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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

1.21 GIGAWATTS?!?

WE´RE BACK, BABY!!!




C
hove caudalosamente em São Modesto. Nas ruas, as crianças abandonadas tomam banho nas calhas d’água e brincam de descer as enxurradas a bordo de pneus velhos. Um velho mendigo, que desmaiou de bêbado no meio da rua, também é arrastado pela água, e alguns moleques mais malandrinhos já trataram de hastear uma bandeira de pirata nas costas dele sem que notasse. Sem ter como voltar para casa, Alexia aproveita para colocar o papo em dia com a filha mais velha do dono da mansão.

- Aposto que, hora dessas, Ulysses deve tá falando assim: “A única chuva do ano em São Modesto e eu aqui sem um sabonete”- Brinca Alexia, tomando um cafezinho.
- Ah, tem piedade, Alexia!- Reclama a outra moça, que, se considerar só a aparência, preenche todos os requisitos para ser uma patricinha de carteira de trabalho assinada-
Vai dizer que você e sua prima ainda se misturam com aquela lata de lixo hospitalar... Aquele ali não vale o sol que recebe na cara!
- E eu não sei disso, Monique? Fiquei com ele cinco anos, mas uma noite na cama com aquele ali tem mais poder que um contrato com o diabo!
- Hahahahahaha... Tem mesmo coisas que só você consegue dizer, cumádi... E diz aí, menina. Como o coração tem cuidado de ti?
- Hum... Nem sei dizer. Ontem, apareceram uns caras meio doidos lá no posto, fugidos do Rio...
- Sei.
- O mais novinho consegue meter mais medo que o Uli, mas o irmão mais velho dele, cumádi... Um galego de categoria! Bom de papo, barbudinho, loiro com o cabelo medindo quase um metro, e uma bundinha, uma bundinha que...
- Ahem!- O mordomo corta a conversa, pois a ruiva já começava a descrever Jakson com, digamos, exageros de teatralidade.
- Ih, desculpa aí, Jarbas... Acho que acabei me empolgando...
- Imagino como será quando tiver certeza, professora Moura...
- Ah, fica na sua, Jarbas!- Monique repreende o mordomo- Vai lá dentro buscar mais uns biscoitinhos pra gente, tá bom?
- Sim, senhorita...

Ele se despede e volta para a cozinha. Enquanto isso, lá na Aterro FM...

- Oh, Jah...- Uli lamenta, enquanto acende seu cachimbo- A única chuva do ano em São Modesto e eu aqui sem um sabonete... É, palmas pra nós,galera. Demorou, mas a gente conseguiu colocar tudo em ordem em tempo recorde!
- Demoramo tua véia, espertalhão!- Retruca Jakson- A GENTE demorou dois dias pra consertar tudo, e TU ficou aí, pitando!
- Ora, cada um deve exercer sua função na sociedade. Se não existissem os folgados, não existiriam os trabalhadores.
- Tu tem é sorte que a gente ainda tá de bobeira na cidade, ô jamaicano.
- Seguinte, gente.- Manolo intervém- No que depender da aparelhagem, parece que não tem mais nada quebrado, sorrisão. O único problema agora é ir lá fora e ajeitar a antena.
- Debaixo de chuva, maninho? Quem é que vai topar uma missão suicida dessas?

Algum tempo depois, Josué e Manolo saem do bar Pés Juntos usando capas de chuva e carregando o molho de ferramentas.

- Grande jogador de dois-ou-um que você é, hem, lagartixa?- Reclama Josué.

Eles sobem pela escada de emergência no beco do fundo do bar até o terraço de um prédio, consertando uma mini-parabólica improvisada com uma bacia de metal, uns cabides presos a um fio, que por sua vez está conectado a um antigo Atari acoplado a um conversor de TV a cabo, e tudo isso está conservado em um caixote metálico com tampa. Manolo, com uma sombrinha, grampeia o cabo solto de volta na parede, que desce até um buraco no bueiro.

- Essa chuva tá crescendo, Uli. Tô começando a ficar preocupado...- Josué fala pelo celular- Qual a necessidade de acabar com isso hoje? Ninguém escuta essa porcaria de rádio, mesmo...     
- Fala menos e faz mais, grandão...
- Bom, pelo menos aquele treme-treme não afetou muito a antena ou essa gambiarra que você fez aqui em cima. Só faltam mais alguns...

Nessa hora, um raio atinge a antena na mão de Josué em cheio. A eletricidade trafega através do cabo e pega Manolo também, Acontece um apagão na emissora.  

- Mas que merda foi essa?- Chorume acende uma lanterna.
- Foi esse raio lá fora Deve ter detonado a antena...
- E os dói lá fora também.- Complementa Jakson.
- É, é. Aqueles dois...- Uli apanha o celular no chão- Jô? JÔ?!? Ocê ainda tá aí, homem? Quê que tá pegando aí fora?

Só se escuta estática por quase dez segundos. De repente, a luz volta, e com ela, a voz sussurrante de Josué.

- Tudo em ordem, Ulysses. Podem começar a transmitir.
- Jura? Tá... Tá tudo em ordem? Vamo testar então! Tião?

Chorume volta para a sala de som, vira uma porção de botões, berra ao microfone e sua voz de animal torturado ecoa por todas as caixas de som da emissora.

- VOCÊÊÊÊÊÊÊS, VOCÊS E TOOOOOOOODOS VOCÊÊÊÊÊÊS!- Tião grunhe, imitando o Zé do Caixão- ADIVINHEM QUEM VOLTOU? O PRIMEIRO E ÚNICO TIÃO CHORUME, ENCHENDO SEUS OUVIDOS DE MERDA E PODRIDÃO! A SEMPRE EFICIENTE ATERRO FM TÁ DE VOLTA À ATIVA-VA-VA-VA-VA-VA!
- UHUUUUU! Estamos de volta!- Eles comemoram- Jah, ocê não me abandonou!! Alô? Josué, ocê é mesmo um mestre no gato radiofônico! Mas que foi que pegou aí fora?
- Nada sério. Só o raio que me atingiu e eu dei uma apagadinha.- Tosse uma nuvem de fuligem- Eu continuo firme e forte, já o Manolo...

Lá embaixo, Manolo está todo chamuscado, com o cabelo ainda mais arrepiado que já era e cambaleante, dançando na escada.

- I’m siiiiiiiiinging in the rain... Just siiiiinging in the rain... Menino... Isso sim que foi onda!
Iiiiiiiiiiiiiih- hihi! Ai, minha vozinha...

Desmaia. 

Um comentário:

  1. Um raio desse era para matar os dois. Releia que dois ficou dói. E vamos conhecendo melhor essa turma do barulho.

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