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segunda-feira, 26 de março de 2012

PLANETAS OPOSTOS (PARTE 2)


A

lexia pára no último degrau e faz a clássica "pose de mulher decidida". Enquanto ela desfila, todos os homens dos corredores e até algumas mulheres param para assistir. Ela tira os óculos vermelhos estrategicamente pendurados no decote e os coloca bem devagar no rosto. Findo o showzinho, ela entra na sala de aula, tira os óculos e já despenca na cadeira levando as mãos ao rosto para chorar.

- Burra! Burra! Burra! O que foi que ocê fez contigo, sua retardada mental??

Ela é trazida de volta a si pelo caloroso "BOA TARDE, PROFESSORA MOURA!" da sala lotada de alunos pré e adolescentes.

- AAAAAH! Uau!- Ela quase cai da cadeira- Caramba, que susto!

- Tá tudo bem, Alexia?- Pergunta um aluno.

- Eeeehr... Sim, sim. E ocêis, como estão?

Ela tira o violão do estojo, mas quando se levanta, o casaco escorre pelas costas e revela monstruosa tatuagem. O espanto é geral, e ela se ruboriza de vergonha.

- Que tatoo é essa, professora?- Pergunta uma garota.

- Parece que vai levantar vôo!- Comenta outro aluno.

A sala gargalha em uníssono. Ela tenta recobrar a compostura.

- Eeeeeehr... Bom... Que me dizem de um acordo: Se todo mundo me acompanhar direitinho na aula, prometo que conto no final como essa coisa foi parar nas minhas costas, tá beleza?

Bate com uma caneta na mesa para a classe se pôr a postos.

- Minha cabeça vai me matar hoje... No três, quero todos os instrumentos afinados no mesmo tom do meu violão. Um, dois, três!

Ela toca a corda Mi e dobra a cabeça para trás, fecha os olhos e espera a resposta da classe, que atende em massa à ordem.

- Muito bom. Mas na oitava fileira, as cadeiras 1 e 4 têm violões num tom abaixo. E na fila 5, tem alguém com um tom e meio acima. É o seu, Davi?

Todos se espantam com o dom de Alexia. Ela dá uma risadinha.

- Incrível, né?- Brinca com os alunos- Abram o livro de partituras em Tocata e Fuga em Ré menor, de Bach. Vamo nessa, meninada!

Ela inicia a lição, tocando divinamente, mesmo não se agüentando em pé, e o mais importante, fazendo todos os alunos seguirem-na ao pé da letra. Serventes e outros professores a assistem pelo vidro da porta, maravilhados.

No Rio, os dois irmãos, Aiatolico, mais dois rapazes com aparência de ratos de academia e as moças que estavam com Jakson naquela tarde na pista de skate estão descendo a mudança pelo elevador de serviço até o estacionamento e colocando tudo na caçamba de um Ford Pampa todo detonado.

-Cuidado com aquela guitarrinha sua? Falando sério?- Jakson provoca o irmão- Aquela sua tábua de bater bife já veio toda mastigada do lixão, doido!

- Fica na tua, barriga de reco-reco. Tu precisa tirar a camisa toda vez que passa uma mina na rua pra mostrar o tanquinho?
- Preciso sim. Continua carregando a caminhonete, cabeção!

Dá um tapa na nuca do irmão. Mais tarde, todos acabam de amarrar uma lona por cima da tralha.

- Bom, então é isso, Tolico, Johnny Boy, Siri, minas... - Diz Jakson, acrindo uma cerveja long-neck- Valeu por terem ajudado nessa mudança a tarde toda.
- E pensar que ‘cês vão ter de voltar com tudo pra dentro de casa quando a mãe de vocês descobrir a tramóia...
- Ih, não joga mal- agouro, Michele!- Retruca Manolo- Tá tudo nos conformes. A gente conversou com o resto da orquestra semana passada, todo mundo concordou em ajudar a gente na armação durante o recital.
- E como ‘cês fizeram pra convencer o resto da orquestra a tocar heavy metal num recital de Beethoven?
- Aquela galera abomina mamãe quase tanto quanto nós dois. Foi mole igual tomar sopa de minhoca- responde Manolo, sarcasticamente.
- Seu nojento!

Manolo tira as chaves da caminhonete do bolso e entrega para Aiatolico.

- Tu já sabe o resto do plano. Hoje à noite, assim que a gente for pro Citibank Hall, ‘cês disfarçadamente vêm pegar o Pampa na garagem e vão dirigir até a fronteira da cidade. Vão encher o tanque, deixar o carro atrás do posto de gasolina da fronteira e voltar pra cidade pra apresentação. Mas precisam ter certeza de que nenhum conhecido, NENHUM, veja vocês. Entenderam?
- Xá com a gente, baixinho!
- A partir dessa noite, filézada- Jakson diz, passando os braços por trás do cangote das garotas- eu e meu maninho chato ali seremos homens livres! Bom, ainda faltam umas oito horas até o recital, rapaziada. Já que mãe só vai voltar daqui a uma hora e tá todo mundo matando o trabalho hoje, que ‘cês me dizem de nós oito...

Faz um gesticular obsceno com a língua por dentro das bochechas, que deixa as garotas assanhadas.

- Não sei como, mas esse aí sempre consegue pôr mulher na cama a qualquer hora do dia... - Manolo comenta com os brutamontes amigos de Jakson.


2 comentários:

  1. Esses personagens ainda vão dar o que falar.

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  2. Ainda por aqui, acompanhando
    atente. Dá-lhe Manolo.
    Abraços

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