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segunda-feira, 23 de abril de 2012

O ACORDO




A
manhece em São Modesto. Uli treina seu “charme irresistível” no retrovisor do carro.

- Ei, por acaso ocê tá interessado em comprar fotos do ET de Varginha? Eu mesmo tirei! Não? Que tal umas cápsula de cartilagem de tubarão? Minha bisavó toma e já tem 132 anos. Não? Ah, então já sei do que ocê precisa! Tenho aqui uns relógios Rolex legítimos, iguais aos que o Obama usa. Não, não é contrabando não, só não paguei ainda por eles. Dois por R$ 5.000,00 e ocê ainda leva um jumento que põe ovo de ouro de brinde. Vai levar ou não vai?

No andar de cima...

- Acorda aí, sô!- Bárbara abre as cortinas do quartinho de hotel e bate com uma colher numa caneca de metal para acordar a prima.
- Ah. Dia, Barbie...- Ela esfrega as mãos nos olhos para despertar- Melhor que o rádio-relógio, hem?
- Pôxa, parece até que ocê fez plástica no rosto! Só precisava mesmo duma noite bem dormida!
- É... O difícil vai ser apagar essa tattoo das minhas costas. Se eu economizar por dois anos e cortar a bebida, ainda não vai dar pra pagar a operação.
- Ah, quem sabe com o tempo ocê até aprende a gostar dela...
- Duvido... Vamo descer pro café?
 - Vamo. Ai, minhas costas! Pegar no sono naquela cadeirinha de bar foi uma péssima idéia...

Logo ela desce radiante, usando seu traje favorito: Sua bandana preta de estimação, coleira, uma camiseta baby-look amarela super-justa com um decote generoso, coberta por uma regata púrpura, pulseiras e escravas nos braços e pulsos, calças jeans estropiadas e tênis Keds vermelhos. Na lanchonete, Back in Black, do AC/DC, termina de tocar no rádio. O locutor fala aos berros como um porco grunhindo.
- E esse foi o mega-super-ultra-arqui clássico AC/DC, podridão vinda direto da Austrália pros seus ouvidos! Lembrando a vocês, corajosos modestinenses, que o desafio da semana ainda ta em pé. Levei um ano, mas tenho aqui na minha mão o chapéu verdadeiro da Noviça Voadora! Ocêis têm até sábado pra apresentar lá na frente da igreja da cidade alguém louco o bastante pra colocar esse chapéu, subir no campanário e testar se ele funciona de verdade, valendo um apartamento com 6 cômodos em Juiz de Fora todo mobiliado! Quem vos berrou foi o primeiro e único Tião Chorume, despedindo-se desse buraco de rato chamado São Modesto pelas próximas 5 horas. Que vão todos pro inferno!
- Não fossem as músicas que esse imbecil toca...- Bárbara comenta, passando uns mistos na chapa- Olha, o aniversário da Clarissa é no sábado e mãe ligou, dizendo que quer porque quer que ela passe o dia aqui com a gente.
- Vê se não faz Clá chorar muito dessa vez. Tia Flor reclama todo ano porque ocê sempre provoca sua irmãzinha no aniversário...

Ela recheia um pãozinho com meio pote de Compota de Cajá-manga Premium Rotscheider, e só falta esfregar na cara de tanta vontade de comer.

- Meu Kurt, meu Kurt! O prefeito não sabe nada sobre liderança, mas essa compota de cajá dele é de outro mundo, sô!
- Sabe de uma coisa, Lex?
- Hum?
- Ontem à noite, enquanto ocê comia até quase desmaiar de novo, fiquei pensando... Olha só pra nós duas, prima! A gente vive mal, come mal, mora muito longe da cidade, administra mal nosso tempo e nosso dinheiro.
- Lá vem ocê com essa de ambição de novo...
- Esse estilo de vida tá acabando com a gente, a gente sabe disso. Ocê e eu temo problema com a família. Sua mãe sempre te desprezou, desde nenê, não te manda nem e-mail. Depois que papai me obrigou a ficar aqui no posto, nunca mais falei com ele, e já são dez anos de sofrimento dentro desse prédio caindo os pedaço. Sem falar que mãe vive de esfregar na minha cara os feitos da pestinha da Clarissa! Família não devia ser assim! Nem chegamos aos 40, e olha só como a gente já tá frustrada com a vida, sô!
- Bom, como seu pai costumava dizer... Tá com problema?- Abre uma lata de cerveja- Tá aqui a solução!
- Mas a vida não pode ser só isso, prima! Óia, a gente ainda é mais ou menos jovem, bonita e talentosa. Ocê então, nem se fala. A gente não pode viver assim pra sempre, só com o de comer malémal garantido e um showzinho ou dois por mês. Escuta, por que a gente não faz um acordo?
- Acordo?
- A gente pode se dar, sei lá, um mês. A primeira oportunidade que aparecer na nossa frente, qualquer que seja, a gente agarra e mergulha de cabeça nela, OK?
- Por Kurt...
- Mas tem de pegar firme a oportunidade e não largar de jeito ou maneira, tá bom?
- Vá lá... Fechado!

Elas se abraçam. De repente elas escutem uma batida vindo do banheiro dos homens, e um aguaceiro corre pela fresta da porta.

- Ah, meu deus... -Bárbara lamenta- Será que o cano do esgoto estourou de novo?

Eis que Uli sai do banheiro. Elas suspiram.

-Ah, é só o Ulysses...- Alexia acena negativamente e volta a comer.
- Eu não lembro ter dito que o banho tava liberado, ô vagabundo!
- Que banho, gata? Fazia umas três semanas que eu não escovava os dente, só isso. Escorei na pia pra escovar e de repente ela caiu no chão.
- Santa paciência... Óia, Ulysses. A gente tem de ir encomendar umas coisas pra abastecer a lanchonete e chamar um bombeiro pra consertar a bagunça que ocê fez. Sua carroça agüenta o peso de três pessoas?
- Claro, Barbie. Querem carona?
- Óbvio, né? Mas o conserto da pia é ocê quem vai pagar!
- Sem pró!

Fora da lanchonete, Uli saca uma folha de jornal toda puída e desbotada do bolso do paletó também todo puído e desbotado, dobrada no formato de uma carteira.

- Seus dez pelo pernoite, Barbie.

Assim que ela põe no bolso...

- A propósito, é dez real a carona.

Ele capricha em seu sorriso indefectível, e ela não corta conversa: lhe enfia uma joelhada na barriga.

- Cala a boca e dirige!
- Ssssssem... Próóóóóó...- ele quase desmaia de dor.
- E...- Agarra o pulso dele com força esmagadora, pois sua mão boba tentava alcançar novamente a coxa dela- Já sabe!

Um comentário:

  1. Vai criando uma realidade paralela, enquanto embarcamos e andamos nas suas ideias. Tão linda e magrinha, se Alexia ficar comendo misto,logo aumentará o tamanho da cintura. Cuidado com o que ela come.

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