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terça-feira, 15 de maio de 2012

UM TOUR PELA CIDADE (EPÍLOGO)



O
 celular gigante dele, de meados dos anos 90, toca. O ringtone é Legalize it, do Peter Tosh. Ele atende.

- Bonjour? Lexi, Lexi, Lexi! Qualé a boa? Hum... Sério? Podexá, que eu já chego aí.

Uli sente a terra tremendo sob seus pés. Olha para trás e vê rolos compressores e escavadeiras vindo em sua direção. Eles buzinam e ele se assusta.

- ÔU! ÔU! ÔÔÔÔÔU! QUE NEGÓCIO É ESSE?! PERAÍ!!
- Tira essa lata daí da frente, Uli!- Fala o peão de obras- A gente tem que abrir um caminho por detrás da cidade!
- Como assim?
- Não é da sua conta! Sai logo da frente!
- Tá bom, já vou! Já vou!

Ele sai em disparada.

BAR E CASA DE SHOWS PÉS JUNTOS.

Um prediozinho azul-claro de dois andares, socado no fundo dum beco na periferia da cidade. O barman, um homem em seus 40 e poucos anos, de cabelos compridos e barba ruiva, com uma cicatriz no olho direito e usando a camiseta da seleção escocesa de futebol, atende um sujeito com cara de jagunço.

- Vai querer o quê?
- Leite. On the rocks. De vaca velha.

O barman imita o sujeito em voz baixa e entra na cozinha. Alexia ajuda a prima a entrar no bar.

- Oi, meninas!
- E aí, escocês? Barbie aqui passou por um stress daqueles agora há pouco.
- Tô vendo... Quer o quê, Bárbara.
- Drury’s. Dose dupla. E... Vira metade do açucareiro dentro do copo!
- Bebendo cedo assim? Não quer só água com...
- Drury’s, escocês. Drury’s!- Ela soca o balcão, começando novamente a chorar.
- Pega leve, prima. Fiquei até surpresa porque ocê agüentou tudo sem voar no pescoço do fornecedor. Pra uma primeira tentativa de engolir a raiva até que foi bem, sô.
- Mas a que preço, Lex? O nervo não passou até agora, e eu aposto que minha cara vai amanhecer lotada de espinhas!
- Não exagera, Barbie.
- Nesses dez anos de posto, eu nunca pedi fiado pra ninguém. É uma sensação horrorosa!
- Aqui, Bárbara.- Escocês serve o pedido dela- Toma devagar.

Vira metade do copo num gole. Ele se espanta.

- Meu São Patrício!Vai com calma aí!
- Agora to lembrando, escocês... - Barbie lambe o resto do açúcar do copo- Ocê ainda não pagou pra gente nossos dois últimos shows. Quando vai sair?
- Paciência, Bárbara. Depois que o prefeito subiu o imposto do barril de chope, o lucro dos bares caiu muito. O mínimo que posso fazer agora é continuar pagando com gole...
- Acontece que eu fiquei devendo R$ 200,00 pro fornecedor de mercadorias do posto, e se eu não pagar até terça que vem, só deus sabe o que vai ser de mim e de Lex!
- Deus e Kurt!- Complementa Alexia.- Me dá aí uma mineral com gás?
- Na hora. Toma aqui seu leite, cabra homem... - Ele curte com a cara do outro freguês- De casualidade, qual seu nome?

O homem abre o sobretudo, mostrando uma escopeta surrada com um emblema de caveira incrustado no cabo .

-Antôim.- Responde com uma voz tumular-  Antôim das Morte. Vim aqui fazer um trabaim pra um fazendeiro, mas se ocê não parar com amolação, faço mais um de graça!

Escocês engole a língua e dá um pulinho para trás. Uli chega.

- Pronto, gatas. Demorei mas cheguei. Trouxe uma garrafada da feira pra ver se te acalma, Barbie.
- Valeu a força, Ulysses.- Alexia agradece- A coisa foi séria.

Bárbara vira a garrafada goela abaixo num gole só, quase engasgando.

- Vai com calma aí, Barbie!
- Me deixa por um tempinho, prima... E aí, vagabundo? Topa passar no fornecedor e levar a encomenda pro posto?
- Tem que ver se a gasolina dá. O tanque do Fleet tá quase vazio.

Alexia dá 50 reais pra ele.

- Então ocê abastece e leva pra gente? Toma a chave da loja e o recibo.
- Ocêis não vêm junto? Ela devia tirar uma palhinha...
- Não dá ainda. A gente precisa tentar conseguir o resto do dinheiro pra pagar a encomenda.
- Então, tá. ‘Té mais.
- Vai logo, vagabundo!

Uli põe a cabeça pra fora do bar e berra.

- Ô JOSUÉ??

Manolo e Jakson enfim conseguiram uma ajuda pra levar o carro quebrado ao conserto. Amarraram o eixo da caminhonete ao pára-choque de outro carro. Manolo volta pra dentro do carro.

- Viu só, mano? Eu disse que as coisas iam melhorar pro nosso lado. Pode puxar, moço!

Mas assim que o motorista dá a partida, arranca o eixo da caminhonete, e o motor vai junto.

- CARALHO! Mas que merda!

Jakson, furioso, começa a estapear o irmão caçula.

- Eu te disse que essa lata de sardinha não agüentava descer quase 20 quilômetros  na banguela, cabeção!
Onde eu tava com a cabeça quando aceitei vir nessa viagem, meu deus? E agora? O que nós vai fazer, pôrra?

O motorista dá marcha ré quando percebe que destruiu a caminhonete.

- Caramba, olha o que eu fiz! Desculpa aí, gente.
- Faz mal, não. - Manolo Lastima- O carro tava todo mastigado e cuspido mesmo.
- De qualquer jeito, eu vou ajudar vocês. Aqui tem 100, 200, 300 reais. Deve servir pra recolocar tudo no lugar em algum posto por aí. Eu levo vocês mais adiante pra conseguir ajuda, concordam?
- Opa, claro que sim!
- E a gente vai deixar nossas coisas aqui, no meio do nada, pra algum malandro aparecer e levar tudo? De jeito nenhum!- Manolo reclama.
- Bom. Se tu faz questão...- Jakson aproveita a oportunidade- Então tu fica aqui tomando conta, e a gente vai buscar o guincho, tá certo?
- Peraí, não foi isso que...
- Simbora! Pisa fundo!!- Jakson grita para o motorista. Ele obedece e os dois deixam Manolo desesperado na estrada. Jakson sai gargalhando.

- BABACA! IDIOTA! TRAÍRA! EU VOU TE VIRAR DO AVESSO QUANDO EU TE PEGAR, SEU CAVALO! VOLTA AQUI! VOLTA!!!
-  Aleluia! Enfim vou poder descansar da cara do retardado do meu irmão! UHÚÚÚÚ!

Jakson está tão feliz que  até tenta beijar o motorista e toma um tapa na orelha.

- Qualé, cara? Tá me estranhando, é?
- Opa, foi mal. É que... Eu varei a madrugada tomando bebida energética...













2 comentários:

  1. Como são muitos personagens e diálogos sinto falta de dizer: falou fulano, replicou beltrano, pois tem hora que me confundo. O Antônio das Mortes lembrou o personagem de Deus e o Diabo na Terra do sol.

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  2. a homenagem ao filme foi intencional

    beijos

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