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quinta-feira, 29 de março de 2012

A GRANDE NOITE(PARTE 1)



A

lexia toma umas aspirinas e tenta relaxar um pouco na cantina do conservatório, e nem percebe o diretor do conservatório, um senhor de idade, com careca avançada, meio corcunda, com o rosto coberto de rugas e manchas, com enormes óculos bifocais completando o pacote, esperando atrás dela. Sua voz é gélida e pausada, como se calculada a partir dos batimentos do coração.

- A-hem!

- Ai!- Ela desperta de seus devaneios.- Âhn... Desculpa, Sr. Almerindo. Não reparei que o senhor tava aqui...

- Pra variar, não é, Professora Moura? A senhora nunca percebe nada. Não percebe que precisa chegar com 10 minutos de antecedência, não percebe que suas olheiras estão vergonhosas, e, acima de tudo, não percebe que já chegou atrasada pela quinta vez esse ano!

- Quinta? Jurava por Kurt Cobain que era a terceira...

Nem ele procura olhar a professora nos olhos, nem ela tem coragem o bastante para se levantar e lhe oferecer um lugar para sentar.

- Ninguém- Ele continua- nem mesmo meus filhos, me trouxeram tanta dor de cabeça na vida quanto a senhora! Mas sabe qual é o único, o ÚNICO motivo que me impede de demitir você?

- Porque eu sou um gênio?- Ela responde mentalmente, debochando do tom de voz do diretor.

- Porque a senhorita é um gênio. Disparada, você é professora de música mais jovem e talentosa que eu já contratei em toda minha vida. Portanto, é de se esperar que pelo menos TENTE corresponder a todos os riscos que corri quando a contratei. Eu exijo que tenha um grãozinho de pontualidade e pelo menos algum profissionalismo no que faz, porque, se eu a encontrar aqui novamente no estado em que se encontra, não vai demorar a chegar o dia eu que eu ordenarei que o porteiro barre a sua entrada no conservatório... Para sempre. Estamos conversados?

Ela se esforça para esboçar um sorriso amarelo.

- Ótimo.

Ele vai embora. Ela respira fundo e toma um gole de café. Ligam a TV da cantina.

- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Aplausos.

- Ninguém merece...

Ela vai embora, deixando os 25 centavos do cafezinho.

De volta ao Rio de Janeiro, a sala de estar do apartamento 102 está repleta de fumaça de baseado e garrafas de cerveja estilhaçadas por todo lado. O heavy metal do Fear Factory pipoca nas caixas do home theater, abafando as gargalhadas dos jovens dopados.

- Ô, Manolo!- Grita Jakson, após jogar uma garrafa na porta da cozinha- Acelera logo esse lanche aí, mano!

- Já tá saindo, segura a peteca aí!

A porta é destrancada e Manolo, todo sujo de molho e gordura, sai de lá carregando uma câmera de vídeo, filmando a si mesmo.

-Olá, mundo! Guarde bem esse dia, pois ele será nosso último dia como escravos dos caprichos de Dna. Gladys Ventania! Esta noite, seremos homens livres, completamente livres! HAHAHAHAHAHAH!

- Olha, cabeção.- Jakson intervém, abraçado nas garotas- Quanto a parte de ser livre, pra tu é até fácil, já a parte de ser homem...

Eles riem.

- Nhé-nhé... E, como nossa última refeição em nossa terra natal...

Ele traz da cozinha uma bandeja pingando gordura, com um sanduíche enorme e asqueroso, que mais parece um bicho atropelado. Todo mundo faz cara de nojo.

- Que pôrra é essa aí, maluco?- Pergunta Aiatolico.

- Minha obra-prima. – Ele filma a gororoba em close- Nenhum mata-fome do mercado consegue ganhar desse aqui... Uma coisinha que eu chamei de “Advogado do Diabo”. Um pão-filão inteiro, uma caixa de hambúrguer, um pacote de mussarela, um pacote de presunto, um pacote de bacon, um colar de lingüiças, muita pimenta, um pote inteiro de maionese, e pra coroar... Rufem os tambores! Uma fatia de banha!

- Agora eu entendi porque tu trancou a porta da cozinha antes de preparar...- Diz Jakson.

-Assim vai mesmo ser nossa “última” refeição, maluco...- Zomba Siri, também pra lá de Bagdá.

- Acho que vou vomitar!- Uma das garotas vai correndo pro banheiro.

- Ah, cai na real, gata!-Manolo faz graça- Fez amor comigo por uma hora e meia e é o sanduba que te deixa enjoada?

- Tá vendo, Mad?- Diz Michele- Por isso Jakie quis viajar contigo, seu doente. Tu só sabe fazer besteira!

-Sorte tua que, na larica, a gente consegue comer até pneu de trator, hiiiiii-hihihihihihi- brinca Johnny Boy, já noiado.

Logo cai a noite. Em São Modesto, Alexia vai embora do trabalho. Uli ainda está à porta do conservatório, discutindo com uma idosa.

- Como assim, minha senhora? Como assim meu bálsamo te deixou com essas pelotas no corpo todo? Fui eu mesmo que fiz, receita tradicional jamaicana! Testei em mais de 15 cachorros antes de colocar à venda! Testado com todo o rigor científico!

- Ah, é? Então testa isso aqui!

A velhinha lhe enfia a bengala no pé, levando-o ao chão, enfia as mãos no bolso do paletó dele e tira 50 reais. Nem atirado no chão ele pára de sorrir.

- Vigaristinha de merda- A velha resmunga.

Alexia lhe dá a mão para ajudá-lo a se levantar.

4 comentários:

  1. Não estou assídua, mas tenho te
    acompanhado.
    Abraços

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  2. Fascinante as sua criatividade e habilidade com as palavras!
    parabens!
    estou adorando o blog.
    bjs

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  3. Adorei. Dei grossas risadas com a história do sanduíche parecer um animal atropelado. Excelente também a fala de Uli. Bom demais!

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