Elas se ajudam muito e se incentivam sempre que alguém pisa na bola. Sinergia absoluta.
- Um trabalho incrível, treinadora. O time vai brilhar no país todo!

O celular de Alexia toca no bolso de suas calças jeans sempre estropiadas e ultrajustas.

- Cencinha, gente. Alô? Aaaaaah, ocê, Jakson... Me deixando plantada lá na estrada, né? E ainda vem pedindo perdão... Tá, tá, pára de espernear, rapaz! Apruma, pôxa! Olha... Por incrível que pareça, eu tô a fim de te perdoar, sim. Quer encontrar comigo lá no bar do Escocês mais tarde? Depois do almoço tá bom procê? Ok, então. Me aguarde!

Joga um beijo pelo celular. Ela desliga.

- Qualé, prima? Ainda joga beijinho pro malandro que preferiu um skate a ocê?
- Minha técnica infalível, Barbie. Dou esperanças pra ele, e depois deixo o sujeito com as calças na mão. Não esqueça que eu ainda tenho aquele assunto das 100 mulheres dele pra resolver, lembra? Se depois de sabatinado ele ainda insistir em me ver, aí é rock n roll!
- Ah, tá...
- Olha, treinadora.- Diz tia Flor- A gente precisa de uma ajudinha pra enfeitar a casa pro aniversário de Clarissa. Se importaria de emprestar as garotas pela tarde?
- De forma alguma!
- Ô, Clá? Acho que a gente já passou tempo demais aqui no posto. Vamo pra casa?
- Vamo sim, mãe. Tô com saudades do Sabata e de meu bercinho!
- MEU bercinho, pro seu governo!- Implica Bárbara.
- Tanto faz. Vamos, meninas?

Enquanto elas voltam para a van, Alexia ri baixinho.

- Barbie, Barbie... Apesar de mais velha, ainda consegue ser tão criançona...
- Tentar vencer com as mesmas armas do inimigo não é crime.

terça-feira, 7 de maio de 2013

PRESENTÃO!




- O QUÊ? COMO ASSIM?- Josué, o gigante polonês, mestre de obras da nova prefeitura, discute no telefone de maneira apavorante. Os peões da obra escutam os berros vindos do almoxarifado, impávidos- Ele quer reduzir ainda mais o orçamento da obra? Não tem condição! Eu já trabalho nesse canteiro há três anos, nesse tempo a gente só levantou o primeiro andar de um prédio de cinco! Já cortou pela metade a brita, a cal, o concreto, e agora mais essa? Tenha santa paciência! O que Chicão espera que a gente faça, que espalhe a argamassa com uma faca de manteiga pra fazer render? Ah, vai... Olha, não quero nem saber de nada, seu Iracy! Nessas condições, se você não conseguir fazer o prefeito mudar de idéia, pode pegar meu capacete, meu crachá e enfiar naquele lugar dele! Te dou até terça-feira pra cumprir minha exigência. Passe bem!

Ele bate o telefone no gancho e arrebenta a porta do almoxarifado com um chute. Os operários saem todos do caminho enquanto ele anda a passos tão pesados como os de King Kong. Vai até o bebedouro, aperta o botão da torneirinha e não sai nada. Com sangue nos olhos, ele começa a espancar o aparelho até ficar parecendo uma latinha de refrigerante achatada.

-QUE É QUE FOI?!? TÊM NADA PRA FAZER NÃO? VÃO LEVANTAR UM MURO, ANTES QUE ADONAI CASTIGUE!- Todos os peões saem correndo apavorados.

Do lado de fora do posto, Clarissa treina sua rotina de acrobacias de ginástica, usando um velho banco de madeira como cavalete. Alexia toca Brasileirinho no violão para acompanhar a prima. Bárbara assiste à rotina com indiferença.

- Isso aí. A nova foca amestrada do zoológico...- Diz Bárbara, irônica.
- Quieta, Bárbara! Isso é jeito de falar de sua irmã?- Flor a repreende- Parabéns, filhinha! Melhorou muito desde ano passado!
- Isso aí, prima!- Concorda Alexia- Daiane dos Santos ia morrer de inveja.
- Por isso que ocê resolveu tocar logo essa música, Lex?
- É mesmo, Lex. Foi a primeira música da sua vida.- Diz Bárbara- Por que foi se lembrar dela justo hoje?
- Ah, nem sei, Barbie...

Ela manda o solo final a 500 por hora no violão, chegando a estourar duas cordas.

-Boa, Armandinho!- Brinca a prima.

Clarissa tenta dar um avião no encosto do banco, mas acaba perdendo o equilíbrio na ponta do pé e cai deitada no banco. As três vão ajudá-la.

- Minha filha!
- Que foi que aconteceu?
- Nada não, gente. Minhas pernas ainda tão meio moles da viagem. Acho que vou voltar pra cama...
- Dormir MAIS? Parece até um urso!

Elas são interrompidas por uma van roxa entrando na estrada de chão, a caminho do posto.

- Olha só!- Bárbara se impressiona- Vêm vindo fregueses aí!
-Todas quietinhas aí atrás!- Diz a motorista- Não vão estragar a surpresa!

Assim que a van encosta e o vidro da porta direita começa a baixar, Bárbara começa a falar.


- Olá, forasteiros! Bem-vindos ao posto...

Clarissa reconhece os olhos azuis gélidos e o cabelo preto curto amarrado e fica espantada.

- Treinadora Trucão?
- E não vim sozinha...

A porta maior da perua se abre, revelando as colegas de Clarissa, cheias de presentes nas mãos.

- SUUUUUUURPREEEEESAAAAAAAAA!!!
 - Brí! Den! Liu! Ritinha!! O que vieram fazer aqui?
- Como o que viemos fazer, Azul?- Pergunta a ginasta negra.
- Achou mesmo que a gente ia deixar seu níver passar batido, boba?- Emenda uma das gêmeas.
- Não fosse eu ter o Google Earth no celular a gente nem tinha conseguido chegar aqui, Clá.. Em todo lugar que a gente perguntava por São Modesto, as pessoas diziam “ONDE?”
- Pôxa, meninas! Eu tô até emocionada...- Começa a chorar de alegria. As colegas dela saltam para fora da perua para um caloroso abraço em grupo.

- Azul, Azul...- Brinca Aldênia- Sempre a mais emotiva da turma...

Todas começam a cantar o Parabéns da Xuxa, carregando a colega nas costas. 

No Edifício Decreptus, Manolo, Jakson e Ulysses vasculham a área com lanternas.

- Viu só, Jakson?- Diz Manolo- A casa tá todinha mobiliada! Basta colar uns pôsteres, puxar um gato no poste, dar uma espanada em tudo... O único galho vai ser arrumar água encanada, mas...
- Fecha o bico, Manolo!

Enfia um chute na virilha dele, que cai de joelhos. Vem apontando o indicador no nariz do irmão caçula.

- Viu o mico que tu me fez pagar? Deixei Alexia plantada lá no meio da estrada pra vir te pegar, seu leproso! Agora ela deve tá me querendo morto!
- Também, quem mandou trocar um par de seios por dois pares de rodas? Tu foi um tremendo zemané!
- Não fala mais comigo, cabeção! Vai caçar tua turma!

Uli acende seu cachimbo.

- Pára de ferver, carioca! Ó. Ocêis dois ainda não conhecem Alexia direito. A gente já namorou por cinco anos, fiz coisa muito pior com ela e a gente continua amigo! A mina tem uma cabeça boa. Assim que ‘cês dois se encontrarem de novo, vai ser como se não tivesse acontecido nada.
- Verdade isso? Tu e ela já ficaram?
- Pode escrever, carioca. Ninguém resiste ao meu charme de mascate!
- Convencido...

sábado, 27 de abril de 2013

O LEGADO DOS ROTSCHEIDER


O PREFEITO RECEBE EM SEU gabinete um entrevistador e um senhor calvo de bigode grisalho, usando terno cinza-escuro e gravata azul.

- É claro que estou interessado em fazer sociedade com o senhor. É uma oferta que eu seria maluco se recusasse! Sempre sonhei com o dia em que uma receita tão tradicional como a da minha família pudesse ser apreciada em todo o país!
- E talvez em todo o mundo, Sr. Rotscheider.

Ele lambuza uma bolacha de água e sal numa colherada do doce de cajá-manga e tenta não parecer guloso ao esfregar o manjar divino nos lábios.

- Eu havia encomendado muitas pesquisas a respeito dessa compota, mas nunca imaginei que pudesse ser tão deliciosa!
- Até me encabula com seus elogios, Sr. Colombo. Nada faço além de continuar com uma tradição familiar.
- Poderia contar-nos mais a respeito da compota, Sr. Rotscheider?- Pede o jornalista que os acompanha.
- Basta ligar o gravador, tenho a resposta na ponta da língua.
- Com sua licença.

- Bom... Tudo começou por volta de 1873. Neste ano, meu bisavô, Otto Rotscheider, fez sua primeira viagem de navio para a América do Sul, e regressou para a Bavária trazendo mudas de inúmeras frutas tropicais, especialmente de cajá-manga, que ele adorou conhecer. E, por incrível que pareça, todas as mudas conseguiram crescer em solo bávaro. Naquela época minha bisavó, Brunilda, era uma famosa doceira da região. Ela tentava na época vender uma nova compota a base de batata-doce para passar no pão, mas todos achavam a criação muito estranha e ninguém queria experimentá-la. Então ela teve uma idéia insólita: Substituir as batatas pelo cajá, que ela também havia apreciado, acrescentando o toque especial da família Rotscheider. Ainda desacreditada, ela começou a vender a nova receita, e em poucas semanas, cavaleiros e carroceiros faziam fila em frente à sua doçaria, apenas para comprar a compota.

Termina de comer a bolacha e prepara mais uma.

- E a receita secreta da bisa Rotscheider foi passando de pai para filho, até chegar em minhas mãos há 30 anos, quando resolvi fabricá-la e vender em todo o Estado. E, como podem ver...

Todas as bolachas do pratinho e o doce acabaram.

- Sempre faz sucesso. Tanto que, pelo menos aqui na cidade, é um hábito comum enfiar a mão no pote e se lambuzar todo enquanto come o doce.
- Tenho de reconhecer, Sr. Rotscheider.- Intervém o Sr. Colombo. Manter essa delícia conhecida somente em Minas é um pecado! Por mim, começava a exportá-la para o exterior imediatamente! Então? Podemos ir á fábrica esta tarde?
- Claro que sim, Sr. Colombo. A hora que preferir.

Os dois apertam as mãos.

Enquanto isso, Alexia volta para casa, fula da vida por ter sido largada na estrada.

- Ué, o que aconteceu, Alexia?- Pergunta Tia Flor.
- Parece até que viu um cadáver na estrada, priminha.
- Antes fosse... Só fui vítima da estupidez masculina de novo. Eu e Jakson vínhamos caminhando pelo acostamento, aí Ulysses e o irmão caçula de Jakson vieram encher nosso saco. O moleque tomou o skate de Jakson e foi embora. Ele saiu correndo atrás deles e me deixou sozinha na estrada, pode?
- Coitada...- Bárbara serve um café pra a prima.
- Valeu, prima.
- Homem nenhum presta, sobrinha. Mas sem eles, o que seria de nós?
- Provavelmente... Menos preocupadas com a magreza.
- Deixa estar, Alexia. Se eu conheço homens, logo esse aí vai voltar, pedindo perdão de joelhos, como todos eles.
- E eu vou acabar aceitando, né, tia? Apesar de parecer um cafajeste... Reconheço que ele é um mago do abraço! Só de ele me tocar, já senti a espinha arrepiar toda!
- É impressionante. Ocêis duas têm uma facilidade tão grande de se relacionar com garotões que não têm onde cair mortos...
- A gente não pode fazer nada, tia. Mulher nenhuma se imagina transando com um nerd gordinho que coleciona selos.
- É... Com o nerd a gente não transa, a gente se casa com ele!- As três gargalham com a brilhante conclusão de Bárbara.












terça-feira, 16 de abril de 2013

ROCK N' ROLL! (PARTE 2)


JAKSON E SUA POSSÍVEL FICANTE PASSEIAM pela estrada, ela vem tentando acompanhar o ritmo dele no skate a pé.

- Desde que eu nasci, sinto um... Um ritmo, uma energia dentro de mim, sabe?- Ela conta- Quando era recém-nascida, ficava batucando com os calcanhares no berço da maternidade no ritmo da música de ninar. Sabe com que idade tirei a primeira música de ouvido?
- Hum... Sei lá. Uns sete anos?
- Prepara a cara de espanto. Com dez meses!

Dito e feito. Seus olhos esbugalharam, e seu queixo caiu.

- COMO É QUE É?!? SÓ DEZ MESES?!?
- Não sei como, mas simplesmente aconteceu. Mãe tava ouvindo rádio na cozinha, simplesmente peguei um violão velho que tinha lá em casa e... A bala bateu.
- Tô bolado, mina. Eu já tinha manjado que tu era esperta, mas nesse nível?
- E sabe qual foi a música? Brasileirinho.

Ele quase fica catatônico.

- Te contaram depois que cresceu?
- Não. Cada passo que eu dei desde que nasci continua registrado em minha cabeça até hoje.
- Caraaaaaaca, maluco!
- Quer dizer, menos quando eu tomo todas.
- Claro, ninguém é de ferro.
- Ninguém nunca entendeu como eu consigo ter essa memória toda. Na escola peguei fama de caxias, mas nunca dei muita bola pra estudos. Só lia tudo uma hora antes das provas, e sempre fechava.
- Éééééé, tu não é nada fácil, ruiva...

Sem querer, ele a ultrapassa no skate, enquanto tentava maquinar tudo o que ouviu.

- Espera aí, pôxa! Tô em desvantagem aqui atrás!
- Foi mal, gata.

Ele dá uma paradinha para esperar, e percebe o Fleet vem acelerando a toda atrás dos dois.

- Saudações, peregrinos!- Cumprimenta Ulysses.
- Caramba, Uli! Que susto é esse?- Alexia o repreende- Tá querendo me matar do coração, é?
- Desculpa o mal jeito, gente. Nóis tá indo fazer uns consertos lá no Decreptus e viemos atrás de vocês pra conseguir mão-de-obra grátis.
- Ah não, Manolo!- Reclama Jakson- Eu disse que a gente ia conversar sobre essa história ainda, pô!
- E eu tenho culpa se teu ronco soa como um ‘sim’? Anda, sobe logo aqui com a ruivinha.
- E se a gente não quiser ir?
- Ah, não querem ir, né? Então acelera, jamaicano! Senta a pua!

Assim que ele religa o carro, Manolo abre a porta e puxa o skate das mãos de Jakson pra dentro, mostrando o dedo do meio enquanto somem na estrada.

- ÔU! VOLTA AQUI, CARALHO!! MANOLO, EU VOU TE MATAR, MANOLO!!!- Jakson sai correndo atrás do carro, deixando Alexia sozinha.

- Ô! Ô, e eu aqui, Jak... Jakson! Me espera, cara! JAKSOOOOOON!!!

Sai correndo atrás dele.

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Desculpa a demora pra atualizar, gente! Agora tô fazendo um curso de AutoCAD pra ver se paro de ser um encostado, e o FDP tá tomando td meu tempo pra desenhar e escrever. Até por volta do meio do Mês que vem, vai ser bem mais difícil aparecerem atualizações por aqui. Mas continuem visitando!  ;)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

ROCK N' ROLL! (PARTE 1)



MAIS TARDE, ALEXIA vai entrando no quarto e escuta uma discussão vinda do quarto ao lado. É Jakson, exibindo uma imensa tatuagem dos touros do Red Bull no peitoral e uma cruz de Malta em cada bíceps, aloprando com o irmão. Ele possui um contrabaixo azul todo coberto com adesivos, ao passo que o irmão caçula tem algo que, num passado distante, foi uma guitarra Jennifer modelo Magnus, uma marca de péssima reputação, que nem mesmo músicos amadores têm coragem de comprar. Pode-se dizer que ela costumava ser preta, mas de tão desgastada e corroída, parece que passou a última década nos intestinos de um dragão. As cordas estão todas enferrujadas e seu braço empenado tem um remendo no meio.

- Tu me deixa doido, sua anta! Não dá pra entender como teu cérebro funciona!- Ele pragueja, andando em círculos pelo quarto e apontando o dedo para o irmão mais novo, com raiva- Quando tu voltou lá pra casa, em um ano te ensinei tudo que sabia de teoria musical. No ano seguinte, tu fez aquele recital solo da Sonata ao Luar de Beethoven, lembra? Então... Então me explica por que eu não consigo te ensinar a tocar três acordes na guitarra, caralho? Me explica!
- Violino e violoncelo não é a mesma coisa que guitarra, né?
- Mas é muito mais fácil, pô! É só me acompanhar sem errar! Vá lá, doido... Mais uma vez, e se tu sair do compasso de novo, vai tomar tanta piaba que vai parecer que tua nuca tem um tumor, tá ligado?
- Vai, vai, vai...
- Então te cuida, hem? Vamo nessa... Six Pack, do Black Flag, 5, 4, 3, 2...

Jakson aperta o play no aparelho de som e logo dá início à lancinante introdução de contrabaixo da música Six Pack, da banda punk californiana, acompanhando com perfeição a velocidade sobrehumana de Chuck Dukowski.

- Começa, Manolo! Começa!

O irmão entra lentamente em ação, abafando as cordas em que palheta passa, acompanhando os pequenos arranjos de Greg Ginn. Logo ele começa a martelar os mesmos acordes do irmão mais velho, acompanhando-o quase perfeitamente, ainda que o som extraído de sua “guitarra” mais lembre os trinados e rangidos de um bando de morcegos. Mas ao sair da introdução e entrar de verdade na música ele se atrapalha todo. Jakson, irritado, solta o baixo do cabo e dá com ele nas costas do irmão, que voa em estado de semiconsciência até a porta do apartamento como um aviãozinho de papel.

- Desisto! Tu não tem salvação na guitarra! Vai procurar tua turma e me deixa em paz!

Alexia assistia a tudo pela fechadura, quando, de repente, a porta se abre e ela cai de cara no carpete imundo. Jakson e Manolo tomam um tremendo susto.

- Ruiva? Tá tudo bem?
- Hihihihi... Âhn... Posso entrar?
- Ah, sim, sim. Peraí, deixa eu te levantar...

Ele se atrapalha todo com os cabos no chão e abre a porta.

- Dizaí, princesa! Qualé a boa?
- Nada, nada. Só tava passando e ouvi ocêis tocando. Toca bem, hem?
- Não dá pra dizer o mesmo do lagartixa ali no chão...
- É, também vi a cacetada que ocê deu no seu irmão... Será que ele tá bem?
- Não... Consigo... Respiraaaaaaa...- Manolo tenta sussurrar debruçado nas sobras do tapete pré-histórico do quarto.
- Ah, ele vai viver...
- Ocê tinha falado que era do metal, né?
- Só é. Curto muito Rob Trujillo, Cliff Burton, Steve Harris, Tim Commenford, Alex Camargo, Dick Siebert, Tom Araya, Les Claypool, e é claro...

Aponta pra um pôster do Flea, dos Red Hot Chili Peppers, na parede.

- Sei... Ser baixista e não ser fã do Flea é como...
- Curtir grunge e nunca ter ouvido falar em Kurt Cobain?
- Por Kurt! Como ocê adivinhou que eu tinha pensado em dizer isso?
- Sou perito em ler os pensamentos das mulheres através do olhar... Por falar nisso, que olhos, gata!-A segura pelo queixo, quase sussurrando- Se eles fossem o oceano, faria questão de morrer afogado neles.

Os lábios dela ficam trêmulos de desejo por ele, mas ela tenta se conter e se afasta dele.

- Âhn... De que marca é esse baixo?
- Jackson.
- Nem me pergunto por que ocê escolheu logo essa marca...
- Só dois seres podem ficar com o corpo colado ao meu. Eu mesmo...- Dá um grude na moça- E as mulheres!
- Ih, tá muito malandrinho ocê, hem? Dá um tempo!

Foge dele de novo, deixando-o meio sem graça. Ela repara num nome pichado na madeira do baixo com spray verde fluorescente.

- “Carmem”? Nome de sua namorada?
- Não, do baixo mesmo. Eu não abraço homem nenhum, nem objetos no masculino. Então, o nome dele ficou Carmem Jackson.
- Sei... Continua tocando! Me deixa ouvir o que ocê consegue fazer!
- Então tá... Sente essa.

Ele toca o movimento final da Tocata e Fuga de Bach, e ela arregala os olhos de admiração.

- E aí? Mandei bem?
- Óia, eu não acredito em blasfêmia, mas JESUS CRISTO! Palmas procê!
- Curtiu mesmo? Sente só agora!

Ele toca o mesmo arranjo ao contrário, sem perder o ritmo, e para coroar o exibicionismo, ainda joga o baixo pro alto e o equilibra na ponta dos dedos.

- Menino!- Uma boquiaberta Alexia enfim consegue balbuciar alguma coisa- Tirando a macaquice, esse solo foi um arraso! Até agora, eu era a única que eu conheço que sabe solar ao contrário, sô!
-Valeu... E aí? Quer dar um rolé no acostamento?

terça-feira, 12 de março de 2013

QUANDO O GALO CANTA (PARTE 2)


NO QUARTO DO HOTEL, Alexia passa um pito na prima...

- Por Kurt, Barbie! Dá pra apagar esses incensos pelo menos enquanto a gente conversa? Parece palha pegando fogo!
- Tá, peraí... Voltou estressadinha da capital, hem?
- Ocê prometeu que não ia sacanear sua irmãzinha no aniversário dela! Aí vem entrando na lanchonete carregando ela como se fosse um garrafão de água mineral? Quando vi, achei que tia Flor fosse te esganar na minha frente!
- Eu tento, prima.- Bárbara suspira- Ocê sabe que eu tento. Passei a noite inteira meditando, respirando fumaça de incenso, tentando aprender a me controlar pra quando as duas chegassem. Mas só de olhar pra cara de Clarissa, meu sangue ferve!

Ela se senta na cama para chorar. Alexia vai até ela.

- Eu nunca vou aceitar aquela pirralha como minha irmã. Nunca!
- Por favor, Barbie. É só hoje. Amanhã ela volta pra capital e ocê pode ficar livre dela por mais um ano, OK?
- Hmpf... Tá bom...- Ela faz bico.
- Agora, vamo descer e tomar café, que eu mal comi ontem na capital.

Clarissa ainda dorme numa cadeira da lanchonete. Tia Flor lhe cochicha ao pé do ouvido pra tentar despertá-la.

- Clarissa? Clariiiiiiissaaaaa?
- Mãe nunca me acordou cantando meu nome...- Bárbara, enciumada, cochicha no ouvido da prima.
- Fica quieta, Barbie!

O sono pesado de Clarissa impressiona todo mundo.

- Cláááááááá... Acorda, filha.
- Ssssó maissss 10 minutossss, treinadora...- A menina balbucia enquanto dorme.
- Deixa eu usar nela o spray de buzina, vai, mãe? Deixa?
- Bom, quando todo o resto falha...

Alexia apanha um cornetão, tia Flor um apito, Bárbara mal consegue se conter com o spray de buzina na mão. Ela acorda num salto com a barulheira que sua família faz.

- AAAAAAAAAI!! Que é isso, gente? Não sabe respeitar o sono dos outros?
- Parabéns pra você... Nesta data querida... Muitas felicidades... Muitos anos de vida...

Clarissa se emociona.

- Meus parabéns, minha filha!
- Muitas felicidades, prima!

- Sobreviveu a mais um ano, hem, pirralha?- A irmã mais velha segura friamente a mão dela, lhe dando 50 reais de presente e dando uma piscadela. A menina sorri. Uli conta os segundos no relógio do celular. A voz de Tião Chorume explode no rádio da lanchonete.

- E esse foi o som de The Trashmen, encerrando o bloco Dentadura Rachada, 6 horas sem parar de músicas do tempo que vovó trepava! Eu sou Tião Chorume, o pior locutor do mundo!
- Dá pra desligar esse sujeito, Barbie?- Pede Alexia- Ainda tô meio zonza de tanto dirigir...

Uli entra na lanchonete e dá um pisão no chão.

- ESPERA, BARBIE!
- Que é isso, vagabundo? Quem te convidou pra festa?

Eis que Chorume volta a falar.

- Antes de eu desligar tudo pelas próximas quatro horas... Cacete, tô até com vergonha... Meu projeto de chefe me acordou às sete da matina e mandou procurar uma música urubuzenta na internet pra comemorar o aniversário de uma amiga dele, pode? Falou que se eu não encontrasse a música, ele ia matar minha mãe! Então, recado dado, muitas felicidades, ââââhn... Começa com C... Cláááááá... Clóóóóó... Ih, cacete! Clúúúúú... Quem quer que seja. Me despeço da cidade ao som de In the cold cold night, dos White Stripes. Força aí, galera!

Clarissa fica surpresa, chega a lacrimejar. As mulheres ficam sem o que dizer.

- Nem acredito, gente. Meu nome quase anunciado no rádio no dia do meu níver, emendado com minha música favorita... Muito obrigada a todo mundo!
- Pôxa, fiquei impressionada, Uli!- Comenta a ruiva, enquanto abraça o amigo caribenho- Como conseguiu lembrar que essa era a música favorita de Clarissa?
- Ocê me contou ano passado, lembra? Escrevi na memória do celular.
- É, vagabundo, ocê não vale nada, mas até que tem coração.
Clarissa abraça Uli num salto e um beijinho na bochecha.

- Sabe que nem eu nem ninguém dos Mouras ou dos Bernardes, a gente nunca foi com sua cara, né,Ulysses? – Diz tia Flor- Mas muito obrigada por ter deixado minha filha tão feliz.

Lhe dá um aperto de mão, fazendo cara de nojo.

- Rastafaris sempre alerta, Dona Florisneyde.

Ela fica surpresa ao ouvir seu nome completo. As meninas tentam segurar a gargalhada, mas não conseguem. Flor cobre o rosto de vergonha.

- Caramba! Há quantos anos eu não ouvia seu nome verdadeiro, hem, mãe?- Brinca Bárbara.
- E eu que nem conhecia.- Afirma a irmã mais nova.
- Só Ulysses mesmo pra se lembrar dessas coisas...- Comenta Alexia.

Do andar de cima do bar do Escocês, ouvem- se estranhos, porém familiares ruídos saindo pela janela. É quase como se estivesse caindo um temporal dentro do alojamento, com sons de água caindo e trovoadas. Tudo o que se vê são dedos enormes e alvos passeando por sinos tubulares, a sombra de uma baqueta dançando sobre pratos de percussão e pesados coturnos militares pisoteando pedais, acompanhando uma suave melodia de piano de Rachmaninoff. De repente, o bumbo é atacado com violência, e é iniciado um solo supersônico de bateria, que mais parece uma escola de samba inteira atravessando as paredes. Os bêbados que dormiam debruçados sobre o balcão do bar saem correndo com o tremendo susto que levaram, e o marrento barman corre atrás deles, para cobrar as contas. Enquanto isso, do outro lado da cidade, Seu Edy, vice- prefeito da cidade, e Dona Abelzinha recebem o prefeito em seu heliporto particular.

- Bem- vindo de volta, patrão. Seu café e suas pílulas.
- Obrigado, Abelzinha.

Toma ambos de um trago só.
- Toda aquela questão delicada já foi resolvida também. Eles sumiram com os corpos e foram subornar a polícia do estado pra não virem incomodar a gente.
- Ótimo, ótimo...
- Trouxe a reportagem?- Pergunta o vice-prefeito.
- Claro. Tá aqui na maleta, editada e pronta pra ser exibida. Modéstia à parte, foi meu melhor trabalho jornalístico até hoje! Mas, a respeito da fábrica de compota... Eles disseram mesmo tudo aquilo?
- Sim, Chico. O Sr. Colombo, dono da Doce Vita, pretende transformar sua compota de cajá-manga em produto nacional, talvez até de exportação.
- Pediram para confirmar um encontro com o senhor ainda hoje, patrãozinho.
- Maravilha. Uma notícia e tanto! Depois do surgimento do Assassino da Caixa de Pizza, a melhor notícia que eu tive no ano!
- A gente podia pagar as indenizações, conseguir um asfalto de verdade, reformar a cidade toda... Já pensou nos lucros se o negócio for fechado, patrão? No progresso que vai chegar à cidade?

Ele tem um sorriso ligeiramente maníaco no rosto.

- Sim... Progresso...

No gabinete, o prefeito se assegura de que não tem ninguém além dele na sala e aperta um botão na parede. O imenso quadro com as fotos de todos os prefeitos de São Modesto se move para baixo, ficando perpendicular à parede, revelando na parte de trás uma maquete do estado de Minas Gerais moldada em alto-relevo, com uma cerca enorme ao redor. São Modesto foi pintada de azul, com o prédio da nova prefeitura ao centro. Pode-se ler ao topo da maquete a frase “ESTADO UNIDO DO CHICÃO”, esculpida em gesso. O prefeito olha para o mapa, com um sorriso apaixonado.

- O estado ainda será meu... Do jeito como o senhor previu, vô Franz...

Ele olha para o quadro do avô dele, vestido como militar, sobre a mesa do gabinete.

terça-feira, 5 de março de 2013

CONHEÇAM A TURMA!


Para o caso de haverem dúvidas quanto aos personagens, sempre consultem aqui. :)








Um blog, um livro, um ano...


E aqui estamos nós!

Quando esse blogueiro que vos fala teve a brilhante ideia de escrever um livro, nem imaginava que poderia manter o interesse dos leitores por um ano completo. Até o presente momernto, já somam mais de 4000 acessos, e olha que a história propriamente dita nem começou pra valer! ;)
O que começou como uma mera brincadeira de colégio, lá nos idos de 1999, acabou tomando uma dimensão tão monstruosa que vivo praticamente à mercê de Alexia e sua turma, numa situação de escravidão quase sexual que chega a rivalizar com o tráfico humano da novela das 9 (Risos).
De 2010, quando comecei essa aventura, até o presente momento, pouca coisa mudou para o autor. Continuo o mesmo recluso e antissocial de sempre, como bem dá pra notar pelos meus textos, concordam?
Mas, pelo menos, agora não estou mais sozinho...

O mais perto que já cheguei de ter uma mulher em cima de mim kkkkkkk




Obrigado por todo o apoio, galera! Semana que vem, se não houver nenhum imprevisto, retomaremos a, por assim dizer, saga de São Modesto! Um grande abraço!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

QUANDO O GALO CANTA (PARTE 1)

E aí, gente? Tudo em cima?

Antes de começar a aventura da semana, devo informar que, nas próximas duas semanas, o blog não será atualizado, isso porque, como alguns devem se lembrar, a bucólica São Modesto e seus habitantes desocupados foram apresentados ao mundo dia 4 de Março do ano passado. Logo, estou ocupado durante todo o mês preparando algo especial para meus pacientes e desocupados fãs... Sem mais delongas, lá vem a turminha sinistra!

Até dia 4, galera! Pode ser que tenha bolo :P





7:30 DA MATINA. Manolo “canta” e “dança” no banheiro ao som dos Dead kennedys no último furo, imitando os esgares perversos de Jello Biafra, com a vassourinha de vaso fazendo vezes de microfone. Esganiça tão alto que todos os passarinhos saem voando assustados. Uli acorda coberto de orvalho no capô do Fleet com a ladainha de Manolo.

- Credo! Durma-se com um esturro desses!

Jakson treina com o skate no chão de terra batida. Uli o vê.

- Jah ajuda quem cedo madruga, hem, carioca? Acordar cedo desse jeito num sabadão, e ainda pra andar de skate?
- Acordar? Eu sou um insone convicto, Uli. Sempre que acordo no meio da noite vou correndo praticar.
- Cada doido com seu vício...

Bárbara termina de coar o café e colocar os quitutes no forno. Toca Since I’ve been loving you, do Led Zeppelin, no radio, música que ela acompanha o ritmo aos sussurros.  Assim que ela tenta enfiar a mão no pote da irresistível compota de cajá-manga pra lamber, avista a Parati verde entrando na estrada de chão.

- Elas tão chegando!
- Parece que um turista perdido vem aí.- Comenta Jakson. Ele repara em Alexia dirigindo, de olhos quase fechados, e sorri. - E o café da manhã tá servido!
- Melhor ocê e o maluquinho ficarem no quarto hoje de manhã, Jakson.
- Como assim?
- Reunião de família com Bárbara e a irmã caçula nunca termina bem. E por falar nisso...

Ele pega o celular no bolso e vai telefonar dentro do carro, agachado no banco de trás.

- Depois o doido sou eu...- Brinca o skatista.

Bárbara tira o avental e vai receber as visitas.

- Me ajuda a sair aqui, Barbie?
- Ué, foi ocê que veio dirigindo?
- A gente ainda ficou na capital até tarde, assistindo o time de Clarissa treinar. Tia Flor passou mal no caminho e me pediu pra dirigir. Fazia quase dois anos que eu não pegava num volante, tô morta...

Escora a prima sobre o ombro e a tira do carro.

- Bárbara.
- Oi, mãe.

Mãe e filha mal se olham nos olhos, e se beijam com frieza.

- Espera só até ver o que eu comprei na capital, prima!
- Não estourou nosso orçamento, né?
- Claro que não, né, unha de fome!
- Clarissa veio dormindo desde BH no meu colo.- Diz tia Flor- Acredita que ela tá dormindo desde as 7 da noite? Olha só pra ela no banco de trás!

Ela está embrulhada num cobertor minúsculo igual um filhotinho. Tia Flor suspira de orgulho. Bárbara tenta se segurar para não falar palavrão.

- Pode não ter nosso sangue, mas é minha cara!
- Se a senhora diz... Opa!

Alexia escorrega do ombro da prima e cai no chão.

- Isso é que são boas-vindas, hem? Falei que dirigi a noite toda, pôxa!
- Foi mal, Lex. Deixa eu te levantar.
- Não carece, não!
- Pode pegar sua irmã e trazer pra dentro do posto, filha? Quero acordar Clá de um jeito bem festivo!

A palavra ‘irmã’ faz Bárbara rilhar os dentes uns contra os outros. Alexia abre a mala do carro e pega suas sacolas.

- Controle-se, Barbie...
- Queria tanto que minha filha aceitasse a Clarissa como membro da família, Alexia...
- Ah, tia Flor, ocê sabe que ela sempre achou que a senhora só quis se vingar dela quando adotou Clá.
E, pra ser sincera, é exatamente isso que eu também acho, tia. Desculpa pela franqueza.
- Então, tá...

Ela faz cara de lamento. Manolo berra, pula e ‘bate-cabeça’ de cueca no quarto, enquanto ouve Respect, do Korzus, num volume capaz de superar os decibéis de uma turbina de jato. No andar de baixo, todo mundo se incomoda com aquela pauleira.

- Credo e cruz, Alexia! Agora ocêis têm um matadouro no andar de cima?

Alexia ri.

- Não, tia, são uns aventureiros meio doidos do Rio de Janeiro que hospedaram aqui.
- Ah, então o hotel voltou a ter outro morador além docêis duas?
- Só até os caras se mudarem pra cidade.
- Tomara que eu nunca os conheça...

Flor olha pra fora da lanchonete e vê Bárbara carregando Clarissa, ainda dormindo, dobrada sob o ombro direito como um porco de feira. Ao ver isso, tia Flor engasga com o café, possessa com o desleixo da filha.

- Bárbara Yracema  Moura Bernardes! Isso é jeito de tratar sua irmãzinha?!?
- Ué, não foi a senhora que falou que queria um despertar bem festivo? É assim que se festeja em São Modesto!

Alexia balança a cabeça, decepcionada.

- Barbie, a gente tem que subir pra conversar. Agora! E não larga ela no chão!
- Tá bom, tá bom...

sábado, 9 de fevereiro de 2013

THIS MEANS WAR! (PARTE 2)




É TARDE DA NOITE. Toca I’m going home, do Ten Years After, no rádio da Parati verde-musgo de tia Flor, que começa a devorar o asfalto de volta à São Modesto. Numa emissora de TV em BH, o prefeito conversa com um jornalista na sala de edição.

- Tem certeza que quer levar essa reportagem ao ar, Sr. Rotscheider? Não sei, mas ela me parece... Desumana em excesso, até mesmo para padrões de programas policiais.
- Tá de sacanagem comigo, Sr. Altamiro? Por mais de um ano eu inventei reportagens sobre o Assassino da Caixa de Pizza sem nem saber se ele era real, e, de repente me aparece essa mulher sem uma gota de sangue dentro do corpo e uma caixa de pizza com a mão dela dentro é enviada para a delegacia da cidade? Não pode ser só coincidência!
- Mas tem certeza que quer levar uma coisa dessas ao ar sem o sol nem ter se posto ainda? Vai traumatizar as criancinhas do estado inteiro!

O prefeito limpa a testa com uma toalhinha de papel, enquanto acaricia sua medalhinha na mão esquerda.

- Sr. Altamiro. Não é nenhuma novidade que as coisas na minha cidade não vão nada bem. Primeiro eu destruí tudo com minha idéia tola de explodir o asfalto.
- Eu sei...
- E hoje de manhã me apareceram dois corpos de desavenças minhas afogados em meu canteiro de obras. Compreende minha situação? Eu PRECISO arranjar qualquer coisa, QUALQUER COISA que faça a cidade e o estado esquecerem, pelo menos por um tempo, dos meus tropeços! Essa notícia do assassino me serviu feito anel no dedo, Sr. Altamiro!
- Se o senhor diz...

O celular do prefeito toca, com “A cavalgada das Valquírias”, de Wagner, como ringtone.

- Com licença. Pois não, seu Edy da Marcenaria? Hum. Sério? Mas... Isso é sensacional! Voltarei à cidade assim que possível. Obrigado, seu Edy da Marcenaria.

Desliga o telefone, se senta numa cadeira da sala de edição e começa a esfregar a medalhinha nas palmas das mãos, conforme seu sorriso cresce. Sr. Altamiro vai até ele.

- Aconteceu algo, Sr. prefeito?
- Nada de mais, apenas as coisas voltando a funcionar do jeito que eu gosto.

Enquanto isso, em alguma ponte da capital, um vulto estaciona uma moto, solta dos braços as alças de uma mochila térmica, das que se usa para entregar comida, e a atira nas águas do esgoto e vai embora escondido nas sombras da rua sem iluminação. O impacto com a água infecta faz com que o zíper mal-fechado da mochila termine de abrir, e ao tombar para a esquerda, uma perna de mulher sem vida escapa para fora, cortando as águas com o calcanhar correnteza abaixo.