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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A PEQUENA ATLETA (PARTE 1)


BELO HORIZONTE. COLÉGIO INTERNO JOHN CALVIN. No vestiário do ginásio, cinco garotas vestem suas malhas de ginástica e arrumam os cabelos. Uma negra, loura alta de cabelos cacheados, duas gêmeas orientais e uma morena baixinha e acanhada, de corte Joãozinho. Dentro do vestiário há alto-falantes espalhados por toda parte, repetindo com uma voz feminina monocórdia “Vocês são únicas, vocês são as melhores, vocês são extraordinárias, vocês são vencedoras”. Elas olham umas para as outras, com ar enfadado. Entram no ginásio de mãos dadas e são ovacionadas pela torcida. Todas levantam os braços e agradecem com sincronia total, e sentando-se em cadeiras no centro do ginásio. Um mulherão de uniforme, com físico de estivador e cabelos curtos pretos amarrados num pequeno coque, apanha o microfone.

- Boa tarde para todos vocês! Meu nome é Falésia Trucão, e sou a responsável pelo treinamento de nossas ginastas. É com imenso prazer que anuncio agora as atletas que irão integrar a delegação mineira de ginástica artística no campeonato nacional! De Belo Horizonte, Brígida Costa e Silva!

A loira se levanta e agradece aos aplausos.

- De Montes Claros, Aldênia Cândido!

A mulatinha se levanta e agradece os aplausos.

- De Juiz de Fora, Rita e Eliana Ozunu!

As gêmeas se levantam e se abraçam.

- E por último, mas não menos importante... De São Modesto...

Toda a platéia fica se perguntando “De onde?”, sem entender nada.

- Clarissa Bernardes!

Ela fica na dela.

- Clarissa Bernardes... Clarissa Bernardes?

Continua na dela. Brígida a puxa pra fora do banco à força.

- Levanta logo, Clá! Já vi sua família daqui!
- Não, não, eu não...

Assim que ela se levanta, lá estão tia Flor e Alexia, no topo da arquibancada, fazendo mais barulho que todo o público junto. Todo mundo olha pras duas. Clarissa fica vermelha de vergonha.

- Tá vendo porque eu não queria levantar?
- Relaxa, Clá!- Aldênia a acalma- Faz parte da festa!

Mais tarde, Alexia, tia Flor e Clarissa entram no estacionamento de um shopping. Clarissa parece morta de cansaço. Apesar de também não estar em seus melhores dias, Alexia tenta levantar o moral da prima.

- Qualé, Clarissa? Por que essa cara? Amanhã ocê faz 13 anos, pôxa!
- Não acredito que a Bárbara furou comigo de novo...
- Sua irmã é sua irmã, né, filha? Eu sei que é um sonho seu que ela se acerte contigo, Clá. Mas...
- Já sei o que ‘cê vai dizer, mãe... Aconteceram uns probleminhas no posto, alguém morreu, a cidade foi inundada, têtêtê, têtêtê, têtêtê...
- Birra hoje não dá, né, filha? Nada vai me tirar o orgulho que ocê me deu hoje! E então? Vamos começar a comprar?

Elas saem correndo na frente de tia Flor. Logo, as três ficam vidradas com todas as vitrines majestosas e as últimas tendências da moda. Alexia entra numa loja de instrumentos musicais e aponta para uma estranha guitarra Danelectro Dano Pro lilás na vitrine. Clarissa e Flor a observam do lado de fora.

- Posso testar aquela ali?
- Claro, moça. Só um momento.

Ele pega a guitarra e a liga num cubo de distorção.

- Nananananá! Só eu escolho o volume do meu som!
- Xi. Lá vai ela de novo...- Resmunga tia Flor.

Ela começa a tocar a introdução de Nitro, de Dick Dale, de olhos fechados. Em cinco segundos, o shopping inteiro vai correndo pra vitrine da loja assistir o show acidental de Alexia. Ela permanece alheia a tudo.

- Por Kurt! A primeira Dan que eu toco que não tem som de guitarra pra principiante! Põe aí na quentinha, que mês que vem eu volto pra buscar essa, OK?

Dá a guitarra para o atendente embasbacado com a habilidade dela. Ela sai da loja e fica espantada com toda aquela gente assistindo ela tocar.

- Ih, foi mal, gente. Acabei me empolgando um tiquinho...

Todos acham graça da modéstia dela. 

2 comentários:

  1. O desenho ficou realista, pois mostra a solidão e sacrifício dessas meninas. Conseguiu dar o tom certo a timidez e aos treinamentos.

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  2. Grande Fernando!
    Gostei do argumento, da profundidade temática e das personagens.
    Da abordagem intensa acerca das questões humanas.
    Um texto leve e instigante que só poderia ter nascido da sua maestria.
    Parabéns. Um brinde à elegância e criatividade.

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