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quinta-feira, 19 de julho de 2012

A GUITARRISTA DO ANDAR DE CIMA



N
a cidade, o alvoroço é total. Dezenas de caçambas de entulho estão sendo carregadas até a tampa com os cacos do asfalto detonado na tarde anterior. A fila de cobrança na frente da prefeitura, apesar de ser apenas 7:30 da manhã, já é tão grande que lota toda a avenida da cidade. Da entrada do conservatório, o diretor e uns zeladores observam a bagunça com ar de lamento.

- Não tinha necessidade nenhuma de fazer essa algazarra. Olha só como aquelas bombas deixaram a entrada do conservatório...
- Pois num é, seu direto?- Responde o zelador- Entre isso e aqueles parolepipo véio, todo rachado e que sortava do chão numa varrida, pode apostá que todo mundo ia prifirí ficá cós parolepipo.
- Nada que o Chicão faz traz benefícios pra nós. Olha só pra essa obra da prefeitura nova! Três anos e ainda nem passou das vigas!
- E pensá que há pouco tempo ainda tinha uma pracinha aí na frente, onde os aluno vinha tocá violão na rodinha de amigo, namorá, jogá peteca...
- Já terminaram de fazer o inventário de tudo que estragou com as bombas?
- A gente tá acabando, seu dotô. Vai levá só mais uns minutim.
- Andem logo. Quanto mais rápido vocês chegarem à fila, menos demorarão pra nos atender.
- Sim, sinhô!

Ele volta pra dentro do conservatório.

No posto, Alexia, ainda de pijama, solta o coque do cabelo, deixando suas madeixas desmazeladas ao vento, liga o cubo de distorção, pluga a guitarra a ele e põe a agulha na faixa 5 do LP Back in the USA, do MC5.

- Vamo detonar, Wayne!

Ela dança e rola na cama enquanto sola em sua Schecter Tempest verde-oliva, tocando nota por nota, acompanhando perfeitamente o som da guitarra de Wayne Kramer na música Looking at you. Ela sonha acordada consigo mesma, tocando com o MC5 para uma multidão de junkies em 1970.
Lá embaixo na lanchonete, os quatro ouvem a sonzeira, espantados.

- Uau! É o Hendrix lá em cima?- Pergunta Jakson. Bárbara ri.

- Bem perto disso... É minha prima Alexia. Nóis mora no hotel do posto. É o seguinte, forasteiros. Com aquele treme-treme ontem lá na cidade, só sobraram um copinho e um prato inteiros na lanchonete.
- Tanto faz! A gente não vê comida há horas!
- Bom, comida, comida mesmo, a daqui já acabou toda. Só sobrou café, essa lata de fiambre, uma bisnaga de sábado passado, uns pacotes de bolacha e, é claro, a compota do prefeito.
- Compota do prefeito?- Pergunta Manolo, curioso.
- Produto típico da região.- Uli torna a acender o cachimbo.
- E aquela peça de mortadela pendurada na parede?
- A coisa tá feia mesmo, hem?- Uli ri- Aquilo ali não é mortadela, é o extintor de incêndio, doidão!
- Se bem que esse trem já tá dependurado aí há tantos anos que dá até pra fatiar!

Risos.

- Viemo pra comer ou conversar? Pode mandar tudo o que tiver aí!- Ordena Manolo, com sua classe habitual.

Os dois afundam a cara na comida como porcos comendo lavagem.

- Oh, Jah!
- Pôxa!- Bárbara se espanta- Fome assassina, né verdade? Querem café?
- Põe um canudinho na garrafa térmica!- Pede Manolo, com a cara toda imunda de fiambre e farelo de pão.
- Vai com calma aí, moleque! Meu café é tão forte que até empurra as espinhas pra fora do rosto!
- Então- Uli tenta puxar conversa- Ocêis vieram lá do Rio, tentando fugir da mãe de vocês? Que história é essa?
- Idéia do cabeção aqui!- Jakson dá um tapa na nuca do irmão, que engasga com o café.
- CACÊTA! Tá querendo me matar sufocado, é?
- Vontade não me falta...
- Mais comida! Mais comida!- Manolo suplica.
- Eu já disse que era só isso que tinha aqui de comer, sô! Bom, tem uma goiabeira atrás do prédio, mas nem eu tenho coragem de comer o que sai dela...
- EU TENHO!

Ele pula a janelinha lateral da lanchonete e sobe na árvore igual ao Homem-Aranha, e enfia umas 20 goiabas verdes de uma só vez na boca.

- Ô, desesperado!- Jakson grita com o irmão caçula pela janela- Vai com calma aí!
- Ele é sempre assim, doidinho?- Bárbara pergunta.
- E tu ainda não conhece ele sóbrio... ÔU! SOLTA ESSA GALINHA, SEU DOENTE!!
- Pô, mas eu tô com fome demais, cara!- Ele já segurava uma galinha viva esquelética pelo bico e esticava a asa contra os dentes.

Um comentário:

  1. Esses dois irmãos vão além da caricatura. São personagens de desenho animado animadíssimo. E não são? Dei risadas com eles. A coisa vai pegar fogo agora. Mas também, depois da explosão, só mesmo um incêndio.

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