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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

UMA TARDE NA VIDA DO PREFEITO(PARTE 3)


J
 á são quase cinco da tarde, e o ambiente nos bastidores do programa Diário de Chicão é apocalíptico. A assistente ajuda a pendurar o microfone na cabeça dele e escovar a poeira de seu Armani verde- bandeira.

- O senhor tem certeza que quer voltar ao ar depois da confusão de ontem, Francisco?- Pergunta a produtora do programa, uma loira alta e magra, muito parecida com Vera Fischer- Isso não vai dar ibope nenhum! O povo quer mais é te ver pelas costas!
- Exatamente por isso nós temos de dar a eles alguma distração, Meibilene! Tentar tirar o foco do Estado de nossas trapalhadas pode fazer toda a diferença nesse momento. Ô, mocinha? Me dá meu gargarejo aí?
- Bom, o senhor quem sabe...

O prefeito termina de preparar sua garganta enquanto a assistente termina de ajeitar sua maquiagem à caminho da bancada do programa. O diretor dá o sinal para começar a gravação. O narrador inicia o programa.

- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Claque de aplausos. Chicão saúda a audiência de braços abertos, com um sorriso mais falso que lesbianismo de filme pornô. Passam-se as horas...

- Para encerrar o programa dessa noite...- Ele continua, com um semblante intimidador- Vocês não vão acreditar no que aconteceu noite passada lá na capital! Um massacre, uma atrocidade da pior espécie...
- Pior que suas bombas?- Um gozador grita lá do backstage, provocando gargalhadas em toda a cidade. Chicão, irritado, aponta para trás e faz um sinal com o indicador contra o pescoço, mandando que a produção se livre do engraçadinho.
- Sim, muito pior, muito pior... Com a palavra, nosso repórter mais corajoso, Fabinho do Sufoco. Vai lá, Fábio!

Entra o VT da reportagem. O repórter, um cara sem a menor aparência de repórter, com seus 30 e poucos anos, enfiado numa camisa social listrada toda amarrotada com uma gravata estampada com patinhos voando, está diante de uma imensa parede tombada, com um carro virado de ponta-cabeça dentro do estabelecimento e o chão todo lavado com sangue.

- Tudo aconteceu ontem, por volta das dez da noite, Francisco. Um sujeito, completamente transtornado, desceu a Afonso Pena num Ford Galaxie desgovernado, bateu em dez carros estacionados, atropelou seis pedestres e invadiu aquela loja ali, olha lá! Pensam que acabou? Quando a polícia, os bombeiros e a ambulância chegaram, o motorista acordou, apanhou uma escopeta e simplesmente saiu atirando em todo mundo, sem mais nem menos, não é isso, sargento?
- Precisamente.- Responde o oficial da polícia.- Esse sujeito, de nome Jurandir Medeiros, escapou do hospital psiquiátrico noite passada. Um homem absolutamente descontrolado, dado a repentinos acessos de fúria. Nessa chacina ele matou seis atropelados, feriu cinco e matou mais oito a tiros, três das vítimas eram do nosso batalhão. Um verdadeiro massacre.
- Impressionante mesmo, sargento. Como foi que conseguiram deter o cara?
- A gente nem precisou fazer nada. Assim que acabaram as balas, Jurandir simplesmente desmaiou na frente dos policiais, espumando pela boca.
- Ele tava dopado?
- Positivo. Encontramos no porta-luvas do carro, roubado, inúmeras caixas e potes de psicotrópicos, todos vazios, e uma garrafa de vodca quase no fim. Os seguranças do hospital contaram que todos os remédios foram saqueados do almoxarifado da instituição. O meliante ingeriu quase um quilo de remédios de tarja preta antes de conseguir escapar.
- Muito obrigado, sargento. Viu só que absurdo, Francisco? A cidade certamente levará muitos dias para se recuperar desse massacre. Fabinho do Sufoco, o repórter que trabalha mais duro no Estado, para o Diário do Chicão.

Fecha o VT. Lá está Chicão, suando de medo da reportagem, de braços cruzados, quase em choque. A câmera dá um close dramático no rosto dele, esperando que diga alguma coisa. Mas passa-se quase um minuto sem que diga nada.

- Sr. Prefeito?- Diz o diretor do programa- Sr. Prefeito, tudo bem? CHICO?!? Mas que... Ficou catatônico diante da câmera de novo! Corta pro comercial e tira ele de cima da mesa, gente!






Um comentário:

  1. Para esquecer um problema, nada como outro maior. Agora, pensando na chacina de BH, os modestenses se esquecem um pouco do asfalto da cidade.

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