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segunda-feira, 30 de julho de 2012

A MÃE DOS MEUS FILHOS!



J
á de volta ao posto, os três desacorrentam o motor e o resto dos pedaços da caminhonete.

- Já volto, galera.- Jakson apanha o celular e vai entrando na lanchonete.
- Ué, pra onde ocê vai, carioca?
- Prometi pras meninas que ligaria pra cada uma delas assim que chegasse a algum lugar.
- ‘Meninas’?
- O harém dele... – Manolo explica- Esse aí é uma peste, sorrisão. Em cada cidade do Rio, ele tem de quatro a cinco parceiras de cama.

Os olhos de Uli arregalam de espanto.

- Oh, Jah! Sério? Queria ter essa sorte.
- E pegar 100 DSTs diferentes?

Bárbara ouve tudo de longe, rindo em silêncio.  

- Tem cartão pra orelhão aí, lindona?

Joga pra ele um cartão e lhe lança uma piscadela.

- Vai por mim, galã.

Ele passa alguns minutos vasculhando na lista do celular TODOS os números de telefone das namoradinhas espalhadas pelo Rio, tentando falar com cada uma.
- Alô? Ana Elisa? Ah, ela não voltou até agora da night? Tá legal, então. Tchau. Próxima... Alô? Andrelina? Bosta, caixa postal... Mais uma... Alô? Angélica? Outra caixa postal... Angelines... Não, essa é muito escandalosa... Ângela Martina... Já sou o terceiro na fila dela... É, parece que vou demorar um tempão aqui...

Bárbara ouve a “presepada alfabética” de Jakson, debochando em silêncio. Alexia desce para a lanchonete e ele se distrai na mesma hora em que ela aparece. Fica de olhos arregalados, hipnotizado pela sua beleza. Deixa o telefone e o celular caírem das mãos. O mundo começa a andar em câmera lenta, quase estroboscópica, diante dos olhos dele. Cataratas de saliva tentam não escapulir de seu queixo caído.

- Manda aí um pão de queijo e um café com leite, prima?
- Na hora. Acordou inspirada, hem? Fazia semanas que ocê não tocava antes de ir trabalhar...
- Ah, Barbie, não sei o que deu em mim hoje...
 - Eu sei. Pela carinha, ocê sonhou de novo com Kurt Cobain, não foi?
- Foi mágico, Barbie... A gente deitou e rolou embaixo de um lençol gigante vermelho-sangue. Transamos por meses sem parar! Deixei Kurt ainda mais magro que ele já era... Aí o tio do berrante me acordou.

Risos.

- E ocê, sonhou com o quê?
- A mesma coisa de sempre, o posto pegando fogo e eu sorrindo...
- Ai, ai... E aí, prima? Gostou do blusão que eu comprei ontem?
- Lindo! Apesar de usado, serviu nocê feito anel no dedo!
- Brigada, Barbie. Mas é melhor a gente sair logo. Dei uma espiada pela janela, e vai ser barra achar carona hoje com esse engarrafamento... Tô muito curiosa pra saber como a cidade ficou depois daquelas bombas.
- Pode ir na frente. Ulysses e aqueles dois que apareceram aqui ontem foram buscar o resto do carro deles na estrada. Eu dou um jeito de ir fazer a cobrança na prefeitura mais tarde.
- Então tá. Tchau!
- Tchau, Lex!

Ela sai. Jakson continua paralisado. Bárbara vai brincar com ele.

- Ô... Jakson?- Estala o dedo no ouvido dele- Quer uma chave de fenda pra parafusar o queixo de volta na cabeça, sô?
- Sua... Prima?!
- Ârrã...
- Deus existe! Olha. Toma aqui meu celular, e não me devolve nem se eu te implorar!
- Devagar com o andor, garanhão!

Ele se prepara pra correr atrás de Alexia, mas Bárbara dá um pulo e lhe aplica uma gravata, fazendo-o cair de bruços no chão.

- Sinto o cheiro de cafajeste há quilômetros! Eu ouvi tudo sobre suas “amiguinhas” lá no Rio. Se ocê pensar em magoar minha prima, eu juro que nunca mais vai crescer mato no teu chão! Compreendido?

Ele nem consegue falar.

Alexia caminha pelo acostamento da estrada. Uli e Manolo estão na oficina. De máscaras de solda e maçaricos em punho, com o Pampa descarregado e erguido com o macaco hidráulico, estão a postos para começar a trabalhar.
                          
- Tem certeza disso, sorrisão?
- Sem pró, maluquinho! Já usei muito arame derretido pra remendar furo de bala do Fleet. Velho truque jamaicano!
- Tá bom... Só que isso aqui não é furo de bala em lataria, é um monobloco de ferro fundido todo arregaçado! Se não der certo, eu posso te fritar com o maçarico?
- Nem me fale em fritar, maluquinho... Quase puseram fogo em mim ontem...
- Bom, vamo deixar de conversa e ligar o fogo!

Abaixam as máscaras, ligam os maçaricos e começam a derreter pedaços de arame e escorrer nas rachaduras do eixo dianteiro e do motor, como se passassem cola na madeira pra pregar as duas partes. Jakson entra na oficina ainda nas nuvens. Encosta o ombro na quina da porta e fica observando Alexia se afastando na estrada. Uli vai curtir com a cara dele.

- Acho que nem precisa perguntar o que te aconteceu, né, ô carioca? Acontece com todo homem que cruza olhares com Alexia pela primeira vez. Olhar pra essa é que nem olhar pro sol.
- Assino embaixo, jamaicano!
- Cruza olhares com quem?
- Não é da tua conta, cabeção! Acho que acabei de encontrar o pitél da minha vida...
- Pode esquecer, novato. A última coisa que ela quer ter é um relacionamento sério.
- Âhn, é?! Me dá uma semana vivendo na cidade e eu juro que ela vai ser minha!
- Mas não é ocê que tem mais de cem lá no Rio?
- Aquilo não é nada, jamaicano...

Um comentário:

  1. Cafajeste sedutor que apenas conquista e descarta. Bem lembrada a alta probabilidade de uma DST, embora possa parecer uma fala moralista.

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