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segunda-feira, 2 de abril de 2012

A GRANDE NOITE(PARTE 2)

- D

ia ruim pros negócios, Uli?

- Mais um pra coleção. Tá menos azeda agora, gata?

- Ârrã. Olha, desculpa o jeito como te tratei mais cedo.

- Tranqüilo, Lexi. Ficou sumida da cidade no fim de semana...

- É. Eu e minha prima fomo tocar numa festa de aniversário em Juiz de Fora sábado à noite. Rolou um bundalelê daqueles no camarim, e aí... Só acordei hoje, com isso aqui nas costas.

- Ai!- Ele toma um susto com a libélula gigante- Olha que Jah castiga, hem? Dizaí, gostou da cor nova do meu Fleetmaster? Também fui lá em Juiz no fim de semana dar uma pimpada no carro.

- Bonita. Ele ainda consegue andar com essa placa aí em cima? Mais parece uma escada de bombeiro...

Ela se refere ao imenso letreiro instalado no teto do Chevrolet escrito “REI ULI Ltda. COMPRO, VENDO, ALUGO, ETC. PRODUÇÕES ARTÍSTICAS”

- Claro que anda. Com o motor novo que eu descolei, dá pra voar até Marte com o velho Fleet aqui. 300 cavalos de rugido.

- Por essa e outras nosso namoro acabou. Ocê gasta tudo o que ganha com esse monte de lata, e não guarda nada nem pra comer...

- Dizaí, por falar nisso, não quer ir ali comigo, bater um rango? Tá parecendo tão fraca... Suas pernas tão balançando mais que trigal no vento.

- Eu não comi nada desde sábado, tá legal? -Suspira de cansaço- Ah, Ulysses, eu faria tudo pra ficar bem quietinha hoje... Cair na farra, nem morta, mas se ocê quiser me deixar lá em casa, eu...

Ela desmaia de fome no colo dele.

- E eu tenho escolha? Vamolá, gata...

Leva Alexia pro carro e eles saem da cidade.

Depois de limpar toda a bagunça do apartamento e disfarçar o cheiro de bagulho com litros de Bom Ar, os irmãos rebeldes vestem os smokings para o recital.

- Pára de rir de mim, pôrra!- Jakson reclama do irmão caçula- Eu sei que eu tô ridículo com esse smoking e esse cabelo todo lambido, mas tu também não ficou digno de homenagem, lepra de óculos!

- Eu sei, eu sei. Parece que eu me vesti com um saco de lixo... Pelo menos eu entrei num acordo com a jararaca pra ela me deixar usar meu cabelo do jeito que ele é no concerto.

Jakson ri.

- Cabelo... Chama esse mato aí de cabelo? Até a escovinha do vaso tem cabelo melhor que o seu!

- Fica na tua, galãzinho! E a galera já ligou da estrada?

- Já, sim. Mandei Tolico esconder as placas da tua caminhonete, pros radares não pegarem a gente na estrada. Se tudo correr como tu planejou, hoje, às onze, a gente já vai tá no asfalto!

- Tem certeza que já tá tudo acertado com o resto da orquestra, né?

- 100%. Mandei a partitura de"Holy wars" do Megadeth por e-mail na semana passada...

- Boa escolha...

Eles escutam a chave encaixando na fechadura.

- Aguenta, coração. O demônio tá chegando aí...- Resmunga Manolo.

- Hora de bater continência.- Diz Jakson.

A Senhora Ventania abre a porta num tranco, batendo-a violentamente contra a parede. O vestido branco bufante que ela usa a deixou muito semelhante ao Homem de Marshmallow dos Caça-Fantasmas. Ela chega toda irradiante. Eles padecem em posição de continência, fazendo cara de manequim.

- Olha só pra vocês! Vejo que já se adiantaram com os smokings. E, por Cristo lá em cima, como vocês ficaram elegantes com eles! Não disse que compensaria sacrificar nove meses de mesada para encomendar num alfaiate? Somos a própria Família Lima!

- Ha. Ha. Ha. Ha...- Os dois “riem” sarcasticamente.

- Eu fiz muito sacrifício para que tudo saísse perfeito nessa noite, portanto, espero que nenhum dos dois se atreva a me fazer passar vergonha diante do público. Porque, se acontecer...

Ela puxa um chinelo de couro imenso, quase do tamanho da própria coxa, de dentro da bolsa, como se desembainhasse uma espada. Os olhos deles chegam a lacrimejar com o tamanho do chinelo, que chega a fazer sombra sobre eles.

- Estão avisados. Manolinho, lava melhor esse rosto, que tá com uma mancha enorme de encardido na bochecha. Um pouquinho de sabão não faz mal a ninguém. Passa mais um pouco de graxa no sapato, Jakson, e vá se barbear de novo. Nós só temos duas horas para chegar ao Citybank Hall antes das cortinas subirem. Agora vão, vão, vão! Só 10 minutos pra sair! E que fedor horroroso é esse, vindo da cozinha? Parece até que a caixa de gordura estourou!

- Nem queira saber, mãe... – Jakson retruca do banheiro, já se lambuzando com a espuma de barbear.

Uma moto de pizzaria passa voando como uma bala rente ao enorme Fleetline de Ulysses. Por muito pouco não arrasta a maçaneta e o retrovisor esquerdos junto com ela.

- Doente! Que é isso, bandoleiro?- Ele se rebela com o piloto, erguendo o punho pra fora da janela- Olha que Jah castiga! Filho da...

-Dirija mais rááááápidooooo...- Alexia, ainda sem ter recobrado totalmente a consciência, entoa um falsete debochado.

Bárbara, entediada, tira uma pestana numa cadeira de bar encostada no lado de fora do posto.

O ronco do motor de Uli a acorda.

- Opa! Não acredito, um cliente!

- Falaí, Barbie!

- Aaaaah, é só ocê, vagabundo? Tava até achando que deus tinha me mandado um presente... Quê que foi, sô? Se perdeu no caminho de volta pra Jamaica?

- Não, não... A Lexi aqui desmaiou no meu colo saindo do trabalho.

Metade do corpo dela escorre pela porta do carro. Bárbara se apavora.

-Nossa Senhora! Que foi que aconteceu com ela?

- Não comeu nada a tarde toda. E do jeito que a barriga dela roncou no caminho, parece que ela vai esvaziar a dispensa sozinha. Me ajuda aqui a tirar a gata do carro.

- Vem comigo, prima. Brigada, Ulysses...

- Rastafaris sempre alerta, meninas. Âhn... Tem problema se eu passar a noite aqui no estacionamento, Barbie? Tô no meio de uns rolos lá na cidade e...

Enquanto arrastam Alexia pra fora do carro, Uli não consegue resistir e “discretamente” dá uma apalpada na coxa de Bárbara.

- ÊPA!- Dá um tapa na mão dele- Nem nessa situação ocê deixa de mão boba, vagabundo?

- Ih, foi mal...


Um comentário:

  1. Achei bacana dona Ventania parecer personagem de filme. A história está interessante e estimula a curiosidade do leitor.

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