Total de visualizações de página

segunda-feira, 12 de março de 2012

IRMÃOS (PARTE 1)


- Q ue é isso, Aiatolico? Segura firme no skate, não envergonha ainda mais tua família, véio!
O sol do meio-dia castiga a cidade maravilhosa. Pessoas mais sensatas tentam se proteger do escaldo como podem, correndo para debaixo dos toldos das lojas, cobrindo os rostos com jornais, revistas e maletas enquanto esperam pelo ônibus, mas algumas pessoas parecem não se importar com os fervilhantes 38 graus estampados em todos os termômetros da cidade. Um grupo de jovens de aparência não muito confiável desfruta da pista de skate do Aterro do Flamengo. Os ganidos de um punk rock furioso explodem num enorme sistema de som de um Honda Accord estacionado ao lado da pista. A cada nova manobra conquistada ou tombo levado, todos assobiam e urram para incentivar quem está no half-pipe. Sentado num banco e rodeado de garotas, um deles provoca o careca todo tatuado que está trampando na rampa em forma de U. Porte atlético, piercing na boca e nas orelhas, longos cabelos loiros amarrados num rabo-de-cavalo, saindo pela alça de um surrado boné do Vasco da Gama, barba malfeita e sem camisa, exibindo uma enorme tatuagem da logomarca Red Bull no peito. O amigo dele cai de costas no cimento da pista, provocando gargalhadas de todo mundo.


- Que vergonha, Aiatolico! Te ensino a andar nesse half faz mais de vinte anos e tu ainda cai?
- Ah, qual é, Jakson? –Diz o skatista humilhado- Fez só uma semana que tirei o gesso da perna, dá um desconto, pô!
- Mostra pra ele como que faz, Jakie?- Diz uma das meninas nos braços dele.
-Vai lá, gostosão!- A outra incentiva.
-Hum... Sei não, meninas. O que ‘cês me dão em troca?
- Bom...

Uma delas brinca com a gola da justíssima camiseta regata que usava, deixando o decote bem mais generoso. Os olhos de Jakson arregalam.
- Com tanta diplomacianão tem como recusar, né? Me dá aí a Diana, Tolico!- Diz ele, apontando para o skate com a foto de um mulherão de biquíni impresso no fundo.
- Toma, vai lá, galãzinho...

- Vai lá, Jakie!- Diz a garota safadinha- Valendo 20 saltos, na casa da Michele hoje às sete com nós cinco!
- Xá comigo, minas!

Ele desce deslizando com o skate pelo cano de grind, caindo direto no half-pipe. Logo na primeira subida, manda um 360, levando todo mundo ao delírio.
- Fala a verdade, Michele.- Pergunta Aiatolico, enquanto apanha uma garrafinha de cerveja num isopor- Conheço Jakão desde o primário, mas nunca consegui entender como o cara consegue pegar tanta mulher com essa cara de pastel barbado que ele tem. Que ‘cês tanto vêem no magrelo?
- Ah, vai saber... Mas basta ele respirar perto da gente...
- Que todas já sonham com ele na cama...
- E já era garanhão desde o primário também. VAI LÁ, JAKIE! NÃO CAI, NÃO!


Exibicionista, Jakson faz uma rotina alucinante de manobras. As meninas gritam histericamente para o amado, enquanto os homens ficam gritando “cai, cai, cai...”. Ao tentar a vigésima manobra, o celular vibra no bolso e ele se atrapalha todo, deixando a prancha escapar dos pés e tentando se agarrar no cano da borda do half. Logo vira motivo de gozação de todo mundo. Aiatolico e as groupies vão socorrê-lo.



- Tá tudo bem contigo, meu bem?- Diz Michele.
- Se machucou, Jakie?- Outra das periguetes pergunta.
- Quê que foi, cumpádi?- pergunta Aiatolico- Tava tão perto de cumprir o acordo com as minas...
- Foi meu... Meu celular. Me ajuda a levantar aqui!

Estende a mão para o amigo, que tenta disfarçar a vergonha colocando o boné na frente do rosto e apanhando o celular no bolso.


- Haja saco... Alô, mãe? Ah, tá. Já vou pra lá. Tem ideia da vergonha que...

Ela desliga na cara do filho.


- Qual foi o galho, Jakão?
- A lepra de óculos levou alta. Foi mal aí, minas. Mas amanhã podem escrever que eu vou conseguir dar os 20 saltos. Preparem o Jontex!



Joga um charme pras garotas com uma canastrice de fazer inveja aos galãs de novela da nova geração. Os outros skatistas ainda não se cansaram de tirar sarro do tombo que ele levou.

- Hahahá, é? Hahahá, é?- Ele replica- Caí com os peito no chão, mas ainda pego mais mulher que todos vocês juntos!
- Tu é muito exibido, sabia?- Retruca Tolico.
Na saída do pronto-socorro, um jovem baixinho e franzino, cabelo tingido de verde curto e espetado, de óculos de grau, o nariz cheio de piercings, a cabeça e parte do dorso enfaixados, tenta andar com uma muleta. Atrás dele, uma senhora de idade, com seus muitos anos mal disfarçados com Botox e cabelo loiro oxigenado curto o ajuda a andar.
- Três vezes no mesmo ano, seu Manolo, e as três pelo mesmo motivo... E ainda é só Fevereiro! Quando o senhor vai criar juízo, menino?

- A senhora vem me falar de juízo, mãe... - O garoto sussurra- Se minha cabeça não tivesse toda enfaixada eu até ria...
- Mais respeito com sua mãe, mocinho! Da próxima vez que o senhor encher a cara e provocar um bar inteiro, pode tratar de se arrastar sozinho pro hospital!

Jakson desce no ponto de ônibus na frente do hospital. Ele já chega tirando sarro do enfermo.
- Ah, olha só quem resolveu ver a luz do sol! Como vai a força, maninho?

Dá um tapão nas costas de Manolo, só de sacanagem.
- AI! Ah, seu desgra...
-Pára de provocar seu irmão e abotoa essa camisa, menino!- a mãe intervém para apartar a briga.
- E então?- Jakson continua provocando- Doeu muito pra remover aquele guarda-chuva do...
- Quietos, vocês dois!
- Tá bom, mãe... Lepra de óculos...
- Agora, ajuda seu irmão a entrar no carro, enquanto eu termino de assinar os papéis lá dentro.

Eles chegam a um antigo Ford Ka vermelhinho, decorado com decalques de flores. Jakson abre a porta e tenta acomodar o irmão no apertado banco traseiro.

- Eu te falei, Mad... Encher a cara e gritar Flamengo no meio de um bar vascaíno lotado? Imagina se vô ouve isso lá do além, cara! E é a 3ª vez que tu faz isso, ainda por cima!
- Cuidado... AI! Vai devagar, Jakson! Vai devagar!

- Xá comigo...

Solta o braço de Manolo sem avisar, e ele cai quase debruçado no banco.
- Cacete! Agora eu te mato!
Apanha a muleta e tenta em vão acertar a cabeça do irmão com a ponta.
- Agora fica sossegado aí, que eu vi uma atendente ali no balcão que é coisa de louco. Fui!


Um comentário:

  1. Não é fácil montar um diálogo jovem convincente. Este estão cheio de gírias e palavrões, mas me pareceu correto. Espero que não se perca. Vamos lá!

    ResponderExcluir