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sexta-feira, 23 de março de 2012

PLANETAS OPOSTOS (PARTE 1)



A

pesar de localizado numa avenida decente da cidade maravilhosa, aquele edifício de apartamentos de três andares, de tão antiquado, ainda traz cortinas de pano floridas na maioria das janelas. Situado no meio de uma ladeira entre uma padaria e uma farmácia, seu hall frio e sombrio possui piso de tacos gastos e arranhados, paredes com ladrilhos cinzentos pichados de limo e seus elevadores ainda possuem portas de grade e alavancas de controle, assim mantidos provavelmente desde a Era Vargas. O vigia adormeceu debruçado no balcão, com um litro de cachaça Velho Barreiro numa mão e uma revista de mulher pelada na outra, aberta no pôster central da mais nova musa dos reality shows. No apartamento 102, deitado num antigo sofá com moldura de madeira de lei e com o fone do celular enfiado nos ouvidos, Jakson arranca notas furiosas de seu contrabaixo azul escuro todo coberto de adesivos de bandas de heavy metal e mulheres peladas, tentando acompanhar a música que ouve. Ao lado dele há várias caixas de papelão lacradas com fita silver. Manolo vem arrastando um enorme e poeirento baú pelo corredor do apartamento.

- Pôrra, Jakson, tira essa coisa do ouvido e vem me dá uma força aqui, caralho!- Pragueja o irmão.

A súbita interrupção do rock pesado saindo de seu celular, seguido pelo vibrar da máquina, o despertam violentamente de seu transe musical, e ele acaba rolando para fora do sofá.

- Ai! Ah meu deus...- Aperta o botão de switch no cabo do fone- Oi? Ah, falai, Tolico! Tão na garagem? Então podem vir pelo elevador de serviço, mas não deixa ninguém ver vocês, tá legal?

Lá em Minas, uma Kombi bem antiga verde-abacate com um auto-falante enorme preso no teto, de onde saem os primeiros acordes de O Guarani, seguidos por uma voz esganiçada de criança anuncia sua chegada desde a entrada da cidade, acompanhada por vários meninos e meninas correndo atrás dela.

-ATENÇÃO, MEU POVO! É A KOMBI DO SORVETE CHEGANDO AO SEU BAIRRO! MAIS DE 40 SABORES, 20 BOLA SÓ POR 3 REAL! VENHAM COM SUAS LATAS E PANELAS!

A placa toda desbotada, enferrujada e cravejada de balas na entrada da cidade diz BEM- VINDO A SÃO MODESTO. Alexia chega de van ao centro da cidade.

- Chegamo na cidade, mocinha.- Diz o perueiro, tentando se conter diante da beleza dela.- Moça?

- Ah, não. Chega de vodca... –Ela balbucia enquanto cochila no banco, acordando num salto com o solavanco do motorista em seu ombro- Âhn? O quê? Ah, sim. Eu fico lá no conservatório, tá?

À primeira vista a cidadezinha lembra bastante Ouro Preto, por causa de suas extensas ladeiras, mas apesar de ainda sobrarem em pé algumas construções mais clássicas, a maior parte dela é composta por becos úmidos e sombrios, puxadinhos mal construídos, muros pichados, edifícios de apartamento feios e antiquados, asfalto de paralelepípedos e casebres de cores berrantes desbotadas. Carroças convivem com carretas no meio das ruas, crianças tentam jogar bola nas ladeiras. O sino da igreja, agora substituído por um auto-falante, soa os badalos. Eles chegam ao local onde costumava ser a praça da cidade, mas agora há um tremendo canteiro de obras com uma faixa. "Futuras instalações da nova Prefeitura de São Modesto".

- Tá entregue, moça.- O perueiro encosta a van ao lado do canteiro.

- Brigada, moço. Aqui tem um, dois, três...

- Pode deixar, anjo.- Ele recusa a oferta- Mulher nenhuma paga nada comigo por perto.

Ela acena e pega o estojo no banco de trás. O prédio do Conservatório Verônica Rotscheider é de construção no estilo do século 19, com dois andares, paredes acinzentadas encardidas de mofo e lotadas de rachaduras. A porta e as janelas da frente têm cobertura de um vitral já desgastado pelo tempo. Ao lado das escadarias há um jovem negro alto, com um sorriso enorme e brilhoso, de óculos escuros, cabelos estilo rastafari e gorro jamaicano, vestindo um blazer vinho puído e desbotado, camiseta tingida em tie-dye e calças Jeans que parecem ter sido de um pedreiro. Ao lado dele, um enorme, antiqüíssimo Chevrolet da mesma cor do blazer com um imenso letreiro no teto. Ele tenta levar um transeunte na conversa.

- Como assim, 150 anos?- O cliente em potencial se indigna- Olha que de vinho eu entendo, malandro! A garrafa de Brunello mais antiga do mundo não tem nem 115 anos!

- Escuta aqui...- O jovem toma a garrafa empoeirada das mãos do homem, gruda no pescoço dele e aponta seu enorme cachimbo enfeitado para ela, falando com uma voz arrastada de maconheiro com um sotaque mineirês cruzado com caribenho- 115, 150 anos, qual é a diferença, amizadinha? Ocê não vai querer mesmo tomar um vinho centenário, né verdade? A garrafa deve tá até seca. Isso aqui vai ficar na sua prateleira, do lado daqueles canecos horrorosos de festival de cerveja que todo modestinense coleciona, e se o vidro não desmanchar, seu neto ainda vai tá espanando essa mesma garrafa daqui uns 100 anos. Ela não deixa de ser um troféu, tá ligado? Então, quê que ocê me diz, hem? Dez milhas no meu bolso?

- Toma aqui suas dez milhas, pilantra!

Arrebenta a garrafa no chão e dá um soco na cara do vigarista, esbarrando em Alexia.

- AI! Que grosseria, poxa!

O malandro vem flertar com ela.

- Lexi, Lexi, Lexi...

- Ah, ótimo. Bem na porta do meu trabalho, a última pessoa que eu queria ver hoje...
- Que é isso, Lexi? Acordou atacada hoje por quê?

- Não é da sua conta, Ulysses! Deixa eu passar!

- No relax, deusa. Nem parece que a gente namorou por cinco anos nem nada...

- Fala, o que eu tenho que fazer procê me deixar passar, Uli?

- Bom, eu não ia oferecer nada, mas já que ocê pediu... Aqui tem aquela pulseirinha do equilíbrio, que tudo que é gente famosa tá usando. Produto legitimíssimo, de primeira, e é sua só por trintinha!

- Olha, depois da aula a gente trata disso. Agora, desinfeta, Ulysses! Vaza!

Ela bate o salto da sandália no chão, e ele dá um pulinho pra trás igual um gato assustado.

- Ei, negão!- Outro possível comprador chama a atenção- Que pulseirinha é essa aí por 30 Reais?

- Por ter me chamado de negão, sai por 300- Ulysses paga na mesma moeda.




Um comentário:

  1. Deu pra perceber que as personagens são pobres, pois a cena está lotada de carros velhos e edificações deterioradas. São Modesto é pouco para mostrar a pobreza desse lugar. Vamos ver para onde o autor vai levar essa turma.

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