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terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMAS


U

m vaqueiro toca o berrante. Outros vaqueiros e o gado trafegam pela estrada. O sol de meio-dia entra pela janela de um quarto de hotel num singelo posto de gasolina no meio do mato. O chão do quarto é repleto de revistas, garrafas, latinhas, roupas e guloseimas meio comidas. Uma moça peleja para sair da cama.

- Aaaaai, que dor de cabeça... Que horas são?

Ela apanha o rádio-relógio e toma um susto: 12:30 da tarde! Aperta o botão de calendário no aparelho, e leva mais um susto.

- QUÊ? SEGUNDA-FEIRA? TÔ DORMINDO DESDE SÁBADO? Mas que...

Joga o aparelho na parede e se levanta da cama num salto, deixando para trás a coberta. Ela aparenta ter seus vinte e poucos anos. Não é alta nem muito baixinha. Sua pele possui uma alvura láctea, levemente rosada. Um nariz diminuto como o de uma criança, lábios graciosos e moderadamente carnudos, grandes e perolados olhos verdes como cálices de absinto. Seus cabelos ruivos são longos, mas não chegam a ultrapassar a linha das axilas, volumosos mas desgrenhados. Possui um corpo escultural que faria até os pássaros assobiarem de forma perniciosa, com seios rijos e fartos e o corpo cheio de tatuagens: Um grande N preto tatuado no tríceps esquerdo, um morcego tribal no antebraço direito, uma clave de Sol no lado esquerdo do abdome e uma estranha tatuagem combinando uma roseira com uma caveira que se prolonga por toda a coxa esquerda. Ainda desorientada por causa de seu sono prolongado, ela se atrapalha tentando tirar o apertado pijama verde-limão com que havia dormido. Veste um tubinho branco de frente única, saia vermelha, sandálias de salto de madeira, pendura uma coleirinha no pescoço, pulseiras douradas encardidas nos braços e amarra uma bandana preta desfiada na cabeça, com uma caveira entre duas guitarras cruzadas. Lava o rosto, escova os dentes, se maquia e sai do apartamento, deixando a porta escancarada. Desce as escadas correndo e adentra a lanchonete do posto. Lá dentro, há uma mulher bem alta de uniforme e óculos de moldura rosa-choque, com longos cabelos trançados e franja feita de tigelinha, espancando um bêbado com uma bandeja.

- Eu já disse mais de mil vezes, Eriberto! Ou ‘cê paga o que me deve, ou te mando pro hospital, tá entendendo?

- Ma-ma-mas era só dois real, Bárbara!

- Não quero nem saber! Aqui no posto, qualquer nica faz falta!

Os outros clientes estão apavorados. Ela ergue o bêbado do chão pela gola da camisa e pelos fundilhos da calça e o atira pela porta, nem percebendo que a moça assistiu a briga toda. Ela muda de humor na mesma hora.

- Opa, opa, opa! Olha só quem resolveu acordar, sô!

- Ocê não muda mesmo, hem, Barbie?

- Rotina... Foi uma senhora noitada hein, Alexia? Dois dias de limbo...

- Nem me fale. Faz aí um leite com abacate e um café duplo, pra ver se eu termino de acordar...

- Deixa comigo, prima. Aquela apresentação que a gente fez em Juiz de Fora foi um arraso! Nem em um mês trabalhando nesse buraco de rato nós ia conseguir tanto capim!

- Ah, nem me lembro de nada da festa...

- Mas vai lembrar rapidinho... Dá uma olhada nas suas costas!

- Minhas...

Ela se olha no espelho da estante de frutas. Tem uma tatuagem gigante monstruosa de uma libélula nas costas dela, ocupando quase todo o espaço da nuca até a cintura. Obviamente, ela fica apavorada.

- AAAAAAAAI! QUE MONSTRO É ESSE NAS MINHAS COSTAS?!- Começa a arranhar as costas, desesperada- SAI DAÍ! SAI! SAI! SAI!

- Faz isso não, uai! A tinta da tatuagem tá fresca ainda!

- Como... Como essa coisa foi parar aqui, Barbie?

- Esqueceu de tudo mesmo... Bom, depois do show uns caras foram visitar a gente no camarim com umas garrafas de bebida e uns comprimidos. A gente ficou doidona demais, um deles era tatuador... Te achei ontem desmaiada lá fora com isso aí nas costas.

- Kurt Cobain, que tragédia... Ai, minha cabeça... E quanto eu perdi nessa burrada?

- Sua parte do cachê.

Os olhos de Alexia ficam do tamanho do pires com a xícara de café que tomava.

- QUÊ? Eu gastei tudo o que eu ganhei no show... NISSO?!

Encosta a cabeça no balcão e começa a chorar. A ruiva olha pro relógio na parede da lanchonete.

- E pra coroar, ainda to atrasadaça pro trabalho!

- Relaxa, sô... Toma sua vitamina e seu café, que eu te empresto uma jaqueta pra tentar esconder essa coisa horrorosa.

- Kurt, meu Kurt! Só tenho mais uma hora pra tentar achar uma carona e chegar no trabalho!

Ela começa a beber tudo numa golada, até quase engasgar.

- Não toma tão depressa, sô, vai acabar enjoando no caminho!

- Não sei o que seria de mim sem ocê, Bárbara... Cadê meu violão?

- Tá mal mermo, hem? Acabou de colocar o estojo nas costas e já esqueceu...

- Âhn? Ah, sim, sim... Cabeça a minha... Tchau, Barbie.


- Te cuida, prima!


Ela vai embora, e todos os clientes da lanchonete estranham a mudança de comportamento de Bárbara.


- Que foi?



video

Speed-painting de Alexia e Bárbara feito por Paris Christou, amigo meu de Londres. A personagem do meio é dele mesmo.

3 comentários:

  1. Eu fico "boba" de ver como surgem as personagens
    muito interessante, melhor "sinistro", mas no bom sentido.
    Abração

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  2. Respostas
    1. achei que seria engraçado se apresentasse a personagem principal tendo um dia horrível em sua 1ª aparição, em contrapartida às musas sorridentes e bronzeadas da globo.

      abraços, minhas fãs

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