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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

TE PERDOO (PARTE 2)



N
o dia seguinte, perto do sol terminar de nascer, uma Parati verde-musgo deixa o posto.

Bárbara- Te cuida na capital, Lex. Tcha-au!
Alexia- ‘Té amanhã, prima.

Na cidade, as coisas tentam retornar à sua normalidade. Quem passasse por São Modesto de passagem, sequer pensaria que, há apenas três dias, seus cidadãos encararam um verdadeiro inferno com as bombas do prefeito. Donas de casa vem subindo a ladeira com os sacolões da feira, cumpádis mais antigos já apanharam suas violas para passar o dia sentados nos alpendres, entoando modinhas e contando causos, como sempre fizeram. Meninos de rua brincam de montar castelinhos com os restos de asfalto, até o capataz das obras vir expulsá-los. Quanto ao asfalto semi- novo, os peões trabalham a todo vapor, sendo que a entrada da cidade e mais um pouquinho de chão já foram re-asfaltados.

- Algum problema, Zelão?- Pergunta o capataz a um dos peões.
- Sei não, capatáis. Esse asfarto num apraina de jeito ou maneira! Tem cadas pedação!
- Ocê não é homem, não? Continua empurrando com a pá até abaixar tudo, homem de Deus!
- Sim, sinhô...

Ele continua fazendo uma força danada com a pá, a fim de fazer o bolo de brita e piche se mover. Até que o capataz ouve um grito de pavor e vai correndo ver o que houve.

- Que foi, Zelão? Atacou da hérnia?

Ele mal consegue falar.

- Fala logo, homem! O que aconteceu?
- Seu.. Seu capatáis... Dá só uma espiada aqui!

Ele puxa a pá, revelando um braço saindo do preparado de asfalto! Todos os peões se aglomeram para ver.

Zelão continua a cavar, revelando o resto do corpo do defunto. Os construtores não acreditam no que vêem.

- Que barbaridade!
- Quem terá feito isso?
- Devem ter afogado o coitado no piche de madrugada!
- Será que alguém conhece ele?

Os curiosos não param de aglomerar. Um obreiro vai correndo até o capataz.

- Sinhô?
- Que foi agora?
- É melhor o sinhô vim aqui vê!

Eles andam até um tanque de piche. Outros construtores arrastam um saco preto de pano enorme para fora dele, o abrem e dentro dele está um dos guarda-costas do prefeito. O pavor é geral. Vai juntando cada vez mais gente em torno dos corpos. Dona Abelzinha, chegando à cidade de bicicleta para o trabalho, fica apavorada com tudo aquilo e corre para a prefeitura. Ignora todas as pessoas que tentam cumprimentá-la e sobe direto para o gabinete.

- Prefeito! Prefeito!

Ele dormia na cadeira de prefeito com um surrado exemplar de “DESOBEDEÇA OS DEZ MANDAMENTOS E TENHA O MUNDO A SEUS PÉS” sobre o rosto, e acorda num salto.

- AI! Dona Abelzinha? Isso lá é jeito de começar o dia? Que aconteceu?
- Prefeito... Asfalto... Tanque... Corpo...
Prefeito- Calma, Dona Abelzinha! Uma coisa de cada vez.

Só se ouve o berro de fora da prefeitura.

- ACHARAM OS CORPOS??? MAS COMO???

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