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quarta-feira, 20 de junho de 2012

O ESTADISTA (PARTE 1)




A
ssim que põe a cabeça pra fora da sacada da prefeitura usando uma máscara por causa da poeira, Chicão leva um saquinho de urina na testa, mas não perde a compostura.

- Caros amigos modestinenses! Desde a 2ª Grande Guerra, quando meu avô Franz Rotscheider, o Modesto, foi enviado da Alemanha ao Brasil para fundar nossa cidade, nutrimos o sonho de trazer uma vida confortável e decente para cada sertanejo, imigrante e desqualificado que vive em nossa região. Depois de mais de 70 anos de batalha, o progresso chegou aonde antes só havia terra, pequizeiros e árvores secas.
- Destruidor!- Berra um cidadão indignado- Sem coração! Demoliu a cidade toda!
- Acalmem-se, por favor! Eu sei que houve um ligeiro erro em nossos cálculos. Compreendo que meus homens destruíram tudo, mas não foi em vão! Como já é sabido, não se pode fritar o ovo dentro da casca. A cidade está um caos, mas em uma semana, todo nosso amado solo estará coberto pelo melhor, mais limpo, lustroso e caro asfalto que ela jamais teve, e todos os danos serão compensados! Palavra de Chicão!
- Dane-se seu asfalto!- Berra outra- Bandido! Assassino! A explosão fez minha mãe ter um infarto, e minha filha abortou o filho de seis meses!
- Onde eu estava, mesmo?- Ele finge que não ouviu- Ah sim. Cada cidadão receberá o equivalente a todos os danos causados às suas propriedades, bastando vir à prefeitura pela manhã com um comprovante de residência. Com Chicão Rotscheider na prefeitura, nenhum modestinense fica na pior.
- E quanto aos postes tombados na avenida? Até quando a cidade vai ficar sem luz?
- Minhas carnes vão perder com o frigorífico desligado!- Grita um açougueiro.
- E os pacientes do hospital que dependem de máquinas para continuar vivos? Como é que fica?- Grita um médico.
- Eu mandei ter calma, meu povo! Garanto a vocês que, no máximo, até a meia-noite de hoje tanto a pavimentação como a energia elétrica terão sido retomadas. Palavra de Chicão!

Um gaiato grita lá do fundo da multidão.

- Quer dizer que se der meia-noite e um minuto, e nenhum dos dois tiver começado, nós pode voltar pra te encher de bolacha?- Pergunta um gozador. Todos caem na gargalhada, enquanto Chicão tenta esconder a cara de raiva.
- Sim, sim, vocês podem... - Ele responde com sarcasmo- Por ora, cada cidadão terá direito a um pote de 1 kg da minha tradicionalíssima e irresistível compota de cajá-manga Rotscheider como garantia de que tudo retornará a sua normalidade o mais cedo possível! Boa noite, meu povo!

Basta ouvir na compota e todos os cidadãos ficam em polvorosa. Ele joga um beijo para os modestinenses e volta para dentro do gabinete, chamando um segurança de lado.

- Sargento Tijolada? Quero os dentes daquele palhaço em minha mesa pela manhã.
- Afirmativo, prefeito.

Ele se volta para seus secretários, Dona Abelzinha e o vice.

- Eu sei passar mel no povo ou não sei?- Chicão pergunta.
- Sim, Sr. Rotscheider. O senhor sabe...- Seus comandados respondem, meio em tom de deboche.
Todos o abraçam, com sorrisos amarelos.
- Dona Abelzinha? Tente entrar em contato com Dr. Marreta. Tenho que tratar com ele ainda hoje.

Passam-se as horas. Enfim a luz da cidade volta a funcionar. Todos comemoram. Na lanchonete do posto...

Por Kurt!- Alexia se espanta enquanto faz as contas- R$ 2.000,00 num só dia! Fazia quanto tempo que a gente não via tanto dinheiro aqui no posto hem, prima?
- Acho que nem antes de meu pai me trancar aqui ele já tinha visto tanta grana de uma só vez.
- Claro que ocêis não teriam conseguido tanto sem os grandes dons de marketing do Ulysses aqui. - O caribenho se vangloria- Só eu consigo fazer um copinho d’água custar tanto como um galão de 15 litros sem ninguém desconfiar de nada.
- Hahaha, convencido...
Mais tarde, Alexia volta para a lanchonete trazendo sua guitarra, um violão Eagle rosa em degradê e um velho caderno.

- Aqui, gente! Consegui achar a letra da música!
- Maneiraço, ruiva!
- Quem vai cantar? –Pergunta Bárbara- Eu ou o vagabundo?
- Não, cantar cansa muito. Acho que vou ficar só...- Apanha dois paliteiros no balcão- Na percussão.
- Ocê não tem conserto mesmo...- Alexia reclama.

Na estrada, Manolo e Jakson improvisaram um carro de mão com o que sobrou do Pampa e umas varas de bambu amarradas com arame nas laterais e o arrastam vagarosamente pelo acostamento.

- Até que enfim esses postes acenderam!- Diz Jakson.
- A gente tem que dar um jeito de encostar o Pampa em algum posto, pra ver se dá pra encaixar o eixo e o motor de volta no lugar.
- Tu vive num mundo de sonhos mesmo, hem, ô lepra de óculos? Essa coisa não tem mais salvação! O eixo tá tão enferrujado que se alguém bater palmas perto dele, desmancha.
- Não esculacha, Jakson! A caminhonete tá um lixo, mas conseguiu trazer a gente até aqui!
- Tô sabendo...
- Bota mais muque nesse arrasto, mano! Nem parece que é sete anos mais velho que eu...
- Mais muque, mais muque... Só que tu comeu uma melancia inteirinha, e eu, tirando aquela espiga de milho, só tomei cerveja e energético o dia todo!
- Ah, não reclama, Jakson!

2 comentários:

  1. Achei a explosão da cidade mirabolante demais, até mesmo para uma história acelerada feito videoclipe, como esta, que tende a ser mais semelhante a um desenho animado que a vida real. De certo modo é engraçada. Vamos aguardar os acontecimentos.

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  2. Saco de urina é pouco, um grande boçal e negligente
    esse Chicão.
    Meu amigo, tentarei vir mais vezes, te abandonei não.
    Abração.

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