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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PAZ E AMOR, BICHO!(PARTE 1)



N
a Aterro FM, Manolo e Jakson organizam o estúdio e ajudam Josué a tentar consertar o maquinário.

- Eu conheci o Tião há uns doze anos em Juiz de Fora. - Conta Ulysses- Ele tava ali, bêbado, dormindo na sarjeta, e eu acabei atropelando a perna dele sem querer. Passei a financiar a rádio pirata dele desde então, pra aliviar a culpa. Acreditem se quiserem, mas ele era esquelético que nem o Manolo quando o conheci.
- Cacête! Sério isso?  
- Tu deprimiu o cara pra valer, hem?- Diz Jakson.
- Se tão achando isso triste, não sabem de nada ainda... Quer saber como faz pra deixar o gordão fulo da vida?

Chama os dois de lado e mostra um Xérox da carteira de identidade de Tião.

- SEBASTIÃO COLIMÉRIO MATIAS??- Os irmãos ficam atordoados.
- SHHHHHHH!- O caribenho tenta contê-los- Fala baixo, ô! Ele morre de ódio do Colimério. Toda vez que eu ameaço chamar ele assim, ele tenta me bater e rola no chão.

Risos.

- Ocêis vieram aqui pra sujar a mão de graxa ou curtir com a minha cara?- Tião, se arrastando para o estúdio sobre uma cadeira de rodinhas com um rodo, os provoca.- Vamo trabalhar logo, pôrra! A gente ainda tem até meia-noite pra tentar consertar as parada!
- Tá bom, já vamo...- Diz Uli, limpando as cinzas do cachimbo- Colimério!
- DE QUÊ OCÊ ME CHAMOU, ULYSSES?!?

Ele perde o equilíbrio e acaba capotando de barriga no chão com cadeira e tudo. Todo mundo desaba de rir.

- Seu viado! Assim que eu conseguir levantar, vou te enforcar nos seus dreads e te meter seu cachimbo no...

Tarde da noite eles voltam ao posto de gasolina, mais precisamente para o hotel.

- Valeu mesmo por deixar a gente ficar aqui, indiazinha.- Agradece Jakson, arrastando uma pilha de caixas de papelão amarradas ao skate escada acima.
- Eu não falei nada de deixar ocêis ficar aqui de graça, super-galã.- Retruca Bárbara- A casa é docêis, mas só até remendarem o teto da minha oficina, depois disso é 30 por dia, tá entendendo?
- Perfeitamente! Agora, quando é que tua prima ruiva vai...

Ela o agarra forte pelo queixo como se amassasse uma latinha de refrigerante e o encara nos olhos de maneira ameaçadora.

- O que dizia, Mister Mais de Cem Vagabundas?
- Uuuuuhhh.. Nnnnnnhada?
- Melhor assim.- O larga sobre as caixas.- Agora deixa eu ver se a fechadura ainda abre...

Ela enfia uma caneta no buraco da fechadura e tenta forçar a trava com ela. Com alguma habilidade a porta se abre e ela acende a luz, revelando um cenário de filme de terror. Teias de aranha e lixo por toda parte, o espelho quebrado, tacos soltos no piso, uma infiltração na parede, o colchão da cama de casal rasgado e uma antiga televisão Telefunken de madeira toda roída de cupins sobre uma geladeirinha de frigobar enferrujada até a alma.

- Reparem na bagunça não, forasteiros, mas é que a última vez que hospedou alguém aqui faz mais de ano. Fiquei com preguiça de limpar...
- Tô vendo...- Manolo abre espaço para arrastar seu baú para dentro do quarto- A gente já ficou a tarde toda limpando e consertando aquela rádia do Tião, limpar mais um quartinho de hotel nem vai fazer suar.
- Caraaaaca, maluco...- Jakson se espanta com o estado do quarto- O sujeito que ficou aqui por último era mais porco que tu, Manolo!
- Na verdade era um casal em lua-de-mel...- Diz Ulysses.
- QUÊ?
- Brincadeirinha, gente!
- Sei, sei... Essa TV pelo menos é a cores?
- Aí já tão querendo mordomia demais, né? Internet discada só chegou em São Modesto ano passado!
- A gente vai dormir que nem reis, né não, Jakson?
- Ô... Mas desde que tenha uma tomada pra gente ligar o som e as guitas, o resto é o de menos.
-... Guitas?- Bárbara se preocupa.

Os irmãos passam o resto da noite tentando ajeitar decentemente o quarto e batendo cabeça ao som de heavy metal no último furo... E incomodando a gerente do posto no andar de baixo.

- Nossa senhora, vagabundo!- Ela comenta- Dá pra acreditar que tem gente que ouve esse tipo de música numa boa? Parece que tão torcendo o pescoço do capeta!
- Ocê mora com Alexia, ela é fã de Nirvana...
- Ah, mas é diferente, né? Pelo menos dá pra entender mais ou menos o que o Cobain fala.
- É, bem mais ou menos... E ela vai voltar pra casa só de manhãzinha?
- Vai saber. Ela disse que ia caçar algum parceiro de cama lá em Juiz, não deu notícia até agora...
- Falando em parceiro de cama, Barbie... que ocê diz da gente lembrar os bons tempo ali no lavabo?
- Éééééé, bebé? Os bons tempos que ocê me encachaçou, traiu minha prima comigo e ela ficou quase um ano sem pisar na cidade com raiva da gente? Dispenso.
- Ainda lembra disso? 


Um comentário:

  1. Nossa, que nível de diálogos! Esses personagens são da pesada, mas tenho de admitir que são engraçados.

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