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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

CHORANDO AS PITANGAS



- I
sso é inacreditável, escocês!- Alexia comenta no bar, tomando um cafezinho- Na cidade toda, janela estourada, parede trincada, carro desmanchado, casa caindo... Mas aqui não quebrou um único copo! Por Kurt!
- Ah, não tem nada que meu venerado São Patrício não consiga segurar... Assim que tudo começou a balançar eu agarrei meu ídolo de São Patrício aqui, fui pro porão, me benzi do fundo da minha alma e quando as explosões pararam, eu saí e o bar tava inteirinho!
- Pôxa... Talvez devessem mudar o nome da cidade pra São Patrício!

Risos. Mas eles escutam um choro vindo de fora. Alexia vai ver. É Tassiana e mais duas amigas.

- Oi, vermelha...
- Tassí? Que foi que aconteceu, menina?
- Tenta adivinhar.

Mais tarde...

- Que desastre, Tassí! – Alexia se espanta- A loja todinha?
- Pois é, vermelha. Quando cheguei pra trabalhar hoje o teto tinha desmoronado. Não sobrou nada em pé! Não sei o que eu vou fazer, meninas! A loja era o xodó de minha mãe, eu não tenho mais onde traba...

Volta a chorar.

- Podia ter sido muito pior, amiga! Pelo menos ocê já tinha encerrado o expediente antes de tudo desabar, uai. Podia ter morrido esmagada dentro do bazar!
- Lex tá certa, Tassiana.- Consola uma das amigas.
- Sabe o que me serve de consolo, cumádi?
- Hum?
- Lembra que o cavalo do Feliciano me deu os gêmeos quando tirô minha virgindade?
- Sei...
- Pois ontem, um tempinho antes da cidade explodir, recebi um e-mail de uma cumádi em Berlândia, falando que ele desvirginou uma por lá e...

Ela começa a rir, mas sem parar de lacrimejar.

- E ela engravidou de gêmeos também na 1ª bimbada!

Alexia chega a engasgar com o absurdo da história.

- Ah, não... Sério isso, Tassí? HAHAHAHAHAHAHAHAHA!!
- Pelo menos foi o que me disseram.
- O pai dele deve tá muito orgulhoso agora... Bom, não posso nem dizer que tô melhor que ocê hoje, cumádi. As aulas foram suspensas por causa da destruição, e eu tenho de ficar o resto do dia de bobeira aqui na cidade, sem ter o que fazer... Saco...

Vira mais uma dose.

- Vai devagar aí, Alexia.- Alerta o escocês- Beber desse jeito logo de manhã...
- E do jeito que ocê fica flutuante depois de umas a mais...- Completa Tassiana.
- E ocêis têm alguma idéia melhor, por acaso?

Do lado de fora do bar, alguns adolescentes observam Alexia enchendo a cara.

- Coitada da professora...
- Quando professora Moura fica assim, é porque a coisa tá feia, mesmo.
- Até ver alguém torcendo o pescoço de um filhotinho é menos triste...

Bárbara e os outros três vão à loja de material de construção.

-Posso dar um tapa no cachimbo, Ulysses?- Pede Manolo.
- Manda ver.

Basta dar uma baforadinha de leve para ele quase tossir o cérebro pra fora.

- Afff! Pela luva verde de Jello Biafra! Que troço é esse aqui, véio?
- Tradição familiar. Ocê dá ganja misturada com capim pros carneiros e depois torra o esterco. Não dá enjôo e a onda dura o dia quase todo, sô...
- Cacêta! Mais forte que cerveja preta com ovo cru!
- Tu e tua mania de ser fanfarrão, né, maninho?- Jakson provoca lá do balcão da loja.- Nem fumante tu é e fica inventando...
- Forasteiro é outra coisa...- Brinca Uli, enquanto abre uma cabaça que trazia pendurada no elástico da bermuda.
- Xeu tentar lavar essa coisa da boca?- Manolo pede a cabaça.
- Vai fundo...

Basta um golinho do líquido pra ele praticamente morrer sufocado. O produto quase sai de seus dutos lacrimais de tão forte.

- Tá sem sorte, hein, cumpádi?
- Que... Que merda é essa, doente? Parece querosene!
- Rum caseiro. Eu mesmo destilo no motor do meu carro. Hihihihihi...

O jamaicano toma um golão generoso. Lá no balcão...

- Como assim?- Bárbara se impressiona- Não sobrou um único tijolo ou pré-moldado inteiro?!
- Foi isso, princesa.- Responde o vendedor- Com esse chacoalhão que o prefeito deu na cidade, ficou tudo aos pedaços. Acho que até os canos de metal entortaram.
- Bom, então eu acho que isso nos livra do compromisso com...

Assim que Jakson dá as costas pra ir embora, Bárbara lhe passa outra gravata.

- Mas nem pensar! Enquanto ocêis não tamparem aquele rombo no meu teto, eu faço questão que os dois passem uma temporada muito, muito longa na cidade, ou melhor, no nosso hotel! Ninguém tenta passar a perna em Bárbara Yracema Moura Bernardes sem levar seu troco!
- E ela não tá exagerando não, viu?- Uli mostra uma marca de mordida no ombro. Manolo dá um tapinha nas costas do irmão.

- É, véio... Parece que a gente encontrou uma casa nova.
- E o concreto, moço?- Questiona Bárbara- Vai dizer que os sacos de concreto também quebraram!
- Não, não. Com o concreto não aconteceu nada ainda.
- Então, o jeito vai ser improvisar. Põe um saco na conta do vagabundo aqui.
- Peraí!- Uli engasga com a fumaça do cachimbo- Na minha, por quê?
- Porque sim. Vamo logo!

Ele passa o dedo pela gola da camiseta, tentando disfarçar um nervosismo indisfarçável.

- E assim que a gente consertar o teto da lindona aqui... –Jakson intervém- Tu é quem vai pagar o conserto do Pampa, tá ligado?
- É, Ulysses.- O vendedor curte com a cara do caribenho- Parece que ocê dançou de novo...
- Oh, Jah...

Um comentário:

  1. O lema da turma é o linguajar chulo e comportamento nada recomendável. Que pelo menos se salvem das explosões do prefeito.

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