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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

DECREPTUS



O FLEET ESTACIONA EM FRENTE A UM EDIFÍCIO VELHO de três andares, com cara de abandonado, repleto de tábuas pregadas nas janelas. Toca Bad boys, do Inner Circle, no rádio. Apenas Uli e Manolo estão no carro.

- Sinceramente, eu não sei porque ocê quer ir embora lá do posto. Bárbara reclama tanto de falta de dinheiro, de falta de freguês. Aquele quarto do hotel é até bonzinho procêis dois...
- Sabe o que é ser acordado com o som de Pink Floyd e Yes às 6:30 da matina pra um punk? Prefiro entrar num latão e deixar uns guris baterem nele com porretes o dia inteiro!
- Exagerado... Olha só. Aqui é o bom e velho Edifício Decreptus... Esse prédio aí foi abandonado quando eu cheguei à cidade. Se seu plano for viver clandestinamente, sem pagar nenhum imposto, aqui é sua nova casa, moleque... E o melhor de tudo, é o único prédio da cidade que não leva o sobrenome do prefeito, hehe.

Ele apanha um pé-de-cabra na mala do carro e arranca fora o cadeado do portão de grade, sendo pego de surpresa por um quase literal tsunami de ratos, baratas e morcegos, saindo apavorados de dentro do prédio.

- Socooooooorrooooooo...!
- Gente, isso sim que é comitê de boas vindas!!- Brinca Manolo- Quase tanto rato e barata como lá em casa...

Eles continuam explorando o ambiente com lanternas. As paredes internas do prédio estão com a tinta azul descascada, embolorada e gasta. Há garrafas de bebida, sangue seco e pontas de cigarro por todos os lados. Sai um rato de dentro do bolso do paletó vinho de Uli. Depois ele ira o gorro da cabeça, e tem dois ratos agarrados nos dreads dele.

- Eu não dou bola pra limpeza, mas bem que um desinfetante e umas escovadas não fariam mal a esse puteiro!- Comenta Manolo, tampando o nariz com a manga de sua inseparável jaqueta rasgada.
- Na verdade, maluquinho, tem uma história a respeito desse prédio.
- Hum.
- Reza a lenda que ninguém conseguia morar no apartamento 202 por uma semana completa, porque quando chegava o domingo, os moradores simplesmente deixavam de existir.
- Como assim?
- Vai saber... É como se o apartamento engolisse eles, sem deixar nada pra trás, senão roupas e móveis.
- Animal, cara. Animal...
- O prefeito resolveu interditar a parada quando assumiu o cargo, para que ninguém mais tentasse viver aqui.

Eles chegam ao famigerado apartamento 202. Uli aponta o pé-de-cabra pra maçaneta.

- Quer arriscar?

Mad atravessa a antiga e mofada porta com o calcanhar, como se fosse de isopor.

- Tranqüilo, jamaicano..Se nem os 36 quartos do hospício conseguiram acabar comigo, quem dirá um apartamentozinho mal-assombrado?

Todos os móveis do último morador continuam em seus lugares originais, inclusive o porta-retratos do casal com os três filhos sobre a mesinha de centro. Nem mesmo a tinta das paredes desbotou. Manolo adentra o apartamento.

- ...Hospício?- Uli fica pensativo.- Olha, melhor tomar cuidado onde ocê pisa, Vai saber a quanto tempo ninguém anda...

Distraído, o garoto rebelde acaba pisando em falso no tapete da sala e atravessa o assoalho podre como numa cena de desenho animado, indo parar no hall de entrada do prédio.

- Nesse lugar...- Uli acende o cachimbo- E aí, maluquinho? Morreu?
- Aaaaaai... Nada não, Ulysses. Aterrissei de cabeça!

Mais tarde, no posto, Mad, Jakson e Ulysses enfim consertam o rombo que abriram no teto da oficina, com ajuda de Josué.

- Não dá pra acreditar que a índia quer mesmo remendar essa laje velha...- Reclama Manolo- Se liga só, mano! Esse negócio tá tão ruim que dá pra atravessar o forro com um lápis!
- Óia, então é melhor ocê sair daí de cima, Manolo.- Alerta Ulysses.- Lembra o que aconteceu lá no Decreptus, lembra não?
- Ah, aquilo foi bobagem, véio! Acha que eu fico caindo em tudo que é buraaaaaaaaaaa... !

O desastrado atravessa um piso pela segunda vez na mesma tarde.Os três vão olhar pelo buraco o que houve com ele.

- Aaaaaaai, merda...
- Caiu de cabeça de novo, maluquinho?
 - Bom trabalho, lepra de óculos! Agora a gente tem que tapar dois rombos na laje!- Jakson joga a ponta do cigarro que fumava nas costas do irmão.

Enquanto isso, Bárbara dança e canta na lanchonete ao som de Aquarius no rádio, estranhamente à vontade e alheia a tudo. Uli se impressiona.

- Vou te dizer uma coisa, Barbie. Não conheço o tal Xamã, mas ele faz verdadeiros milagres!  Sua testa nem tá mais franzida de raiva!
- É, são os incensos que ele faz. Nem quero saber qual é o ingrediente, mas dá até pra sentir a raiva fugindo pela pele.
- Tenho cá minhas teorias...
- Escuta, ocê não devia tá lá em cima, colocando os tijolos com os cariocas?
- Dever eu devia mesmo, mas sabe como é, né? Ficar todo suado contraria os ensinamentos de Jah.
- Tô sabendo... Vem logo!

Ela lhe puxa para fora da lanchonete pela orelha e sobe a escada ao lado da oficina.

- Ai! Ai! Essa é a Bárbara que eu conheço e adoro!

Logo anoitece. Uli, Manolo e Jakson estão ao balcão, comendo e vendo TV. Bárbara se apressa para atender o orelhão do posto de gasolina, que já estava em sua 6ª badalada.

- Abaixa a porcaria do volume aí, Ulysses!- Berra Bárbara lá de fora, tirando o fone do gancho.- Isso... Posto Mato Seco, pois não? Oi, Lex! Como tá aí em BH? Legal. Amanhã de manhã? Quer que eu faço um café da manhã procêis? Ok então, prima. Tô no aguardo! Beijo.

Põe o telefone no gancho, levando a mão à testa para lamentar.

- Ah, meu saco... Mãe e Alexia vêm chegando pela manhã com Clarissa...
- Quem?- Pergunta Manolo.
- Clarissa, irmã mais nova de Bárbara.
- Aquela intrusa NÃO É MINHA IRMÃ!!- Bárbara soca a mesa- Foi muita audácia da mamãe... Como eu não conseguia ser a filha dos sonhos dela, resolveu adotar um nenê na cara dura, só pra me provocar!
Ela apanha um pequeno arranjo de flores de plástico numa mesa e o esmaga de raiva. Jakson tenta conter a raiva dela, mesmo estando a ponto de urinar nas calças de medo.

- Fica tranquila, Bárbara! Não pode ser tão ruim assim!
- É mesmo.- Intervém Manolo- Até ano passado, Jakson ainda me chamava de adotado!
- Voltem pro Rio, ocêis dois! Ai, meus nervos... Preciso... Preciso duma tela azul da morte cerebral...

Tira uma dúzia de incensos “mágicos” do bolso, coloca dentro do vasinho de flores e acende, colocando o nariz bem em cima da fumaça e respirando fundo. A testa dela perde o franzido quase instantaneamente e ela entra em transe.

- Eu, hem? Tão gostosinha e tão doida...
-Ainda bem que ela apagou, Jakson, senão ocê ia ver o lixo em que ela ia te transformar depois dessa...- Brinca Uli- E, já que ela viajou pra Malucolândia...

O caribenho aproveita para esvaziar o caixa da lanchonete e deixar um bilhete de EU TE DEVO no lugar.
Mais tarde, no quarto do hotel, Manolo e Jakson discutem. Toca I don’t wanna hear it, do Minor Threat, no som deles.

- Como assim, sair daqui, mano? Um teto, comida, a bunda da Bárbara, os peitos da Alexia... Quer ir embora por quê, doido?
- Acordar todo dia ouvindo rock progressivo é pior que acordar ouvindo mamãe implicando com a gente, Jakson! Mais uma do Rick Wakeman e eu me jogo da janela!
- E eu até abro pra tu pular!
- Jaaaaaaakson... Ah, já caiu a ficha, malandrão... Tu quer é ficar aqui pra pegar aquela ruivinha linda, né? Vi vocês dois ontem lá embaixo no maior papo. Quase que tua língua caiu no decote dela.

Põe a língua pra fora pra zoar.

- E quê que tu tem a ver com isso, cabeção?

Dá um tapa na nuca do irmão, que morde a língua.

- AI! Caralho!
- E, depois, sair daqui e ir viver onde? Se nem carro a gente tem mais.
- Se liga, véio. Eu e o jamaicano fomo ver um prédio abandonado na cidade, que dizem que é assombrado. Pelo sim, pelo não, até que o ambiente era agradável... Pros meus padrões.
- Com alguns consertos, a gente podia se esconder lá e viver sem pagar nada. Quê que tu acha, mano? Uma casa diferente toda noite, uma cama diferente pra cada mina que a gente pegar...
- Sinceramente, eu não sei. Vamo puxar uma palha, e amanhã eu te digo.

Se deita na cama de panos listrados encardidos, virando as costas pra Manolo.

- Amanhã, uma conversa! Tu vai responder é agora!

Põe uma música de Agnaldo Timóteo no máximo, colando o aparelho de som nos ouvidos do irmão.

- AAAAAAAAAH! CHEGA! CHEGA! CHEGA!
- Então responde, Mr. Galã! Responde! Responde! Responde!!

Começa a pular em cima de Jakson como um sapo alegre. No andar de baixo, Bárbara e Uli escutam a briga dos dois.

- Ooooooh, Jah...
- Será que São Modesto tá pronta pra receber esses dois?

Um comentário:

  1. Eu acabo por me perder no cipoal de personagens, porém acho engraçados os diálogos.

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