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sexta-feira, 8 de junho de 2012

BUM!


P
assam-se as horas. Naquele posto de gasolina...

- Aí, Barbie. Onde é que a ruiva foi?- Uli pergunta.
- Adivinha...

Ela aponta com a ponta da caneta para o ventilador de teto balançando como se fosse cair e para os copos e pratos tremendo na prateleira. O jamaicano logo capta a mensagem.

-Pegou mais um freguês desavisado, né? Pobre alma...
- Às vez eu tenho inveja da disposição de minha prima. Tava ali fora, tocando violão, de repente o cara puxou conversa, aí já viu.
- Melhor ela pegar leve dessa vez. O último desavisado que subiu pra uma rapidinha nóis teve que levar pra tomar glicose na veia, lembra?

Lá no quarto, Alexia termina de vestir de novo seu uniforme de frentista na frente de um galalau enorme, encostado na cabeceira da cama, sem camisa e em estado de choque. Sai fumaça do canto dos olhos e da boca dele, escancarada.

- Ô, rapidinha boa! Gadinha pela gentileza, moço. Precisava mesmo dumas estripulias num dia cansativo desse. Se precisar, tem uma pomadinha aí no meu criado. By-ye!

Dá uma piscadela para ele antes de sair do quarto e joga um beijinho. O sujeito desmaia de exaustão e rola para fora da cama.

Lá pelas 4:30 da tarde, os obreiros enfim abrem uma greta no meio-fio para os carros poderem passar pela estrada improvisada. O fiscal abana uma bandeira vermelha e toca um apito para redirecionar o fluxo.

- Tá liberado, gente! Podem passar, mas um por vez!

Alexia, Bárbara e os outros dois lamentam que a entrada do posto de gasolina, socada no meio de um matagal 500 metros distante do asfalto, esteja se esvaziando aos poucos.

- Kurt, meu Kurt! Enfim a estrada voltou a fluir! A fatura foi boa enquanto durou...
- É, bem que podia ter um engarrafamento desse todo dia lá na estrada, pra gente voltar a fazer dinheiro aqui no posto. - Diz Bárbara- Deu pra conseguir uns 1000 só hoje à tarde, graças ao vagabundo e ao monstrengo russo.
- Polonês!- Josué retruca- Monstrengo polonês!

Risos.

- Amanhã de manhã eu volto lá no fornecedor pra esfregar esse dinheiro na cara dele, e jogar na vidraça de mãe 200 conto amarrados num tijolo!
- Não vai fazer uma besteira dessas, prima...
- Psiu, cala a boca aí!- Uli reclama- Vai começar o programa do prefeito!

Na mesma hora, todos os televisores do estado sintonizam um único programa. O narrador anuncia com uma voz característica de animador de auditório.

- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Claque de aplausos.

- O que será que esse doido quer com a gente agora?- Bárbara pergunta.
- No mínimo- Uli faz piada- ele quer lançar o programa espacial modestinense.

Risos.

O prefeito é uma figura pitoresca. Homem alto e robusto, seu rosto lembra Floriano Peixoto, mas com feições germânicas. Usa um terno verde escuro uns dois números abaixo do recomendado, com um pequeno broche da bandeira de Minas Gerais na lapela. Ele fala com uma entonação semelhante à do comediante Groucho Marx, porém com um sotaque meio alemão, meio caipira, arrastando os erres.

- Boa tarde, muito boa tarde, caros conterrâneos modestinenses e da grande Minas Gerais. Fecha a câmera em mim, Olho Mágico! Isso... Acaba de entrar no ar mais um Diário do Chicão para todos vocês! E essas são as principais manchetes da tarde.

Narrador e narradora se revezam anunciando as notícias com um entusiasmo que espanta e irrita ao mesmo tempo.

- Filme mortal! Matou a mulher e levou o cadáver ao cinema!
- Parabéns para ele! Quis assaltar a festa e acabou caindo na farra!
- Tumba do faraó! Mantinha o cadáver do marido enfaixado no guarda-roupa!
- AI! Ladrão tenta explodir cofre e perde o próprio braço!
- Haja sangue! Assassino da Caixa de Pizza faz mais uma vítima!
- Banho de roupa! Doméstica morre afogada em máquina de lavar!
- O programa de hoje tá de arrebentar, não é verdade?- Chicão interrompe a narração- Mas antes de tudo isso...

Nesse momento um carro de som sai pela estrada improvisada, trazendo a voz do prefeito para a fila de carros na estrada. Nenhum dos motoristas presos no engarrafamento entende o que está acontecendo.

- Sei que devo muitas explicações à população pelo engarrafamento na entrada da cidade que durou a tarde toda.
- E deve mesmo, seu demente!
- Shhhh!- Retruca Alexia- Silêncio, Barbie!
- Esse incômodo não foi em vão. Tenho uma notícia inacreditável para o meu amado povo. Há 16 anos, quando fui eleito pela primeira vez como vereador, prometi que todo o asfalto de nossa cidade seria refeito. Pois bem, lhes informo que, depois de dois mandatos no executivo, enfim consegui aprovar o projeto de repavimentação de nossas ruas!

A cidade entra em polvorosa. Todos dançam em casa e soltam rojões.

- Até que enfim, hem?- Alexia agradece- Mas ainda tem alguma coisa errada nessa história, ô se tem...
- Isso explica a algazarra que meus homens fizeram durante todo o dia. Em cada metro quadrado da cidade, foi instalada sob o asfalto uma carga de explosivos plásticos, que irão esmigalhar instantaneamente o que resta dos paralelepípedos para que os construtores possam começar o serviço de pavimentação ainda hoje!

Os engarrafados ficam atônitos com a revelação, assim como a população da cidade, que pára de festejar no mesmo instante.

- Explosivos?
- Eu sabia...
- Como assim? Ele vai explodir a cidade?
- Por favor- Ele continua- peço a todos para se afastarem o máximo possível do asfalto para que o festival de fogos comece. Todos que estiverem na rua têm 1 minuto para entrar em casa!

Soam as sirenes. As pessoas entram correndo, em total pânico, dentro de suas casas, dos armazéns e bares.

- Vai explodir! Vai explodir!- O esquadrão anti-bombas grita pela cidade com os megafones, ao passo que começa a soar uma música maravilhosa pelos auto-falantes.
- Agora deixo vocês com a Abertura 1812 de Tchaikovsky- Diz o prefeito- Até a volta.

Assim que toca o crescendo da gloriosa música, o esquadrão de bombas aciona os detonadores. No mesmo instante, as pequenas bombas pipocam por toda a cidade, rompendo o asfalto como pequenos vulcões e desintegrando cada pedaço de pedra e piche que levantam. As bombas fazem um som estrondoso e levantam uma enorme nuvem de poeira. A terra treme embaixo dos pés de todo mundo na cidade e na estrada. Nos bares, copos e garrafas despencam das prateleiras. Alarmes de carros são acionados, vidraças são estilhaçadas. Mas, como se tivesse sido cronometrado, assim que a música termina, a última carga de explosivos detona. Um minuto de silêncio. Na estrada o assombro é geral. No posto, Bárbara, Alexia, Josué, Uli e os fregueses se esconderam todos embaixo das mesas e do balcão.

-Por Jah! Que merda foi essa, sô?- Uli sai debaixo do balcão todo trêmulo.
- Que estrago!- Alexia se espanta- Olha o tamanho do rachado na parede!
- Tudo que é de vidro e louça na lanchonete despencou!- Bárbara lamenta- E agora, como a gente vai atender os fregueses, sô?
-O Fleet! Que será que houve com meu... Meu carro!- Uli sai correndo em desabalada, passando pelos estilhaços da vidraça da porta no chão. Alexia vai atrás dele. O sorriso imortal de Uli desapareceu ao chegar ao estacionamento. Ele está imóvel, chocado e soluçando ao ver todos os vidros do Fleet estourados. A ruiva vai consolar o amigo.

- Kurt Cobain, que desastre! Olha, se te servir de consolo, as janelas do posto e do hotel estouraram, toda a louça da lanchonete, meu óculos, o de Bárbara também...
- É, tem razão, Lexi. Ainda bem que meus óculos são de plás...

Ele tira o Ray-ban rosa- choque do bolso e se espanta quando o puxa com as lentes quebradas ao meio. Ele começa a choramingar no ombro dela.

- Ameaçado de morte, ameaçado de prisão, o carro estragado... Tudo num único dia! Agora só falta...

Lá na avenida da cidade, vários postes de luz tiveram a base enfraquecida com as explosões e envergaram, deixando a cidade e a estrada sem luz, exatamente na hora em que o terminava de se pôr.

- Maravilha, Jah... Nota dez... Dá pra me deixar sozinho um tempo, Lexi?- Lamenta o caribenho inconsolável, enquanto se debruça sobre a lata do seu carro para chorar.


 *Nota: O personagem partiu da pergunta "O que teria acontecido se o Enéas tivesse sido nosso Presidente?"




Um comentário:

  1. Acontecem tantas coisas. A história tem a agilidade de um videoclipe. É preciso manter a antena na direção certa para não se perder o fio de meada.

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