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quinta-feira, 17 de maio de 2012

TAL MÃE, TAL FILHA (PARTE 1)



J
á é quase meio-dia. Do alto da torre da igreja, o padre toca Ave Maria num violino para atrair as pessoas para a missa. Nas ruas, vários caminhões com o emblema da prefeitura passam, e atrás deles homens usando macacões, óculos de proteção e capacetes saem dando golpes de picareta no asfalto de paralelepípedos, plantando umas bolinhas alaranjadas com fios saindo pelo topo, cimentando por cima e deixando por toda parte faixas de “PERIGO! NÃO ULTRAPASSE!”. Todo mundo fica olhando para a presepada e coçando a cabeça, sem entender nada. Os carros começam a amontoar na entrada da cidade, sem poder passar, pois armaram uma tela de arame ao longo da fronteira. Alexia e Bárbara chegam a um edifício bem antigo de quatro andares, paredes beges encardidas e janelas de vitral antiquado.

ED. OTTO ROTSCHEIDER

- E aí, prima?- Alexia pergunta, amarrando novamente sua bandana de estimação na testa- Tem certeza que quer falar com sua mãe? A última vez que ocê e tia Flor tentaram conversar foi no réveillon, e precisaram usar a mangueira de incêndio pra apartar ocêis duas!
- Querer eu não quero, mas não tem outro jeito, né?

Ela toca o interfone do prédio. Um cachorro late.

- Quem é?
- Sou eu, mãe!
- Filha! Que milagre é esse, sô?

O portão eletrônico se abre. Um cachorrinho chihuahua sai pela portinha de animais como uma bala de canhão, voando em cima de Bárbara.

- Sabata! E aí, cachorrinho da mamãe? Beijinho, beijinho! Puxa, andou engordando, hem?
- E pensar que ocê tava quase matando um na rua agora há pouco...- Alexia brinca, enquanto arruma o batom nos lábios.

Elas param em frente à porta do apartamento. Bárbara respira fundo. Elas passam ao lado da estante de troféus da família, todos de Clarissa. Bárbara finge que não viu e entra na cozinha, onde a mãe a espera pronta para dar um abraço. Ela, uma cinqüentona enxuta, com uma vasta cabeleira praticamente igual à da filha, pele morena e leve sobrepeso, usa um vestido azul-marinho, um rosário no pescoço, avental e óculos.

- Que surpresa, garotas!
- Oi, tia Flor!
- Alexia, paixão! Dá um abraço na tia! Ainda usando esse pano véio na testa, menina?
- É de estimação, né, tia?

Ela vê um pedaço da tatuagem nova da sobrinha, escapando para fora das roupas e dos cabelos presos em duas chuquinhas.

- Credo! Que foi que ocê andou aprontando, Alexia?
- Nem queira saber.
- Jesus! O que aconteceu, minha filha? Parece que um trator te atropelou! Tão magrinhas, as duas! Anda, vão pegar almoço procêis! Tem arroz, angu e pudim de carne no forno.
- Brigada, tia.

Elas começam a comer feito flagelados africanos. Flor fica horrorizada e dá nelas com o pano de prato.

- Cruzes! Cadê os modos? Nunca viram comida antes?!
- Foi mal, mãe...
- Por onde anda a Clá, tia Flor?
- Esqueceu? Ela vive na capital desde o começo do ano. Tem ralado feito uma condenada pra fazer parte do time de ginástica do estado.
- Vi as fotos e as medalhas dela na estante.- Alexia comenta- Ela tá virando um mulherão, hem? Aposto que as colegas têm até medo dela!
- E pai?- Bárbara intervém, para parar de ouvir sobre a irmãzinha- Cadê ele?
- Seu pai é... Seu pai, né? Depois que te mandou pro posto, faz dez ano que não vê a cor do sol. Fica o tempo todo trancado no quarto, não deixa ninguém entrar... E como anda o posto?
- Nem me lembre, mamãe. Detesto aquele lugar do fundo da minha alma!- Ela meio que afunda a cabeça entre os ombros e começa a lamentar- Detesto, detesto, detesto!! Não consigo entender porque ele insiste tanto para eu continuar vivendo ali. Já não tem mais gasosa há três anos, só aparece mendigo e drogado por lá e o prédio tá caindo os pedaço. Hoje de manhã o Ulysses fez o favor de arrancar a pia do banheiro pela vigésima vez.
- Ulysses? Continua transando com aquele vigarista, Alexia?
- Kurt, meu Kurt! Claro que não, né, tia? A gente é só amigo, mas ele continua azucrinando a gente todo dia.
- Fez muito bem em passar a rasteira nele, Alexia! Aquilo não vale um tostão furado, sô!
- Vem falar pra mim?

Lá na estrada, a fila de carros aumenta cada vez mais, enquanto Uli e Josué carregam as coisas pra dentro do posto. O gigante carrega quase tudo nos ombros e o malandro caribenho tenta arrastar só o saco de laranjas no chão.

- Tá certo que eu sou judeu, Ulysses, mas não quer dizer que eu faria qualquer coisa pra conseguir dinheiro...
- Já sei, Jô! Que ocê acha de eu montar uma barraquinha de plástica popular? A mulherada ia sair de cara nova a cinco real!
- Adonai, fique atento a essa alma ...- O amigo responde debochadamente, olhando para o céu.
- Ah, que foi, Jô? Se na Índia dentista atende no meio da rua!
- Cada vez que você bafora esse seu cachimbo, suas idéias pioram, já notou?
- Se barraquinha de plástica não der pé, quem sabe então de exame retal?

O comparsa não diz nada.

- Oh, Jah! Meu corpo desacostumou mesmo com o trabalho... Mas que buzinório será esse lá fora?

Eles põem a cara pra fora da lanchonete e avistam uma fila de mais de 20 km de carros na estrada.

- Uau... O que será que aconteceu lá na cidade?
- Quem liga?

Ele corre até o freezer e apanha fardos de latas de refrigerante e uma caixa de copinhos de água mineral.

- Vamo lá faturar! Issa!

Um comentário:

  1. Padre e culto? Não seria padre e missa? Sobre a chuquinha, achei engraçado e imaginoso. Já estou gostando desses loucos. Ninguém nessa história consegue ser normal?

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