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sexta-feira, 15 de junho de 2012

EM CHAMAS


O
s cidadãos modestinenses, cobrindo os rostos com panos por causa da poeira, se aglomeram debaixo da sacada da prefeitura, um prédio branco de dois andares cuja construção remete ao Pathernon grego, munidos de facas, lanternas e foices, exigindo satisfações do prefeito.

- Destruiu toda minha loja!- Grita um.
- Tudo que era de vidro e cerâmica em minha casa virou pó!- Grita outra.
- Meu vaso sanitário soltou do chão e a água jogou ele através do telhado!- Reclama mais um.
- Meu carro ficou aos pedaços, e era zero Km! Nem tinha pagado a segunda prestação ainda!- Outra esbraveja. - Fez o marca-passo da minha mãe pifar!

Dentro da prefeitura, sob as luzes de emergência, o prefeito passa um esporro tresloucado em seus subordinados. Ele acaricia sem parar um pingente prateado enrolado na mão.

- QUE DESGRAÇA! QUE CATÁSTROFE! TUDO PARECIA TÃO GLORIOSO EM MEU SONHO! COMO UMA CALAMIDADE DESSAS PÔDE ACONTECER?! ESSE ASFALTAMENTO NOVO ERA O TRUNFO MAIOR DO MEU 2º MANDATO, PARA LIMPAR MINHA BARRA COM O ELEITORADO!

Ele se volta para o líder do esquadrão de bombas.

- VOCÊS ME GARANTIRAM QUE SERIAM EXPLOSÕES SEGURAS E CONTROLADAS, SEM CAUSAR MAIORES DANOS!
- Bom, Sr. Rotscheider.- Responde o líder do esquadrão- Há de se levar em consideração que eram 2 km de cidade recheados com 50 g de C-4 por m2. 150 g de C-4 bastam pra fazer o telhado de uma casa voar! Claro que isso não iria terminar bem!

Um homenzinho barrigudo, calvo e com um “penteado na horizontal” cobrindo a careca fala timidamente.

- Bom, Chico. Desde o começo nós tudo fumo contra sua idéia doida de fazê um espetáculo explodindo o asfalto, mas ocê não quis escutar ninguém... A secretaria de planejamento foi contra, a câmara de vereadores, até sua muié foi contra... Tudo culpa desse seu pingente! Toda vez que acaricia essa coisa, chove fogo do céu!
- E VOCÊ CALA A BOCA, SEU EDY DA MARCENARIA! VOCÊ É SÓ MEU VICE, E VICE NÃO FALA!

Uma coroa enxuta, de óculos com um cabelo loiro frisado e alto, entra no meio dos dois.

- Pelo amor de Deus, ocêis dois! Isso não é hora pra brigar!

Um tijolo atravessa a vidraça da porta dupla da varanda, caindo na cadeira do prefeito.

- Tem toda a razão, Dona Abelzinha. Vá lá embaixo e busque cafezinho e sequilho pra nós discutirmos a situação.
- Pois não, patrãozinho.

Dá um tabefe de leve na poupança dela e lhe cochicha no ouvido.

- Quando a algazarra acabar, me aguarde aqui no gabinete, com as luzes apagadas.

Ela se ruboriza de emoção.

- Sim... Patrãozinho...
- Então, senhores.- Ele retorna aonde havia parado-  Proponho que todos nós nos sentemos e comecemos a pensar num discurso para curar a hidrofobia de nossos conterrâneos...

Um boneco com a foto do prefeito no lugar da cabeça e a palavra MORRA! escrita na barriga atravessa a janela.
-Hum... Antes que acabem arrancando nossas cabeças- Ele complementa, apavorado.
- Bom- seu Edy tenta consolar o prefeito- Se serve de consolo, Francisco, todo mundo não vive dizendo que os político quer que o povo se exploda?
- Ah, volta pra marcenaria, seu Edy!

No posto há velas e lanternas espalhadas por toda parte. Alexia e Uli ajudam os carros a estacionarem embaixo do teto da varanda. Uli ainda ostenta uma cara horrível pelo que aconteceu com seu carro.

- Pôxa, em todos esses anos que eu te conheço, nunca te vi tão arrasado, Uli. Relaxa! A prefeitura vai ter de compensar todo mundo pelo estrago, uai!
- Esqueceu que eu nunca tirei carteira de identidade, gata? Eles só vão indenizar quem puder provar que é residente daqui! E do jeito que meu nome é sujo, se eu for pra frente da prefeitura eles acabam me levando pra jaulinha em Juiz de Fora.
- Também, a culpa é toda sua, né? Quem mandou gostar tanto de ser malandro, sô?
- Agora não, Lexi. Por favor.

O celular dela toca.

- Licencinha. Alô? Faustinho?

Do outro lado da linha, um garotão de corte militar, cercado de mulheres, com uma garrafa na mão.

- Opa, Alexia! Moça, ocê viu só essa zorra que o prefeito fez, sõ?
- Vi, sim...
- A cidade tá num breu danado! Tá tão escuro que a única luz em cima de mim é a do celular! Seguinte. Eu e uma turma aqui tamo organizando uma van pra ir num bundalelê lá em Juiz. Bebida, farra e algunas cositas más. Tá a fim, princesinha? Convida sua prima marrenta também, pra gente tentar amansar a leoa!
- Ih, Fausto, vontade não me falta. Mas com essa história do prefeito o posto ficou abarrotado de gente, uma bagunça só! Acho que a gente vai ficar arrumando as coisa aqui até de madrugada. Mas assim que tiver outra farra, não deixa de falar com a gente, tá?
- Paciência, né? Fica pra próxima, então.
- Beijo. Tchau! Fausto... –Alexia desliga o telefone.
- Óia, ruiva.- Diz Uli- Tava me alembrando aqui...
- Hum?
- Nóis já não tinha escrito uma música muito parecida com esse ocorrido quando eu fazia parte das Margarida Psicótica?
- Kurt, meu Kurt. Ocê tem razão!
- Já imaginou a oportunidade de levar ela pro estúdio depois dessa anarquia do prefeito? Ia ser a oportunidade que ocêis queriam pra voltar a fazer sucesso no estado, sô!
 - Gente, que idéia boa! Assim que a luz voltar, vou lá no quarto procurar a letra.
- Como que ela chamava mesmo, Lexi? São Modesto... São Modesto...
- Acho que era São Modesto em chamas, num era?



2 comentários:

  1. Mantém-se o ritmo acelerado e frenético. Espero não me perder nessa confusão.

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  2. a partir de agora os casos vão se tornar cada vez mais aleatórios

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