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terça-feira, 7 de maio de 2013

PRESENTÃO!




- O QUÊ? COMO ASSIM?- Josué, o gigante polonês, mestre de obras da nova prefeitura, discute no telefone de maneira apavorante. Os peões da obra escutam os berros vindos do almoxarifado, impávidos- Ele quer reduzir ainda mais o orçamento da obra? Não tem condição! Eu já trabalho nesse canteiro há três anos, nesse tempo a gente só levantou o primeiro andar de um prédio de cinco! Já cortou pela metade a brita, a cal, o concreto, e agora mais essa? Tenha santa paciência! O que Chicão espera que a gente faça, que espalhe a argamassa com uma faca de manteiga pra fazer render? Ah, vai... Olha, não quero nem saber de nada, seu Iracy! Nessas condições, se você não conseguir fazer o prefeito mudar de idéia, pode pegar meu capacete, meu crachá e enfiar naquele lugar dele! Te dou até terça-feira pra cumprir minha exigência. Passe bem!

Ele bate o telefone no gancho e arrebenta a porta do almoxarifado com um chute. Os operários saem todos do caminho enquanto ele anda a passos tão pesados como os de King Kong. Vai até o bebedouro, aperta o botão da torneirinha e não sai nada. Com sangue nos olhos, ele começa a espancar o aparelho até ficar parecendo uma latinha de refrigerante achatada.

-QUE É QUE FOI?!? TÊM NADA PRA FAZER NÃO? VÃO LEVANTAR UM MURO, ANTES QUE ADONAI CASTIGUE!- Todos os peões saem correndo apavorados.

Do lado de fora do posto, Clarissa treina sua rotina de acrobacias de ginástica, usando um velho banco de madeira como cavalete. Alexia toca Brasileirinho no violão para acompanhar a prima. Bárbara assiste à rotina com indiferença.

- Isso aí. A nova foca amestrada do zoológico...- Diz Bárbara, irônica.
- Quieta, Bárbara! Isso é jeito de falar de sua irmã?- Flor a repreende- Parabéns, filhinha! Melhorou muito desde ano passado!
- Isso aí, prima!- Concorda Alexia- Daiane dos Santos ia morrer de inveja.
- Por isso que ocê resolveu tocar logo essa música, Lex?
- É mesmo, Lex. Foi a primeira música da sua vida.- Diz Bárbara- Por que foi se lembrar dela justo hoje?
- Ah, nem sei, Barbie...

Ela manda o solo final a 500 por hora no violão, chegando a estourar duas cordas.

-Boa, Armandinho!- Brinca a prima.

Clarissa tenta dar um avião no encosto do banco, mas acaba perdendo o equilíbrio na ponta do pé e cai deitada no banco. As três vão ajudá-la.

- Minha filha!
- Que foi que aconteceu?
- Nada não, gente. Minhas pernas ainda tão meio moles da viagem. Acho que vou voltar pra cama...
- Dormir MAIS? Parece até um urso!

Elas são interrompidas por uma van roxa entrando na estrada de chão, a caminho do posto.

- Olha só!- Bárbara se impressiona- Vêm vindo fregueses aí!
-Todas quietinhas aí atrás!- Diz a motorista- Não vão estragar a surpresa!

Assim que a van encosta e o vidro da porta direita começa a baixar, Bárbara começa a falar.


- Olá, forasteiros! Bem-vindos ao posto...

Clarissa reconhece os olhos azuis gélidos e o cabelo preto curto amarrado e fica espantada.

- Treinadora Trucão?
- E não vim sozinha...

A porta maior da perua se abre, revelando as colegas de Clarissa, cheias de presentes nas mãos.

- SUUUUUUURPREEEEESAAAAAAAAA!!!
 - Brí! Den! Liu! Ritinha!! O que vieram fazer aqui?
- Como o que viemos fazer, Azul?- Pergunta a ginasta negra.
- Achou mesmo que a gente ia deixar seu níver passar batido, boba?- Emenda uma das gêmeas.
- Não fosse eu ter o Google Earth no celular a gente nem tinha conseguido chegar aqui, Clá.. Em todo lugar que a gente perguntava por São Modesto, as pessoas diziam “ONDE?”
- Pôxa, meninas! Eu tô até emocionada...- Começa a chorar de alegria. As colegas dela saltam para fora da perua para um caloroso abraço em grupo.

- Azul, Azul...- Brinca Aldênia- Sempre a mais emotiva da turma...

Todas começam a cantar o Parabéns da Xuxa, carregando a colega nas costas. 

No Edifício Decreptus, Manolo, Jakson e Ulysses vasculham a área com lanternas.

- Viu só, Jakson?- Diz Manolo- A casa tá todinha mobiliada! Basta colar uns pôsteres, puxar um gato no poste, dar uma espanada em tudo... O único galho vai ser arrumar água encanada, mas...
- Fecha o bico, Manolo!

Enfia um chute na virilha dele, que cai de joelhos. Vem apontando o indicador no nariz do irmão caçula.

- Viu o mico que tu me fez pagar? Deixei Alexia plantada lá no meio da estrada pra vir te pegar, seu leproso! Agora ela deve tá me querendo morto!
- Também, quem mandou trocar um par de seios por dois pares de rodas? Tu foi um tremendo zemané!
- Não fala mais comigo, cabeção! Vai caçar tua turma!

Uli acende seu cachimbo.

- Pára de ferver, carioca! Ó. Ocêis dois ainda não conhecem Alexia direito. A gente já namorou por cinco anos, fiz coisa muito pior com ela e a gente continua amigo! A mina tem uma cabeça boa. Assim que ‘cês dois se encontrarem de novo, vai ser como se não tivesse acontecido nada.
- Verdade isso? Tu e ela já ficaram?
- Pode escrever, carioca. Ninguém resiste ao meu charme de mascate!
- Convencido...

Um comentário:

  1. Os diálogos continuam bons e autênticos, porém estranhei o cabelo curto e amarrado. Não seria preso, a franja por exemplo, por uma presilha?

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