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quarta-feira, 18 de abril de 2012

ACORDES AO LUAR


N
aquela cidadezinha do interior, Alexia, sentada no peitoril da janela de pijama e cabelo enrolado num coque, olha para uma enorme pintura do rosto de Kurt Cobain na cabeceira da cama, enquanto toca em sua surrada guitarra Schecter Tempest verde-oliva alguns improvisos inspirados em modinha de viola com um ar enfadado...

- Oh...

Para em seguida enfiar o pé no pedal de distorção, estraçalhar as cordas e começar a esgoelar os versos de I Want You Right Now do MC5, a declaração de amor mais feroz da história do rock. Bárbara tenta cochilar na cadeirinha do lado de fora do posto, mas com o barulho que a prima faz no andar de cima é uma tarefa e tanto... Uli, deitado no capô do Fleet, curte seu cachimbo de estimação enquanto olha pras estrelas.

- Essa gata é demais...

Noite adentro, O Pampa 1985 caindo aos pedaços sai rasgando a estrada de chão.

- Será que ela sabe dessa Pampa?- Jakson se preocupa.
- Quem? Mãe? Relaxa... Faz um ano que eu comprei essa lata e ela não sabe nem que eu sei dirigir! E pensar que só na minha10ª tentativa de fugir de casa ia dar certo...- Manolo se vangloria ao volante.
- Com a ajuda de todo mundo, né? Lembra? Até tentar embarcar na alfândega dentro de um baú tu já tinha tentado! Até se amarrou dentro de um saco e ficou esperando na calçada pelo caminhão de lixo... -Jakson abre a primeira cerveja da noite.
- Sem falar de quando eu entrei na mochila térmica do entregador de pizza... E ‘cê viu que a gente só conseguiu ir embora porque dessa vez tu não me dedou pra véia! E pra celebrar... Aqui!- Manolo mostra um CD- A melhor seleção de MP3 do mundo! 350 músicas indispensáveis em qualquer viagem!
- Agora não, cara! Ainda não tô acreditando, mano! Aquela hora que tu foi pra cima dela com a mão fechada, cara, que loucura! Pai te levou embora ainda pequeno e te devolveu faz só cinco anos e tu já partiu pra ignorância com mãe daquele jeito? E eu que agüento a ladainha  dela desde que nasci e nunca fiz nada...
- Ah, tem coisa que só eu sou burro o bastante pra fazer!
- Nada de ensaios, tortura psicológica, chinelada, música clássica... Só tomando uma pra acreditar!
- Só uma?

Manolo tira o anel de uma latinha com os dentes.

- Todas! Por conta da casa. YEEEEEEEE-HAAAAAAAW!
- Dá essa lata aqui, Manolo! Tu não pode beber dirigindo!
- Esfria o coco. Analisei o mapa em cima e embaixo. Tracei uma rota onde a gente vai passar pelas costas de qualquer posto policial.
- Hum... ‘Bora ver se tu é bom mesmo de plano. Cadê o mapa?
- Aí no porta- luvas.

Ele abre a portinha, que se solta do painel e cai no piso.

- Tá muito escuro! Acende a luz aí, maluco.
- Não dá. Queimou semana passada.
- Como é? E como tu acha que eu vou conseguir ler o mapa nesse breu? Tu não tem uma lanterna aqui dentro?
- Tinha, mas vendi pra comprar o mapa.
- COMO É QUE É!- o irmão mais velho se enerva- Pára essa joça aí! AGORA!

Ele pisa fundo no freio e a lata velha dá um cavalo-de-pau, levantando a maior poeira.

- Agora, deixa ver se eu entendi.- as mãos de Jakson tremem de raiva- Tu arrastou a gente pra estrada de chão, à noite, no meio do nada e sem eletricidade por sei lá quantos quilômetros, num carro sem luz e só com um farol funcionando...
- Calma, mano, calma...
- E AINDA QUER QUE EU TENHA CALMA, CABEÇÃO?- Ele começa a estapear furiosamente a nuca de Manolo- A GENTE VAI MORRER AQUI NO MEIO DO MATO, SEU DOENTE!
- Esfria, estressado! Pensa só. Mesmo estando sabe-se lá onde estamos, ainda é muito melhor do que lá em casa, aturando a mãe, concorda?
- Hmpf... Essa tua lógica, Manolo... Mas eu só te deixo dar partida de novo se a gente arrumar um jeito de iluminar esse mapa. Tenho que saber pra onde tu tá me arrastando, compreendido?
- Tu não é fumante, Jakson? Pega teu isqueiro aí.
- Boa idéia... Vamo lá fora!

Jakson estende o mapa sobre o capô fervendo da caminhonete. Acende o isqueiro e vê a linha toda tremida que seu irmão traçou com pincel atômico no mapa.

- Viu, mano? Aqui foi o último posto policial que a gente despistou antes de dobrar à esquerda e tomar a estrada de chão. Acho que a gente só andou uns 10 quilômetros até agora. Basta seguir o traçado e acompanhar a trilha de chão. Sem erro!
- Ôrras... Não é que tu pesquisou tudo nos conformes, Mad? Tô impressionado contigo!
- Então? A gente pode dar partida no carro e ficar borracho agora?

São quilômetros e quilômetros de poeira, cerveja, energético e “bate cabeça”. As centenas de músicas e o berreiro alcoolizado parecem não ter fim. Cannibal Corpse, Krisiun, Megadeth, Metallica, Sepultura, Slayer, Rancid, Black Flag, Alestorm, Grave Digger, Entombed, Offspring, Ramones, Sex Pistols, Minor Threat, Motörhead, Iron Maiden, Dead Kennedys, Black Sabbath, Slipknot, Mudvayne, Evaldo Braga...

- Sorria, meu bem. Sorrrriaaaaaaa...- Os esgares do “ídolo negro” pipocam nos auto-falantes. Jakson estranha.
- Êpa! Que bagaça brega é essa?
- Relaxa, mano. Todo mundo sabe que não existe viagem de macho sem música de corno!
- Hmpf... Então, tá!
- EU SEMPRE LHE DIZIA, QUEM RRRRI POR ÚLTIMO RRRRI MELHOOOOORRRRR...- Os irmãos saem cantando abraçados, se encharcando de cerveja e energético.
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E aí, galerinha? Gostando do desenrolar de tudo? Tô pensando em montar uma grife Blog Terra de Excluídos, de camisetas ilustradas com meus desenhos pro blog. Acham que alguém além de mim teria coragem de usar?

Um comentário:

  1. Está indo bem, com a surpresinha de Evaldo Braga surgindo do nada em meio ao rock pesado. Eu, como mãe, usaria a camiseta. Mas também tenho de dar uma força.

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