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segunda-feira, 23 de julho de 2012

UM LUGAR ONDE NINGUÉM SE ATREVE A IR




T
rancado em seu gabinete, o prefeito, de roupão à La Hugh Hefner, aparentando não ter dormido a noite toda, assiste na TV o filme Xanadu, com Olivia Newton John, sentado em sua cadeira com seu inseparável pingente enrolado na mão. Do lado de fora...

- Seu Edyleumar!
- Dia, Abelzinha. E então? Como ficou o Chico?
- Queria poder responder... Depois que o advogado e os secretários foram embora, nem quis saber de mim. Se trancou aqui no gabinete e passou a noite em claro, assistindo aquele filme dele. Passei a noite na prefeitura, o ouvi repetir o filme cinco vezes seguidas!
- Tenso...

Abelzinha bate na porta. Nenhuma reação. Bate com mais força, quase socando. Nada. Ela tira a chave mestra e a abre, encontrando o prefeito escorregando pela beirada da cadeira, com olhos e boca abertos, e saliva com comprimidos escorrendo pelo canto da boca.

- Ah, minha Nossa Senhora!

A secretária e o vice-prefeito vão lhe acudir.

- Chico!- Seu Edy dá tapinhas no rosto dele- Levanta aí, Chico!- Berra nos ouvidos dele-CHICÃÃÃÃO!?

Nos rincões mais profundos de sua mente, ele se imagina dançando I’m Alive, cercado pelas dançarinas mágicas do filme. A secretária repara na TV ligada, com a tela de seleção do DVD aberta. E a desliga. O sonho se desmantela em segundos quando o prefeito abre os olhos e se vê em seu gabinete. Levanta num salto e abraça a televisão apaixonadamente.

- OLIVIA! OLIVIA, NÃO ME ABANDONE! OLIVIA, NÃO ME DEIXE! EU TE AMO, OLIVIA!!
- Tá vendo?- Mostra Abelzinha, aliviada, ao vice-prefeito.
- Ocê e esse filme, né, Chico?- Reclama seu Edy- E a gente aqui quase tendo um infarto de preocupação contigo!
- Todos esses anos trabalhando comigo, e ainda não se acostumaram com meus surtos?
- Melhor esquecer essa discussão. - Dona Abelzinha interpela- A multidão já começou a aparecer lá fora da prefeitura. Parece até que a cidade toda veio te dar uma surra.
- Parece, não. Vieram.- Ironiza Edy.

Chicão olha para o relógio na parede.

- Peste! Falta só meia hora pra abrir a prefeitura! Rápido, Dona Abelzinha. Vá ao almoxarifado, busque meu melhor terno e traga também minhas pílulas e meu café!
- Âhn... Mais pílulas, patrão? O senhor ainda tem essas aí, coladas na bochecha...
- Calada, Abel!- Chicão se exalta, desamarrando seu robe.

Uli dirige o Fleet arrastando uma caçambinha com muita dificuldade, já que os vidros do carro trincaram todos com o treme-treme da noite anterior. Toca Reggae na estrada, da Tribo de Jah, no rádio do carro.

- Já tem engarrafamento de novo?- Ulysses lastima- Que sacanagem!
- Pelo menos a índia lá não vai reclamar de falta de freguês.- Diz Jakson.
- É, mas de falta de mercadoria...
- Quem teve idéia de construir aquele posto socado no meio do mato?- Pergunta Manolo.
- É uma longa história, parceiros... Antes de asfaltarem a estrada pra cidade há uns 20 anos, o único jeito de chegar lá era entrando naquela estradinha de chão. O pai dela, por causa do posto de gasolina, foi o caboclo mais rico e influente daqui por muito tempo. Aí chegou o prefeito Chicão nos anos 90, asfaltou uma linha reta de Juiz de Fora até a cidade e o véio índio ficou em decadência, porque ninguém mais precisava passar pela estradinha de chão. Mas como ele é muito teimoso e sonhador, nunca quis fechar o posto, esperando que lá volte a dar lucro um dia. E prendeu Bárbara lá faz dez anos no lugar dele.
- Sóóóóóó...- Responde Manolo, com ar entediado.

Após algum tempo dirigindo, conseguem encontrar os pedaços do Pampa.

- Tem certeza?- Uli se espanta- Aquele pedaço de lata ali? Oh, Jah...
- Tua zabumba velha também não rende muita homenagem, sorrisão!- provoca Manolo.
- ‘Zabumba’?
- Só tem o couro e a lata.
- Dêxa de conversa, lepra de óculos!- Jakson corta a discussão- Vamo colocar essa tralha na caçamba e voltar pro posto.

Descem do carro carregando cordas, correntes e cadeados e põem-se a colocar a sucata na caçamba.

- De que ano é seu glorioso, Rei Uli?- pergunta Jakson.
- Chevrolet Fleetline 1950, amizade. Tesouro de família com 250 cavalos. Parece uma baleia, mas corta a pista como um peixe-espada.
- Tem certeza que ele güenta puxar tudo?- Pergunta Manolo, desconfiado.
- Sem pró, maluquinho!

Voltam pro carro. Uli liga o motor e acelera, e o gancho da caçamba é arrancado do carro igual a um dente, por causa do peso dos pedaços da caminhonete. Decepcionado, ele dá várias vezes com a testa na buzina, e os irmãos racham de tanto rir. Ele desce do carro e começa a dar coices na carrocinha e no pára-choque do carro.

- Mas que...! Desgrama! Merda! Desgraça!

Os dois descem pra ajudar Ulysses a se acalmar.

- Fica calmo, rapá!- Jakson tenta contê-lo- Acontece com as melhores famílias!
- Primeiro as janelas, depois o pára-choque, sô!- Olha para o céu- Qual é a próxima peça que ocê vai me pregar, Jah?
- Eu te disse, sorrisão!- Diz Manolo- Quando que um carro de quase 80 anos ia conseguir pagar de reboque?
- Fica quieto, cabeção!- Jakson dá um tapa na nuca dele.
- Ehr... Posso dar umas bolacha nele também?
- Claro, teje à vontade!

Mais tarde, com o gancho amarrado ao pára-choque com um fio e de volta à estrada...

- Então, tu é lá da Jamaica, truta?! Animal!
- Yup. Lá do gueto de Saint Ann, terra do Bob.
- Caraca... E como tu veio parar logo aqui?
- Eu era o filho mais velho de uma família de 9 irmãos. Quando meu pai morreu, mamãe me colocou no Fleet e disse que só me deixava entrar de novo em casa se voltasse com o carro cheio de grana. Ele é a única posse de valor da família, e se a gente tivesse vendido, já taria na miséria de novo.
- Que história...- Manolo se impressiona- Faz quantos anos isso?
- Da última vez que eu contei, 23 anos. Depois que eu saí, ela já teve mais sete filhos. Viajei de clandestino em muita balsa até chegar ao Brasil.
- O Indiana Jones jamaicano...

Alexia se arruma para sair, não sem antes dar uma boa espiada na libélula gigante tatuada nas costas. Suspira de decepção com a burrice que fez, se veste com seu blusão semi-novo, calças jeans desbotadas bem justas, tênis brancos e sua bandana de estimação.

- Cabelo, cabelinho, te amo tanto, cabelinho!- Diz a si mesma, acariciando e desmazelando suas madeixas flamejantes. Passa o batom e joga um beijinho para si mesma no espelho do banheiro.

-Muito homem procê hoje, Alexia!- Diz ela.



Um comentário:

  1. Esses personagens não habituais parecem saídos da sua cabeça. E não foram?

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