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terça-feira, 1 de maio de 2012

OS CRUSOÉS




N
o meio de um milharal, ao lado de uma frondosa castanheira, o Pampa tem o pára-brisa trincado, o capô levantado, o radiador fervendo e cuspindo vapor igual uma chaleira. Jakson, escorado no carro, abre uma latinha de energético quente. Manolo filma a si mesmo.

- Aqui estamos nós, em algum lugar da mente, curtindo nossa primeira manhã em plena liberdade... Tu olha pra frente, não tem nada. Olha pra trás, nada. Pra esquerda, pra direita, pro chão, pro céu...- Ele dança com a câmera de vídeo para todos os lados- Nada. Nenhuma alma viva. Cara, isso é ducarai! Com a palavra, Jakson!- Aponta a câmera pro irmão.- Diga para a posteridade O que você pensa a respeito da liberdade, mano veio!
- Que ela sempre parece melhor na ficção...- Responde o irmão mais velho, com seu tom de voz anasalado, sempre com um ar meio indiferente-  Tira essa merda da minha cara, cabeção!

Toma a câmera das mãos dele e joga longe no milharal.

- Viu só o que tu aprontou, Mad? Bem que eu tinha desconfiado daquela linha reta no mapa que tu chamou de rota de fuga! Agora a gente tá faz seis horas com a caranga quebrada no cu do mundo porque ‘cê deixou o mapa sair voando pela janela há sei lá quantos quilômetros.
- Quer parar de reclamar, jakson? A gente tá livre, cara!
- Cala a boca, lepra de óculos! Bem que tu podia ter levado essa sucata na revisão antes de enfiar o pé na estrada, né?
- Com os 20 conto que mãe dava pra gente toda semana? A oficina não ia querer nem limpar o pára-brisa. Cacete, o radiador esquentou tanto que abriu um furo... Se a gente achasse uma resina de árvore e uma pedrinha pra tampar o furo e um riacho pra pegar água... E a bateria também arriou.
- Pudera. Esse sistema de som chinês comeu a energia toda, e teus MP3 nem tinham chegado à metade. Pelo menos aqui tem milho verde pra gente roer e tirar esse gosto de mijo da boca... Se tivesse pelo menos uma zona de pé-de-morro aqui perto...

Manolo sobe na castanheira para tentar enxergar alguma coisa.

- Hum... Parece que tem uma descida ali adiante. Se a gente descer de banguela, pode ser que dê até pra alcançar o asfalto. Aí fica mais fácil encontrar um guincho, né?
- Banguela?

Eles empurram a caminhonete ladeira abaixo, sem nem perceber que a ladeira era tão grande e irregular que mais parecia uma montanha- russa. A Pampa velha desce em disparada e pulando.

- U-HUUUUUUUUU!!! RADICAAAAAAAAAL!!!- Manolo vibra com as descidas.
- NÓS VAI MORREEEEEEEEEEERRRRRR!!!- Jakson não parece tão entusiasta a respeito.

No Rio, Dna. Ventania anda como um zumbi pelo apartamento, tentando computar a idéia que seus filhos a abandonaram e fizeram uma limpa na casa. Ela se senta na poltrona da e fica se remoendo de ódio. Sobre as camas dos filhos fugitivos não há nada além de dois abacaxis, um com óculos iguais aos do Manolo
e o outro com uma peruca loura e um boné do Vasco, com um bilhete escrito “PARA A SENHORA NÃO SE SENTIR TÃO SOZINHA. CALOROSOS ABRAÇOS DE SEUS FILHINHOS QUERIDOS... BRUXA!”

- Eu pego eles... Eu pego... Eu PEGO!!!

Sai jogando no chão tudo que vê pela frente, se deita de bruços nos cacos e chora.

O Fleetmaster 1948 vai chegando à ex-praça de São Modesto. O sol mal nasceu e as crianças já perseguem a Kombi verde dos sorvetes.

- Mas também, Barbie- Alexia comenta- pra querer mudar alguma coisa na sua vida, ocê tem que dar um jeito de segurar seu lado selvagem.
- Ela tem razão, Bárbara. Às vezes parece até que ocê tem ácido muriático correndo nas veias.
- Quem te convidou pra conversa, vagabundo?
- Tá vendo? É por isso que o posto vive vazio, já vem atender os freguês com o tacape na mão...
- Mas quê que eu posso fazer, uai? O sangue de índia guerreira que eu tenho...

Enquanto estaciona, Uli avista na calçada quatro brutamontes de braços cruzados, olhando feio para ele.

- Pela madrugada... - Uli dá um murro na buzina- Viram porque eu não queria dormir na cidade?
- Podes crer...
- Eu vou encostar e ocêis duas sai de fininho pelo porta-malas, tá?

Ele abre a mala do carro com o chaveiro automático, elas abaixam devagar o banco de trás e saem, ao passo que os marmanjos puxam Uli pra fora pela janela do carro.

- CADÊ A CERVEJA IMPORTADA QUE OCÊ ME PROMETEU, ULYSSES? TE DEI R$500,00 ADIANTADOS MÊS PASSADO E ATÉ AGORA NADA!
- E OS 100 DO RUM?
- E OS 300 DA CONTA NO CABARÉ?

Ele nem sabe o que dizer. Fica tendo espasmos musculares e soluçando nas mãos dos marmanjões. As garotas ficam observando da calçada.

- A gente devia chamar alguém?
- Nhé... Relaxa, Alexia. Ocê conhece o Ulysses, sempre dá um jeito de fugir de tudo.

Um deles apanha um galão de gasolina.

- NÃO, NÃO! PÕE FOGO NO MEU CARRO, NÃO! JAH VAI CASTIGAR, HEM? JAH VAI CASTIGAR!
- Que carro o quê, Ulysses? Quem nóis vai queimar é ocê!
- Baaaaarbie...- Alexia tenta persuadir a prima a ir lá ajudar o amigo.
- Ele vai dar um jeito, prima...

Os caras tiram a roupa dele, lhe dão um banho de gasolina e o cobrem de palha. Ele chora. 

2 comentários:

  1. Credo! Tortura e assassinato, não!

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  2. E que seja somente "fogo de palha", demorei mas cheguei.
    Atenta sempre.
    Abração

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