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sábado, 8 de setembro de 2012

A RÁDIO QUE TOCA O QUE TE CHOCA (PARTE 3)


A
 sala de luz esverdeada com paredes mofadas está simplesmente uma zona. Não tem uma única coisa em pé nas prateleiras ou mesas, tudo está entulhado num enorme monte no meio da sala.
- Tião não tava falando da boca pra fora quando falou da bagunça...

- Isso é uma emissora de rádio?- Questiona Manolo- Mais parece um fim de guerra!
- Tião? Cadê ocê, criatura? TIÃÃÃO!!

Ele percebe alguma coisa tentando sair do monte de lixo. Um braço muito gordo, com um bracelete de espetos, sai de lá.

- Alguém me tira daqui!!- Ouve-se um grunhido gutural vindo da montanha.
- Jah, dê-me forças... Tira o cara dali, Jô?

Josué puxa o ser mais monstruoso do universo de dentro do entulho. Ninguém é capaz de disfarçar o nojo causado pela sua presença. Um sujeito baixinho e gordão todo encardido com olheiras enormes. Apesar de careca, tem o pouco cabelo que lhe resta pintado de azul e “arrumado” como o do Keith Flint, da banda Prodigy. Não tem um único orifício no rosto dele sem um piercing. Usa um colete feito com um carpete velho, uma camiseta, minúscula para o tamanho da pança dele, toda puída, bermudão e está descalço.

- Valeu pela força, brucutu. Opa! Carne fresca!- Ele se apresenta- Saudações, gente. Sou o primeiro e único Tião Chorume!
- Sorte que é o único...- Jakson comenta pelos cotovelos, provocando risos no irmão caçula.

Eles começam a arrumar a bagunça na emissora de rádio. Uli, Tião e Josué conversam na sala ao lado.

- Então, chefe. Da hora que eu te liguei até uma horinha, fiquei tentando sair daqui, mas tropecei naquele fio que passa na frente da porta, caí de cabeça dentro do entulho e apaguei. Não fosse ocêis ter chegado, o lixo tinha me matado afogado!
- Conta outra...- Uli acende o cachimbo- Com esse bafo horroroso de cerveja e sopa de cebola, já saquei em que fio que ocê tropicou. Custava o quê falar que só desmaiou de bebum?
- Fica na sua, chefinho.- Ele arrota e solta um pum.
- Indecoroso. Sua mão não te deu educação?- Uli assoa o nariz na barra da camisa- Duvido que todo esse lixo tenha despencado no chão por causa do balancê de ontem. As máquina ter caído eu até acredito, mas esse entulho?
- Tamém, quando foi a última vez que ocê entrou aqui? No natal do ano passado?
- Melhor nem tentar lembrar... Como tá a situação dos apareio, Jô?
- Adonai que me perdoe, Ulysses, mas parece até que o Muro das Lamentações desmoronou... Escuta só.

 Ele apanha um transmissor e o chacoalha nos ouvidos do amigo. A máquina parece um cofrinho por dentro, de tantas peças soltas balançando. Uli abana a cabeça, incrédulo.

- Desse jeito, talvez amanhã, pra ser feliz, dê pra pegar carona nalguma onda AM. Mas não dou nenhuma garantia.

Manolo e Jakson tentam varrer a lixarada da emissora.

- Logo eu que amo fazer faxina...- Manolo reclama.- Essa tal de Aterro FM faz justiça ao próprio nome.
- Mas ainda é melhor que encarar os sermões de mamãe, concorda?- Retruca o irmão mais velho.
- Nem me lembre dela, Jakson. Se a gente conhece a véia, agora ela deve ter feito todo mundo no prédio de refém, pra tentar descobrir onde a gente foi parar...

De fato, é exatamente isso que a Srª. Ventania está fazendo agora. Com a entrada do prédio fechada a cadeado e acorrentada, ela mantém todos os moradores, apavorados, amarrados no hall de entrada e os sabatina como um juiz.

- Um de vocês há de saber a resposta, e enquanto ela não vier, não deixo ninguém sair daqui... ONDE ESTÃO MEUS FILHOS?!?
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Aí, galera. A partir de agora, pra dar uma acelerada na narrativa, vou voltar a postar capítulos três vezes por semana, tendo ilustrações ou não.

Um comentário:

  1. Essa parte está engraçada, e como sempre inverossímil, já que os seus personagens são saídos de uma revista em quadrinhos e não da vida real.
    Reparo: mãe no lugar de mão, e três, ao final.
    Bom capítulo.

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