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sexta-feira, 13 de abril de 2012

CARTA DE ALFORRIA



D
na. Ventania toma uma dúzia de calmantes no camarim depois do "espetáculo".

- Miseráveis! Miseráveis!Como se atreveram a arruinar MEU espetáculo?!?  Perdoe-me pelos contratempos, Sr. Meloni. Eu não fazia a menor ideia do que meus filhos planejavam, nem que teriam apoio de toda a orquestra!
- Do que a senhora está falando? Foi sensacional, maestrina! O público ainda não se cansou de aplaudir! Foi a apresentação mais emocionante de Beethoven que eu já vi aqui no Citibank!
- Bee.. BEETHOVEN? O SENHOR É SURDO POR ACASO? AQUELE LIXO NÁO ERA BEETHOVEN, ERA... HEAVY METAL, ROCK PAULEIRA!
- Não interessa o que seja, o importante é que foi um sucesso!
- Não quero nem saber! Não foi o que eu batalhei por quase um ano para conseguir realizar! Pode escrever, Sr. Meloni. Assim que eu puser as mãos nos meus filhos, eles se tornarão os novos Fantasmas da Ópera!

Os seguranças do teatro chegam arrastando os dois pelos pés.

- Me larga! Me solta, pôrra!- Manolo se debate, tentando se agarrar no assoalho a unhadas.
- Eu já sei andar, tá legal?- Briga Jakson, com o nariz espremido contra o chão.
- Sra. Ventania? Aqui estão seus filhos. Eles estavam tentando fugir engatinhando no meio da multidão.

Ela vira pros dois com um olhar diabólico. Eles ainda tentam se debater contra os braços enormes dos seguranças, enquanto ela apanha o chinelão na bolsa.

- E aí, mãe? Curtiu a nossa apresentação?- provoca Manolo .
- Meus filhos. Vocês acabaram de arruinar minha carreira artística. Nunca me esquecerei deste abuso, e depois do que eu vou fazer com vocês, vão precisar de plástica pra tirar as marcas do chinelo da cara.

Com o rosto encoberto por sombras e grunhindo, ela brande o temível chinelão contra o rosto de Jakson, porém ele consegue abaixar a cabeça e quem recebe o golpe é o segurança, que solta o jovem e cai no chão, rolando com as mãos no rosto de dor. O jovem ainda acerta uma no saco do brutamontes.

- HÁ! Conta essa pros teus netos, paredão!  vtamente, eu nunca me esquecerei desse disparate, e depois do que eu vou fazer com voc

Ela ainda tenta acertar Manolo, mas ele consegue chutar o chinelo da mão dela. Dá uma mordida no braço do segurança e se atraca com a mãe no chão.

- Ó o que tu fez comigo em cinco anos, mãe!- Ele diz, com um olhar maníaco- Ó o que tu fez!

Ela o agarra num abraço de urso.

- Larga ele! Tu não pode continuar controlando nossas vidas assim!- Jakson ataca.
- Posso e vou! Vocês são MEUS! Assim que saírem da UTI, eu vou forçar os dois a tocarem TODA a obra de Beethoven praquela platéia lá fora. SÓ vocês dois, sem orquestra...

Michele e a outra menina vêm por trás e puxam Manolo para fora das garras da mãe.

- Jakie! Mad!
- Bem na hora!
-Trouxe seu skate, amor.
- Podem deixar.- Declama Michele- O plano vai funcionar nos conformes com a gente por aq...

Ela se dá conta do tremendo fora que acabou de dar. Os irmãos cobrem a cara de vergonha.

- ... Plano?- Dna. Ventania se espanta- Quer dizer que ainda tem mais?
- Tem sim, jararaca! Hoje os dois vão abandonar o Rio pra sempre!
- Fica quieta, Michele! Dessa parte ela não precisava saber!- Jackson murmura no ouvido dela.

Eles nem percebem que os seguranças já se levantaram e os cercaram.

- Mas só passando por cima de meu cadáver! SEGURANÇA?

As moças viram- se para os gigantes e esguicham spray de pimenta nos olhos deles.

- Se abaixem!- Jakson alerta.

Elas obedecem, os dois sobem em suas costas e dão uma voadora nos seguranças, abrindo o caminho pelos corredores do backstage, Jakson no skate e Manolo sentado nos ombros dele como uma criança, atropelando tudo e todos que cruzam seu caminho. Derrubam a porta dos fundos num tranco e saem correndo para o estacionamento.

- E agora, véio? E agora?
- Pergunta pra mim? ‘Cê que é o estrategista aqui, cabeção!

Eles vêem uma Hilux acelerando e cantando pneu. O motorista buzina. São Aiatolico, Johnny Boy e Siri.

- Rapidão, truta! Sobe aí!

Lá vem a Dna. Ventania, os seguranças e mais meia dúzia de funcionários do teatro atrás deles pela porta dos fundos.

- Voltem já aqui, seus malandros!

Ela atira seu temível chinelo tamanho 48 contra a porta da camioneta antes de os dois subirem a bordo, e ele afunda na lataria como uma estrela ninja. Os irmãos olham assombrados para aquilo e encaram a mãe deles.

- Essa foi a última vez... ACELERA, SIRI! COSPE FOGO!

Manolo arranca o chinelo da porta e sobe na camioneta, que sai cantando pneu. Ela ainda tenta correr atrás deles a pé, mas acaba tropeçando e dando com a cara no chão.

- Voltem aqui! Voltem! Eu ainda mato vocês doooooooooois...!- Dna. Ventania espuma de raiva entre os braços dos seguranças que tentam contê-la.
- O quê?- O garoto a provoca de novo, mostrando o chinelo para fora da janela- Dá pra falar mais alto? A orquestra tá muito alta! HAHAHAHAHAHAHAHAHA!
- Eu ainda agarro eles...

Fora dos limites da cidade, Manolo e Jakson pegam a Pampa no posto de gasolina. Jakson ainda dá um último malho nas meninas antes de sair. Manolo já está impaciente ao volante.

- Ô, super-galã? Entra logo no carro, que a estrada não anda sozinha! A veia já deve ter até chamado a polícia!
- Já vou, seu chato! Assim que a gente chegar em qualquer lugar, prometo que ligo pra cada uma de vocês, tá?
- Tô te esperando, Jakie.- Michele dá um último beijo nele- Sorte pra vocês dois!

Jakson entra no carro, Manolo liga a chave e...

- Oh... Aí, galera.- Manolo fica sem graça-  Dá pra ajudar a pegar no tranco?




2 comentários:

  1. Cena exagerada e tanto, mas possível. O que não dá para entender é o motivo de os rapazes não terem ido embora há mais tempo, já que detestavam tanto a mãe quanto a música clássica. Bem ágil e com diálogos autênticos. Espero pela continuação.

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  2. A primeira vez que li sobre a mãe deles, achei-a uma tirana, na verdade ela projetou todos os seus sonhos e devaneios nos filhos.
    O talento deles para a música só fez alimentar suas"viagens".
    Pena que ela esqueceu que eles tinham asas.
    Adorei a ilustração.
    Beijos

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