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terça-feira, 6 de março de 2012

Sobre a obra, por Pedro Bondaczuk

Obs: O texto é bem longo, mas explica muito bem minhas intenções.

17/05/2011

O escritor, mesmo que aborde em seus livros cenários, comportamentos e fatos que não sejam do seu tempo, anteriores (ou posteriores) à época que vive, tem a sua força manifestada com plenitude e verdade apenas quando trata do que testemunhou pessoalmente.

Viver determinados costumes, conhecer (por haver estado lá) cenários, descrever comportamentos, modas e linguajar por serem também os seus, é muito diferente do que somente pesquisá-los. As pesquisas podem ser, até, meticulosas e feitas com completo rigor. Mas o escritor sempre se verá forçado a embarcar no testemunho de outrem, da fonte a que recorreu, que pode ou não ser exata e fiel a esse passado não vivido. Quanto ao futuro... Tudo fica ao sabor, somente, da pura imaginação.

O escritor, Fernando Yanmar Narciso, em “Terra de excluídos”, opta pelo caminho lógico e seguro para fazer boa literatura. É jovem e, por isso, trata do que conhece de sobejo, ou seja, da juventude, com sua moda, seus costumes, seu linguajar característico e suas atitudes confiantes (não raro em excesso). Pisa, pois, em terreno familiar, sólido e conhecido, em que transita com desenvoltura e desenvolve, por isso, seu enredo com convicção. É este aspecto, entre tantos outros, o que mais chama a atenção e que torna, principalmente, sua narrativa fascinante e verossímil.

Neste romance atualíssimo, os personagens principais, jovens, agem rigorosamente como tal, sem que o autor se limite a caricaturar a juventude. Ou seja, falam a linguagem dos jovens, vestem-se como tal, comportam-se de acordo com o se espera dessa idade, com a ousadia característica dos moços, mas também com sua inexperiência, o que os conduz a erros e contradições. Autenticidade, portanto, é o maior mérito deste romance típico do século XXI.

A Literatura, como tudo na vida, requer constante renovação, para ficar “oxigenada”, ser autêntica, conservar criatividade, originalidade e a vitalidade que dela se espera. Não se deve, todavia, se limitar a renovar meramente por renovar, como se tudo o que foi feito até então fosse ultrapassado e descartável. Isso deve ser feito, sobretudo, com qualidade. E é essa renovação qualitativa que Fernando simboliza, e muito bem.

Tal processo renovador, observe-se, não implica, como muitos pensam, simplesmente em ignorar e se desfazer, liminarmente, de escritores, conceitos e visões de vida, digamos, mais antigos, que para alguns é ultrapassado (mesmo que não seja), apenas por questões cronológicas. Até porque, talento e competência não são atributos exclusivos de nenhuma idade e nem de sexo. Jovens e idosos podem e devem conviver harmoniosamente, pois ambos têm virtudes (e defeitos), inerentes não somente à sua respectiva faixa etária, mas à própria condição humana.

A esse propósito recorro ao filósofo norte-americano Will Durant, que em seu clássico “Filosofia da vida”, observa: “A mocidade tem o fogo, mas não a luz; a velhice, dona da luz, tirita por falta de fogo”. A sociedade, contudo, precisa de ambos, não apenas de um ou de outro isoladamente. Requer calor e iluminação ao mesmo tempo. Precisa da experiência e da ousadia. E ambas têm plenas condições de conviver simultaneamente, cada qual ocupando o seu devido espaço (e, não raro, até o mesmo, pois há jovens que já são experientes e idosos que ainda não perderam o entusiasmo).

A Literatura, quando o escritor é fiel ao seu tempo, tende a ser poderoso instrumento de pesquisa ao historiador meticuloso e consciente do futuro, que pretenda recompor com fidelidade determinada época. Por exemplo, se pretender retratar como era o Rio de Janeiro de meados do século XIX, pode recorrer, sem receio, aos romances e contos de um Machado de Assis. Ali, encontrará detalhes sobre cenários, comportamentos, moda e atitudes que só quem os testemunhou poderia descrever com tanta autenticidade. O mesmo vale para a Paris da mesma época, retratada por Honoré de Balzac. Ou para a Moscou do início desse mesmo século, habilmente descrita por Leon Tolstoi.

Os personagens, cenários, costumes, moda e comportamento de Fernando Yanmar Narciso, em “Terra de excluídos”, guardam essa autenticidade requerida de um escritor ao caracterizar o seu tempo. Um historiador do século XXII não encontrará, pois, maiores dificuldades para entender como eram os jovens do início do século XXI: como falavam, o que comiam, como se vestiam, que músicas ouviam, com o que sonhavam, e assim por diante, se vierem a ler o livro desse jovem escritor.

Seus personagens falam como os adolescentes de hoje, trajam-se como eles, usam tatuagens e piercings, têm celular, MP4, IPads, computadores; navegam na internet; freqüentam redes sociais como Facebook e Orkut, têm os próprios blogs e endereços de twitter. Erram (quando recorrem às drogas e ao sexo sem a devida responsabilidade) e acertam (ao se opor aos vícios, violência, corrupção e tantas outras mazelas que caracterizam o mundo atual), como qualquer moço que conhecemos, não importa sua condição econômica e/ou social.

Voltando a Will Durant e seu clássico “Filosofia da vida”, o filósofo norte-americano caracteriza da seguinte forma o comportamento da juventude do seu tempo (que, guardadas as devidas proporções, não difere muito do da atualidade): “O moço nunca se cansa; vive no presente, não chora o passado, nada receia do futuro; intrepidamente sobe um morro que esconde o que há do outro lado. É a idade das sensações violentas e do desejo sem fim; a experiência ainda não o embotou com o repetir-se e o desiludir-se. Cada momento é amado por si mesmo, e o mundo visto como um quadro estético, algo a ser absorvido e gozado, alguma coisa sobre o que fazer versos e a ser agradecida às estrelas”.

Está aí a descrição mais que perfeita e fiel dos personagens de “Terra de excluídos”. Daí eu caracterizar, sem sustos ou receio de equívoco, Fernando Yanmar Narciso como o saudável e benfazejo sopro de renovação que a Literatura tanto requer, para manter-se “oxigenada”, ser autêntica, conservar criatividade, originalidade e a vitalidade que dela se espera.

*Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk

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Well, galera, isso encerra as apresentações do blog. A partir de Segunda-feira que vem, nossa jornada se inicia. Fiquem ligados, e não se esqueçam de dizer o que acharam!

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