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terça-feira, 6 de março de 2012

Uma cidadezinha no interior...


“Numa sala de aula...

- Quem nasce em Salvador é...

- Soterapolitano, professora!

-E quem nasce em Natal, Rio Grande do Norte?

- Potiguar?

- Isso! Gostei de ver!

- Manda uma difícil, professora!

- Então, tá! Quem nasce em São Modesto é...

Ninguém diz nada. Após longos segundos, Zezinho levanta a mão.

- Masoquista, professora.

E a sala desaba em gargalhadas..."

Trago a vocês a fictícia cidadezinha mineira de São Modesto, conhecida no estado como “ O antro dos sem-esperança”. Localizada numa região montanhosa, dá a impressão de ser uma ladeira sem fim, repleta de casebres coloniais, cortiços e puxadinhos, e pouquíssimos que podem ser considerados ricos. O complexo envolvendo a prefeitura, o palacete do prefeito e sua emissora de TV ficam na última quadra da cidade, lá embaixo, no meio de uma avenida. Então, ironicamente, quanto mais se sobe na vida em São Modesto, mais se desce.

Apesar de sua população ser relativamente calma, São Modesto esconde tipos no mínimo pitorescos. Alexia, 25 anos, é a menina-prodígio da cidade. Professora de música no conservatório da cidade, ninguém entende como, apesar de lecionar Vivaldi, Bach, Beethoven e afins, ela só se interessa por músicas de no máximo cinco acordes. Sexy, inteligente, espevitada e quase sempre fogosa, faz seus alunos pré-adolescentes e todos os marmanjos da cidade quase enfartar de desejo quando anda pela rua. Fã do rock clássico de garagem e tiete contumaz de Kurt Cobain, apenas o amor consegue fazê-la perder o controle sobre suas emoções e ocasionalmente cometer gafes de proporções bíblicas. Sua melhor amiga e confidente é sua prima Bárbara, com quase 30 anos. Moram juntas no hotel de um decadente posto de gasolina. Irascível e um tanto amargurada, Bárbara é uma mulher forte que não hesita em colocar os mais espertinhos em seu devido lugar, exceto quando se trata de sua própria família. Sua mãe, Flor, é uma obcecada com ginástica artística que, por não ter conseguido realizar seu sonho de ser ginasta e nem transformar Bárbara em uma, adotou Clarissa, uma inocente garota 18 anos mais nova que a filha. Alexia e Bárbara formam um dueto de rock psicodélico de prestígio no estado chamado Margaridas Psicóticas.

No submundo da cidade, ninguém é mais famoso que Ulysses, o famoso Uli. Jamaicano, foi forçado pela mãe a abandonar o país a bordo da única coisa de valor da família, um enorme Chevrolet Fleetline 1950, com a missão de regressar rico para o país. Morador das ruas de São Modesto há 20 anos, é malandro até a medula e consegue fazer qualquer um cair em sua enorme lábia, exceto é claro, os seus amigos íntimos. Ex-namorado de Alexia, lançou a carreira artística das Margaridas Psicóticas, atuando a princípio como empresário, percussionista e vocalista. Mas revelou ter um medo patológico de palco, o que ocasionou na sua separação de Alexia e da banda. Mas, apesar disso, os três continuam muito amigos e ele faria qualquer coisa pelas ex-colegas de banda - exceto voltar a cantar.

Seu fiel escudeiro é Josué, um gigante polonês de quase dois metros de altura, forte como um elefante. Judeu ortodoxo, extremamente disciplinado e louco por parafernálias militares, não é de muitas palavras e coloca medo em todo mundo, apesar de carregar um sonho de ser baterista de Heavy Metal. Outro apêndice de Uli é o radialista underground cinqüentão Tião Chorume, o ser humano mais monstruoso, desaforado e alcoolizado de todo o estado.

Mas a pasmaceira dos modestinenses está a ponto de terminar, com a chegada de dois forasteiros. “Mad” Manolo Ventania, recém-chegado aos 20 anos, é franzino, revoltado, estabanado, aparecido e adora fazer besteira. Sua última empreitada foi fugir de sua casa no Rio de Janeiro onde ele e seu irmão mais velho, Jakson, sofriam nas mãos ditatoriais de sua mãe, a maestrina Margarida. Jakson, 27 anos, só quer saber de skate, rock pesado e sexo. Mesmo conformado com a cortina de ferro em que vivia, viu-se na obrigação de acompanhar o irmão mais novo em sua fuga, pois o moleque não duraria nem cinco segundos vivo em liberdade. Quis o destino que eles acabassem chegando a São Modesto totalmente por acaso e mudassem o cotidiano dos jovens da cidade.

O meu real propósito com essa história é falar com os “isolados por opção”, os famosos grupinhos ou gangues, como preferirem chamar. Mostro com meu romance que pode haver algo em comum entre punks, rastafáris, hippies, góticos, metaleiros e outras tribos, podendo até surgir um sentimento de família entre essas pessoas tão diferentes entre si, mas que de algum modo acabam se complementando, num universo onde nunca podemos afirmar com clareza o que é realidade e fantasia.

Um comentário:

  1. Narrativa ágil e quase apressada, com encontros que parecem impossíveis. Uma dupla de forasteiros, mais facilmente seriam enxotados pelos rapazes da cidadezinha e dificilmente seriam acolhidos. Enfim, literatura não é a vida.

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