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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

J & A?


A
lexia desce para a lanchonete, vestindo seu uniforme de frentista e carregando sua fiel guitarra Schecter verde-oliva. Jakson dá uma espiadinha na bunda dela com a porta entreaberta e dá sinal de positivo com a cabeça. Olha pro relógio, como se estivesse cronometrando os passos dela.

- Tá fazendo o que, Jakson?- Interompe o irmão caçula.
- Não é da tua conta, cabeção! Vai tomar banho!
- Mais um? Tomei ontem, tá lembrado? Sem querer, mas tomei.
- Ah, vai te catar, véi!

A ruiva apanha um matinho de capim-limão no matagal seco que adorna as laterais malcuidadas do prédio do hotel e o espeta entre os dentes. Ajeita os salgados pra assar e fritar e põe a água do café para ferver. No andar de cima, Jakson se prepara pra se aproximar dela pela primeira vez.

- Hoje a ruivinha entra no meu bolso!

Alexia anota uma letra de música no caderninho de notas enquanto aquece os quitutes, ensaiando algumas notas na guitarra enquanto anda pela cozinha. Jakson chega de fininho e encosta na porta da lanchonete para admirar a carne mais de 1ª que já havia visto em seus quase trinta anos.

- A música é sua?- Ele pergunta, dando um tremendo susto em Alexia, que quase derruba a água fervente e uma frigideira cheia de óleo no chão.
- AH! Pôxa, Ocê me assustou, cara!
- Ââââhn... Uhum... Foi mal, moça, eu não...

Aparentemente, a primeira impressão de Jakson estava mais que sepultada, mas assim que Alexia olha melhor para os olhos castanhos dele, sua juba loira e sua barbicha...

- Kurt Cobain...- Ela pensou- Mas esse carinha é... É o cuspe de meu Kurt!
- Quer ajuda, ruivinha?- Ele fala, tentando acordá-la de seu transe.
- Âhn?- Ela se levanta, meio envergonhada- Carece não, gato.
- Se tu diz...

Ela pega um café com leite e um pão de queijo pra ele, tentando controlar a paixonite.

- Por minha conta.
- Valeu, gata. Ainda não disse se aquela música era sua.
- Aquilo? Ah, né nada sério, não. Tive uma transa mais ou menos lá em Juiz hoje à noite e acordei com um caquinho na cabeça... Tá a fim de ouvir?
- Manda ver!
- Então tá... A coisa vai mais ou menos desse jeito...

Ela começa uma batida bem blueseira na guitarra e começa a sussurrar algo que só de muito longe lembra uma letra de música.

“Tento puxar um papo após a
Transa, mas o cara desmaiou
O sol do meio-dia me acorda
E o safado já me largou

Caminho pela estrada
Triste e desimpedida
O deserto me compreende
A solidão é minha amiga

Assim prossigo
Assim prossigo
Meu dado é viciado e meu
Destino quer acabar comigo”
Ele mal presta atenção à letra da música, pois os olhos dele não saem do discreto, porém convidativo, decote dela. Mas pelo bem do cavalheirismo ela começa a assobiar e bater palmas assim que ela acaba de tocar.

- Tem talento pra dar com pau, hem, ruiva?
- Gadinha... Ocê é aquele que ficou babando por mim no orelhão ontem, né não?
- Como? Reparou em mim?
- Claro, sô. Não faz idéia de quantos homens já me fizeram aquela mesma cara quando me viram pela primeira vez. Desde que eu era menina é a mesma coisa... Tem mulher bonita que acha que ser bonita é um saco, mas eu gosto de mim do jeito que sou.

Ele beija a palma da mão dela, deixando-a sacudida.

- Não os culpo. Até seu feto devia ser show de bola.
- Homens... Sempre com as mesmas cantadinhas fajutas...
- Por que mexer em time que sempre ganha?
- Meu nome é... Alexia.
- Ventania. Jakson Ventania. Jakson sem o ‘C’. Foi meu presente de 15 anos, omitir o ‘C’ no cartório. Ninguém pronuncia aquela letra mesmo...

Alexia ri e olha para ele com ternura.

- Aliás, que prima a tua, hem? A mão dela parece até um tijolo! Tem um cola-brinco de direita que é coisa de louco!
- É uma figura e tanto, a Barbie... Ela me falou da aventura que ocê e seu irmão caçula tiveram pra chegar aqui. Precisa ter muita coragem pra encarar uma estrada de chão naquela lata de goiabada, hem?
- Já dizia algum sábio, a linha que separa a coragem da estupidez é grossa como um fio de cabelo.

Eles riem.

- Gostei da sua camiseta. Krisiun... Ocê é metaleiro, pelo visto.
- Se sou! Adoro death metal, speed metal, thrash metal, doom metal, nu metal, power metal, HC, grindcore, ska-core...
- Também amo rock, mas sou mais da turma dos anos 60, 70 e do grunge, saca? Sou doida por Iggy Pop, Stooges, MC5, Music Machine, Sonics, Monks, Kinks, Slade, New York Dolls, Fuzztones, Soundgarden, Pumpkins, Pearl Jam, e é claro...

Ela mostra o enorme N de Nirvana tatuado no braço esquerdo.

- Só... Kurt Cobain, né?
- Meu Cristo, único e inimitável!
- A gente te ouviu tocando ontem de manhã. Tu é uma maestrina e tanto, hem?
- Valeu... Não é pra me gabar não, mas, além de minha prima, eu sou a melhor música que eu conheço. Dou aulas no conservatório da cidade.
- Sei...

Um sorri pro outro. Uli chega no Fleet, acompanhado de um reboque.

- Opa, a condução chegou. A gente vai levar nossa lata velha lá na oficina da cidade. Ou pro ferro velho, vai saber... Tchau, princesa do rock.
- Tchau, Jakson sem o C!- Ela volta para a pia e suspira- Tchau... Epa! Ah, não! Alexia, sua imbecil... Ficou lá, descascando o carinha com os olhos e deixou tudo queimar! Burra!

Um comentário:

  1. A conversa demorou tanto que deu até para incendiar o posto de combustível. Atenção Alexia.

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