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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

TE PERDOO (PARTE 1)


Violão em punho, Alexia mostra para sua amiga rica a música que vem tentando compor desde de manhãzinha.

“Olho pras pessoas mas
 Não quero conhecer ninguém
 Minha mãe diz que é errado
 Mas pra mim tá tudo bem

 O mundo é cruel e minhas rimas
 Fúteis, os conselhos que recebo
 São, no fundo, inúteis

 Assim prossigo, assim prossigo
 Meu dado é viciado e meu
 Destino quer acabar comigo”

- E então, Monique? Curtiu?
- Olha, eu olho, olho, e não consigo entender como pode caber tanta tristeza numa mulher só...
- Tem espaço de sobra nos peitos.- Alexia brinca.
- E como tem...- Elas riem alto.
- Olha só, a chuva já tá passando! Bom, acho que já incomodei bastante por aqui, cumádi. Seus criados que o digam.
- Aparece mais vezes, Alexia!
- Tenho que aparecer, né? As aulas são aqui, mesmo...

O escocês, Uli, Josué, Chorume, Manolo e Jakson assistem à TV no bar, comendo uns torresminhos e enchendo a cara. Jakson folheia um jornal.

- Mulher aqui por essas bandas é um negócio difícil de conseguir, Manolo- Diz Uli.- Tirando Alexia e Barbie, todas as mais comíveis ou tão comprometidas ou fugiram pra Juiz de Fora. Mas se o que ocê tá a fim é só duma caçapa pra sua bola, na cidade tem duas casas de mulher, o Clube Brigadeiro, que é a zona dos pobres e a Boate Zácaro, que é a dos bacanas. Já não me deixam mais pernoitar no Brigadeiro porque eu tô devendo até as tripa pra eles, e no Zácaro... Bom, tive um rolo com a filha do dono, aí já viu...
- AH, NÃO!- Jakson Sá um furioso bofetão na bancada.- O Vasco empatou mais uma de 1 a 1? Faz favor, pôrra!
- Hehe... Timeco marca-bosta esse seu, hem, carioca?- Escocês sacaneia o pobre torcedor.
- Pôxa, quer me matar do coração?
- Tu tem um, Ulysses?
- Olha, agradeço muito pela mão que todo mundo deu pra gente na rádio hoje.
- Que é isso, Uli.- Agradece Jakson- É o melhor que a gente pode fazer pra pagar pela grana que tu descolou pra nós.
- Então, quer dizer que o prefeito da cidade também tem um programa policial? Pergunta Manolo.
- Arrá... E famoso no estado todo, por sinal. Mais pelo pastelão que pelas, como ele diz, “cenas chocantes”...
- Esse prefeitinho nosso é bisonho.- Chorume fala de boca cheia, babando torresminho mastigado pra todos os lados- Tem uma capacidade enorme de apontar tudo que tem de errado...
- E a mesma capacidade pra não mover uma palha pra consertar.- Complementa o Escocês.
- Cala a boca, que vai começar!
- A partir de agora, de São Modesto para todo o estado, mais uma vibrante edição do Diário do Chicão, com ele. O seu, o nosso prefeito, Chicão Rotscheider!

Claque de aplausos.

- Muito boa tarde, caros conterrâneos modestinenses, e de toda Grande Minas.- Entra em cena Chicão, com o sorriso mais plastificado do planeta, socado num terno bege apertadíssimo, que o faz parecer um bote salva-vidas enrolado- Fecha em mim, Olho Mágico! Boa, boa... Antes de trazer as manchetes do dia, gostaria de lhes dar um recado. Música heróica, por favor. Isso... Como todos devem se lembrar, semana passada eu fui atacado enquanto saía de minha casa.

Nas imagens de arquivo, mostram os seguranças do prefeito tentando defende-lo de manifestantes furiosos. Um dos seguranças se assusta, se abaixa e o prefeito acaba levando uma pneuzada na cabeça, caindo durinho no chão.

- Cachorro! Sem-vergonha! Volta pra cadeia, filha-da-mãe!

No estúdio, o prefeito tenta se segurar e manter a pose, acariciando sua medalhinha.

- Desgraç... A-ham... De qualquer modo, deus criou os seres humanos para perdoarem uns aos outros. Em qualquer outro lugar do mundo, tal ato seria motivo para prisão perpétua, e talvez até pena de morte, mas não em São Modesto, lar da paz e da civilidade. Descobrimos que o agressor é um pedreiro de 37 anos chamado Romualdo Santos de Almeida. Apesar de ter sido brutalmente agredido e ter passado dois dias desacordado, eu tenho apenas uma coisa a dizer, com todos os meus queridos modestinenses e o estado de Minas Gerais como testemunhas. Ô Olho Mágico! Fecha aqui em mim!

A câmera fecha no rosto dele. Ele diz da forma mais dramática possível.

- Em letras garrafais: TE PERDOO... ROMUALDO!

Sorri para a câmera, com uma lágrima microscópica descendo pelo rosto. Claque de aplausos.

- Agora, vamos às manchetes!

De volta ao bar...

- Dá pra acreditar nessa história?- Pergunta um Jakson indignado- Viram o monte de vezes que ele piscou enquanto falava?
- Quem é que sabe?- Responde o escocês- Mas pelo sim e pelo não, é melhor a gente abrir o olho. Com um pouquinho de sorte, esse torresminho aqui pode até ser a bunda de Romualdo!

Os quatro cospem o torresmo de nojo.

- Olha que Jah castiga, escocês! Não se brinca com uma coisa dessas!
- Hum... Até que Romualdo tem um gosto bom...- Chorume faz piada.
- Seu Nojentão...

Um comentário:

  1. Conheço essa história, porém o nome do agressor era outro, embora se inciasse também com "r". Ficou ótima essa parte, com diálogos atraentes. Muito bem.

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