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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

PAZ E AMOR, BICHO!(PARTE 2)




O
 sol da manhã começa a invadir as janelas do posto Mato Seco. Os vaqueiros seguem tocando o gado pela estrada e tocando o berrante.

- Móóóóó! Móóóóó! Quem precisa de rádio-relógio aqui em São Modesto?- Comenta Alexia, bocejando com uma tremenda cara de sono e ainda com as roupas do dia anterior. Apanha um montinho de água mineral numa garrafinha perto do fim e esfrega no rosto diante do espelho, para tentar acordar e lavar a maquiagem borrada. Bárbara sai do banho, cabisbaixa e suspirando de desânimo.

- Ah, e aí, Lex? Chegou tarde da noite, hem?
- Sabe que nem me vi chegando, sô? Era que hora?
- Umas três da manhã, eu acordei lá na lanchonete e te achei apagada, largada no banco lá fora. - Bárbara conversa enquanto procura seu uniforme na cômoda antiga e devorada pelos cupins.
- Bom, pelo menos eles foram gentis e num tive que pedir carona na beira da estrada...
- “Eles”? A noite foi com quantos?
- Hum... Sabe que eu esqueci?
- Bom, pelo menos uma de nós duas se divertiu.

Bárbara senta-se à beira da cama, olhando para o boné verde nas mãos, tentando segurar as lágrimas.

- Qual é o problema, prima?- Pergunta Alexia- Já levantou com essa cara de quem matou a mãe por engano!
- O mesmo de sempre, Lex. O posto, o posto, o posto, o posto...  Ali, dormindo debruçada no balcão, tive aquele sonho de novo. O posto, a lanchonete, o hotel, tudo pegando fogo e desmoronando... E eu aqui fora, assistindo tudo em transe, com... Com o sorriso de satanás no rosto... Amando cada segundo, vibrando...

Alexia encosta no ombro da prima para reconfortá-la.

- Relaxa, Barbie... Sabe de uma coisa? Ocê andou passando raiva demais esses dias. Pode tirar o dia de folga hoje. Veste aquelas roupas de hippie, vai passar a manhã lá na pousada, meditando com tio Xamã e tia Ganesha, curtindo aquele som psicodélico... E talvez ‘algunas cositas más’, e volta pra trabalhar à tarde. Eu assumo a lanchonete até minha hora de trabalho.
- Faz isso por mim, prima?
- Claro, podexá! Mas vê se não exagera muito na ‘fadinha verde’ por lá. Além do que, ainda são oito da manhã...
- Valeu, prima!
As duas se abraçam.

- Agora, se me dá licença...- Vai correndo pro banheiro, carregando a guitarra e um bloquinho de papel- Apertada desde ontem. - Fecha a porta.

Bárbara põe na vitrola o disco A saucerful of secrets, do Pink Floyd e acende um incenso.

- Set the controls... Faixa 3.

Assim que o baixo de Roger Waters começa a moer as caixas de som, ela muda instantaneamente de humor e se arruma enquanto dança com a música cheia de ruídos agudos e dissonâncias. Veste um vestido florido bem folgado, colar indiano, óculos escuros, um velho alforje de couro desbotado, tamancos de madeira, faz uma trança gigante com seus longos cabelos negros e põe um chapéu cloche. No quarto ao lado, Manolo e Jakson tentam suportar a barulheira psicodélica.

- Detesto essas músicas...- Reclama Manolo - Nem tomando ácido dá pra aturar esses barulhinhos de teclado que eles enfiavam ao acaso...
- E eu achando que nem o rock progressivo tinha conseguido chegar aqui em São Modesto ainda...- Brinca Jakson, passando desodorante.

Mais tarde, Bárbara vai embora do posto e tenta conseguir uma carona na beira da estrada. Ninguém se habilita. Segue a pé mesmo. Anda uns dois quilômetros no acostamento e dobra à esquerda numa estrada de chão. Conversa com o vigia da divisa e ele abre o portão de madeira para ela passar. Anda mais alguns metros no chão de terra até avistar uma placa velha, parecida com coisa do velho Oeste.

POUSADA DA PAZ 500 m ->
Liberte-se de seu corpo.
Aulas de ioga, meditação, filosofia e sexo tântrico.

Ela logo chega a um enorme e velho casarão de madeira, de quatro andares e telhado de palha, no meio de uma humilde e colorida fazenda.

- Parece até que foi ontem...

Ela vai até a varanda e toca um pequeno gongo-campainha.

- Xamã? Ô, Xamãããããã!?

Lá dentro, em profundo transe num imenso tapete indiano, estão um senhor idoso, cabeludo e barbado, vestindo roxo dos pés à cabeça e uma senhora de cabelos grisalhos usando trajes típicos da Índia, sob luzes psicodélicas ao som de Aquarius, do musical Hair. Bárbara continua soando o gongo.

- Ô Xamãããããããã!?

Ele se levanta num salto, com olhos loucos.

- Horror! Sangue! Dor! Pandemônio! Por favor, levem meu corpo, mas deixem meu espírito em paz!?
- A guerra já acabou, meu amor...- A senhora tenta contê-lo.
- Reynaldooooooo!- Bárbara insiste- Ocê tá aí, tio?

Enfim atendem a porta.

- Bárbara! Que saudades!
- Barbie, minha filha! Vem dá um abraço na tia!

Eles se abraçam.

- Há quanto tempo não aparecia aqui, meu anjo?- Diz Xamã- Achei até que tinha virado fumaça!
- Ainda não, Xamã. Não antes docêis.

Um comentário:

  1. Seus personagens são modernos demais. Não cumprem leis, num verdadeiro vale tudo.

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