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sábado, 9 de fevereiro de 2013

THIS MEANS WAR! (PARTE 2)




É TARDE DA NOITE. Toca I’m going home, do Ten Years After, no rádio da Parati verde-musgo de tia Flor, que começa a devorar o asfalto de volta à São Modesto. Numa emissora de TV em BH, o prefeito conversa com um jornalista na sala de edição.

- Tem certeza que quer levar essa reportagem ao ar, Sr. Rotscheider? Não sei, mas ela me parece... Desumana em excesso, até mesmo para padrões de programas policiais.
- Tá de sacanagem comigo, Sr. Altamiro? Por mais de um ano eu inventei reportagens sobre o Assassino da Caixa de Pizza sem nem saber se ele era real, e, de repente me aparece essa mulher sem uma gota de sangue dentro do corpo e uma caixa de pizza com a mão dela dentro é enviada para a delegacia da cidade? Não pode ser só coincidência!
- Mas tem certeza que quer levar uma coisa dessas ao ar sem o sol nem ter se posto ainda? Vai traumatizar as criancinhas do estado inteiro!

O prefeito limpa a testa com uma toalhinha de papel, enquanto acaricia sua medalhinha na mão esquerda.

- Sr. Altamiro. Não é nenhuma novidade que as coisas na minha cidade não vão nada bem. Primeiro eu destruí tudo com minha idéia tola de explodir o asfalto.
- Eu sei...
- E hoje de manhã me apareceram dois corpos de desavenças minhas afogados em meu canteiro de obras. Compreende minha situação? Eu PRECISO arranjar qualquer coisa, QUALQUER COISA que faça a cidade e o estado esquecerem, pelo menos por um tempo, dos meus tropeços! Essa notícia do assassino me serviu feito anel no dedo, Sr. Altamiro!
- Se o senhor diz...

O celular do prefeito toca, com “A cavalgada das Valquírias”, de Wagner, como ringtone.

- Com licença. Pois não, seu Edy da Marcenaria? Hum. Sério? Mas... Isso é sensacional! Voltarei à cidade assim que possível. Obrigado, seu Edy da Marcenaria.

Desliga o telefone, se senta numa cadeira da sala de edição e começa a esfregar a medalhinha nas palmas das mãos, conforme seu sorriso cresce. Sr. Altamiro vai até ele.

- Aconteceu algo, Sr. prefeito?
- Nada de mais, apenas as coisas voltando a funcionar do jeito que eu gosto.

Enquanto isso, em alguma ponte da capital, um vulto estaciona uma moto, solta dos braços as alças de uma mochila térmica, das que se usa para entregar comida, e a atira nas águas do esgoto e vai embora escondido nas sombras da rua sem iluminação. O impacto com a água infecta faz com que o zíper mal-fechado da mochila termine de abrir, e ao tombar para a esquerda, uma perna de mulher sem vida escapa para fora, cortando as águas com o calcanhar correnteza abaixo.

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