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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

UMA TARDE NA VIDA DO PREFEITO(PARTE 2)


D
na. Abelzinha invade o gabinete algum tempo depois, aflita.

- Credo em cruz, Abelzinha! Que vontade de entrar é essa, mulher?
- Mil perdões, Patrão. É que tá acontecendo uma coisa lá fora que o senhor precisa ver pra acreditar!
- Tá bem, tá bem... Só não entendo o que pode ter acontecido pra deixar o dia pior...

Ele sai para a varanda e seu queixo desaba: Há uma enorme manifestação no meio da fila na avenida. Um grupo de mais de 200 manifestantes, todos usando camisetas e bonés azuis, abre caminho na multidão até ficar de frente para a varanda da prefeitura, tocando catracas, apitos, vuvuzelas e sprays de buzina, carregando faixas de protesto.

CHICÃO DEVE MORRER!
SÃO MODESTO PERTENCE AOS MODESTINENSES!
DEVOLVA NOSSA CIDADE!
LIBERDADE E DEMOCRACIA!
O LOUCO DEVE SAIR!

Liderando o grupo, um saltitante e enérgico senhor alto e magro, sua careca lustrosa e suarenta refletindo a luz do sol e barba grisalha quase alcançando o peito, vestido com uma roupa florida havaiana bem cafona, com um megafone numa mão e uma vassoura na outra, discursa para os rebeldes.

- SAÚDE, EDUCAÇÃO! E CHICO NA PRISÃO! NA CADEIRA SÓ EDUARDO, ESSE É HOMEM DE VISÃO!
- Pára tudo! Pára tudo!- O barbudo ordena que cessem os cânticos- Eu, Eduardo Vaz, líder da Frente Libertária Modestinense, creio falar em nome de todos nós. Não podemos mais aceitar esses caprichos delirantes de nosso prefeito, que não quer saber de nada a não ser espetáculo e obras faraônicas erguidas com o dinheiro do povo! Temos de varrer definitivamente Chico e toda sua corja pra fora da cidade, antes que ele transforme em areia o que restou em pé de nossos humildes casebres!

A população aplaude em massa. Logo, Seu Edy da Marcenaria e Dona Abelzinha, mais meia dúzia de seguranças armados comandados pelo Sargento Tijolada vão à varanda, para dar apoio ao prefeito. Os olhos de Chicão se encontram com os dardejantes e sanguinolentos olhos de Eduardo.

- Tinha que ser coisa sua, não é, Eduardo?
- Hoje e sempre, Chico.
- Qual é a história dessa vez, Seu Eduardo Vassourada? Acabou o dinheiro da tua televisão pirata, e resolveu vir aqui me apoquentar pessoalmente?
- VAZ! VAZ! EU JÁ DISSE MILHÕES DE VEZES QUE MEU SOBRENOME É VAZ!- Ele berra ao megafone, fazendo todo mundo tapar os ouvidos.
- Tá certo... Mas fale logo! Qual é a sua hoje?
- A ‘minha’ é a mesma de qualquer cidadão modestinense, Chico. Queremos sua renúncia imediata e a dissolução de seu império de 16 anos, para que essa gente humilde que você adora torturar possa voltar a respirar aliviada! Nós não precisamos de suas indenizações, nem de seu precioso asfalto ou de uma nova prefeitura enorme no meio da cidade, precisamos ser tratados com humanidade, compreensão e justiça! Vamo berrar, meu povo!
- SAÚDE, EDUCAÇÃO! E CHICO NA PRISÃO! NA CADEIRA SÓ EDUARDO, ESSE É HOMEM DE VISÃO! SAÚDE, EDUCAÇÃO! E CHICO NA PRISÃO! NA CADEIRA SÓ EDUARDO, ESSE É HOMEM DE VISÃO! SAÚDE, EDUCAÇÃO! E CHICO NA PRISÃO! NA CADEIRA SÓ EDUARDO, ESSE É HOMEM DE VISÃO!

Toda a população começa a gritar o slogan junto com os manifestantes. O prefeito faz o sinal com o indicador contra o pescoço para os seguranças começarem a agir. Todos sacam seus três-oitões e atiram para o alto, pondo os manifestantes e mais um monte de gente pra correr. Só ficam o prefeito e sua comitiva na varanda e Eduardo, sólido como uma rocha, olhando para ele.

- Escuta aqui, Eduardo. - O prefeito escora o braço na beira da varanda, aparentando cansaço, falando mais baixo- Já não engulo essa sua imagem de grande libertador há muito tempo. Caramba, já faz três anos que eu te destituí de sua função de vice-prefeito. Essa dor-de-cotovelo não vai passar nunca?

Eduardo fica sem palavras, entortando o megafone com as mãos e trincando os dentes.

- Olha- Tijolada intervém- Ainda bem que seus companheirinhos saíram correndo, senão eles iam ver como o prefeito te deixou com cara de bosta no sereno, Vassourada!

Todos gargalham.

- Nunca irá ficar livre de mim, Chico. Jamais. Enquanto eu não fizer minha justiça... Quer dizer, a justiça do povo, eu serei aquela sarna em seus colhões que não vai sarar nem com castração! Me aguarde.

Um dos seguranças joga um aviãozinho de papel, que espeta na enorme barba de Eduardo. Ele dá as costas pra prefeitura e sai andando com o rabo entre as pernas, humilhado e cabisbaixo. O prefeito e sua comissão voltam para o hall da prefeitura.

- Precisava achincalhar o Eduardo desse jeito, patrão?- Abelzinha repreende Chicão- Deu até pena...
- Dona Abelzinha, quem quer espantar galinha não joga milho. A propósito, se ele aparecer de novo, nem me chame mais, compreendido?
- Sim, patrão.
- Seguindo com os ‘a propósitos’, sobre aquela ‘umazinha’ em nosso gabinete particular que fiquei lhe devendo... Ainda tá a fim?
- Me chama às oito da noite que eu te respondo...- Ela se aproxima do ouvido dele e sussurra de maneira sensual- Sr. Prefeito!




Um comentário:

  1. Todos os personagens são exagerados, figuras extremas, porém caricaturas engraçadas. Saída honrosa de Eduardo Vaz, com a história da sarna.

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