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segunda-feira, 9 de abril de 2012

BRAVO!

D

e dentro do Ford Ka vermelho, mãe e filhos observam o majestoso engarrafamento de carros tentando chegar ao Citybank Hall.

- Meus filhos, depois da nossa apresentação, teremos tudo que sempre quisemos ter. Sairemos daquele pulgueiro e vamos nos mudar pra Búzios!

Mad e Jakson riem debochadamente um pro outro.

- E esse entojo de engarrafamento que não acaba nunca? Eu mandei vocês dois andarem depressa!

- É, mas a senhora não viu que eu cortei debaixo do queixo com o barbeador?- Reruca Jakson- Mais um pouco e, em vez de vir pra cá, a gente tinha ido pro pronto-socorro!

- Pronto-socorro uma conversa. Hoje suas feridas só sangram se EU deixar!

- Faz que nem eu e toca fogo na barba, pra ela nunca mais crescer.

- Ah tá, lepra de óculos... E depois eu também passo quatro meses numa cama de hospital sem poder mexer a boca...

- Ah, mas valeu a pena...

Já dentro do teatro, Senhora Ventania é cumprimentada pelo produtor do espetáculo. No portão principal há um cartaz com a foto dos três e os dizeres “ Grande concerto! Maestrina Gladys Ventania & Filhos interpretam Beethoven. Participação da Orquestra Jovem do Rio de Janeiro.” Os irmãos cochicham pelo corredor.

- Maninho doido, a gente tem que reconhecer que mãe apostou mesmo tudo nessa produção! A casa tá lotada! E se nosso plano der errado e ela sair caçando a gente no meio dessa gente toda com um facão?

- Qualé, Jakson? Querendo arredar o pé logo agora?

- Claro que não! Agora não tem mais volta! Mas eu meio que... Tô sentindo pena dela. Já pensou, colocar toda essa produção a perder?

- Heheheh, não esquenta, galãzinho. Não tem remorso que não se cure com uns 500 km de asfalto e umas brêjas. E depois, de um jeito ou de outro, essa velharada vai ter um espetáculo inesquecível...

- Isso, meus filhos!- Dona Gladys sobe os degraus do palco- Hoje é minha... Hum, NOSSA noite de glória! Corram pros seus lugares e peguem seus violoncelos, faltam apenas 20 minutos pro espetáculo começar.

- Tá bom, mãe... Vem, Manolo, vamo nessa.

- E lembrem-se, meus filhos: Sorriam! Não parem de sorrir da primeira a última nota nem se suas mandíbulas caírem!

- Sim, senhora...- Manolo resmunga, com um sorrisinho irônico no canto da boca- A gente vai sorrir muito, muuuuuito...

- Anda logo, meu filho!

Ela corre pro outro lado da cortina.

- E a megera não deu nada pra gente- Lamenta Jakson, retirando o violoncelo do estojo- Beijo na testa, desejos de boa sorte, nada...

Mesmo faltando pouco pro espetáculo começar, a grande maioria do público cativo de concertos já cochila na platéia. Alguns músicos ainda terminam de afinar seus instrumentos no timbre certo. Manolo escreve alguma coisa no celular e envia para cada um dos músicos, que acenam a cabeça, concordando. O anunciante do espetáculo começa a falar, todos os músicos colocam-se a postos. A cortina começa a subir.

- Caraca, a rapaziada já chegou!- Manolo cochicha ao ombro do irmão- Já tô vendo as minas ali no fundo... Chegou a hora. Vamo nessa, Jakão!

- Pô, tu nunca tinha me chamado de Jakão antes!

- Pra dar sorte, mano. Pra dar sorte...

A cortina acaba de subir. Uma chuva de palmas toma conta do teatro. O rosto de Gladys mal pode conter toda sua emoção. Mad e Jakson estão tensos e duros como dois postes. Respiram fundo e engolem em seco. Ela dá o sinal para a platéia silenciar-se e logo começa a fazer seu espetáculo. A orquestra toda, incluindo seus filhos, toca os primeiros movimentos da Sonata ao Luar de Beethoven magistralmente, como se nem precisassem olhar as partituras. O silêncio dos espectadores é quase desesperador. Os mais idosos acabam pegando no sono de novo. As “periguetes” de Jakson já estão morrendo de tédio com 3 minutos de espetáculo e olhando pros relógios. Mesmo com a chatice reinando por toda a sala, todos aplaudem ao final do 1º movimento, mais por educação que por qualquer outra coisa. Durante os aplausos, Jakson e Manolo dão uma piscadela para os lados, dando o sinal para colocarem o plano em ação. Assim que Dna. Ventania se abaixa para mudar a página do livro de partituras, toda a orquestra coloca óculos escuros e os dois irmãos começam a solar “Holy Wars”, um thrash metal pra lá de ruidoso, nos violoncelos, pegando a maestrina completamente desprevenida. Logo os tímpanos entram ensurdecedores, e o resto da orquestra entra na música como um tsunami engolindo a platéia. O produtor do espetáculo olha espantado para Gladys, sem entender o que está acontecendo. Lá no fundo, os amigos dos irmãos Ventania pulam e batem cabeça com o som da música. Alguns espectadores idosos começam a passar mal, ao passo que outros acabam se deixando envolver pelo “heavy metal sinfônico”. Logo, toda a platéia já está de pé e pulando com a música. Uns velhinhos brigam como se fossem adolescentes drogados. Um verdadeiro caos! Dna. Ventania, vermelha de vergonha dos filhos e sedenta por sangue, não vê alternativa a não ser fingir que está conduzindo a orquestra. Ao final da música, Manolo ergue o violoncelo sobre os ombros e o arrebenta no chão, dando um mergulho do palco em cima do público em seguida, ao passo que Jakson tenta sair de fininho por debaixo das pernas de todo mundo no palco.

- METAAAAAAAL! METAAAAAAAAAL! LIBERDAAAAADE!!- Manolo berra em êxtase, enquanto centenas de mãos o arrastam sobre as cabeças do público.

As cortinas descem, e Dna. Ventania é vastamente ovacionada, enquanto tenta disfarçar o constrangimento que seus filhos lhe causaram. Lá do outro lado a turma de Manolo e Jakson os ajudam a se levantar e tentar escapar de fininho pela saída de emergência.



2 comentários:

  1. O texto ficou longo e caso houvesse um desenho quebrando a página ficaria melhor. A história está prometendo muitos embates. Cena inverossímil, mas ainda assim engraçada.

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  2. Essa parte é rica em detalhes, tem um material farto
    de caras e bocas, de sentimentos em ebulição.
    Pena mesmo não ter uma ilustração.

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